28 de maio de 2020

2 margens 2020.05.28


Misturas

O Diácono Remédios, essa figura incontornável da cultura pop de XX diria do alto da sua sapiência: “Não havia nexexidade”. E foi isso mesmo que pensei ao ouvir a homilia do Domingo do Senhor Santo Cristo dos Milagres pelo Reverendo Cónego Adriano Borges. Sem querer entrar no terreno da interpretação bíblica, mas fazendo-o, eu diria que a parábola da apresentação de Jesus a Caifás, nem sequer foi feliz, bem pelo contrário, mas isso é arte que o clérigo saberá melhor do que Eu. Já a condenação de uma decisão de um tribunal, roça o domínio do inadmissível e uma tomada de partido escusada. A submissão da igreja ao poder dos homens é de longa data. Precisamente Caifás, o sumo-sacerdote contemporâneo de Jesus, disso era acusado por pactuar com os abusos de Pilatos o Juiz. Por cá, desde a fundação da nacionalidade a mescla é enorme. E mesmo no tempo do Estado laico das liberdades conquistadas, não esqueço os avisos no final das missas por esses Açores fora onde os reverendos, cheios de boas intenções, apelavam ao voto naquele partido que apontava as setas ao Céu. “Não havia nexexidade”.

In Jornal Açoriano Oriental edição de 26 de Maio de 2020

19 de maio de 2020

Minudências



Essa coisa de cumprir leis fundamentais e termos uma constituição é uma maçada. Mais! Quem defende essas coisas é inimigo do povo, dizem pelo submundo das redes sociais os defensores da saúde pública, transversalmente, desde os mais ignorantes aos supostamente mais sabidos, com as mentes confinadas, essas sim, pela campanha do medo sem fundamento cientifico algum, que as autoridades, também elas “borradas” de “cagufa”, por aí foram perpetrando. Estão todos prontos e na linha de partida para crucificar quem agita a bandeira dos direitos, liberdades e garantias. Memórias curtas, visões seletivas e práticas atávicas de quem muito bem instalado no teletrabalho ou no “dolce fare niente” se arroga o direito de confinar os outros para que não lhe peguemos o fogo no rabo-de-palha. Há um Ventura em cada Açoriano, em cada Português. Isso durará até ao dia em que vão ter que pagar a conta calada com os cortes do costume e sem subsídios de natal e férias. Nessa altura a tal lei fundamental será agitada pelos mesmos que agora a desprezam.


In Jornal Açoriano Oriental, edição de 19 de maio de 2020

12 de maio de 2020

Inutilidade



Estão a ser detidos, ilegalmente, em unidades hoteleiras do Açores cidadãos portugueses pelo simples facto de viajarem para as ilhas em uso do princípio constitucional da continuidade territorial. Não bastara já isso ser mau, agrava que uns pagam a conta no final e outros não, em função da área de residência habitual. Estamos perante aquilo que em português corrente se pode chamar de uma “birrinha” pela decisão do Governo de Portugal não ter fechado os aeroportos da Região invocando o tal preceito constitucional mesmo que árido. Tudo isso tem passado sob as barbas das mais diversas entidades obrigadas à proteção dos cidadãos, Ministério Público, Ordem dos advogados e Representante da República. O Sr. Embaixador Pedro Catarino, certamente em cumprimento das ordens do Sr. Presidente da República, com quem diz falar todos os dias, finge-se de morto e dessa forma está a demonstrar a inutilidade do cargo que ocupa, mesmo quando o Governo Regional dos Açores está a fazer um esforço hercúleo para ofender a constituição e assim demonstrar a necessidade do mesmo ou, pelo menos da função.

In jornal Açoriano Oriental, edição de 12 de Maio de 2020

5 de maio de 2020

Calamidade


 Estamos a assistir a uma tentativa de prolongar, em Estado de Calamidade, medidas que apenas podem ser tomadas em Estado de Emergência. Atentemos às diferenças: A declaração do Estado de Emergência permite suprimir direitos fundamentais porque esse decorre de um processo que envolve o Presidente da República e a Assembleia da República, cuja legitimidade democrática é inegável, e o Governo que não sendo eleito diretamente depende de ambos os mencionados; Já o Estado de Calamidade é meramente administrativo e basta meia dúzia de medidas, abusivamente implementadas, para se vislumbrarem, à vista de qualquer mero aprendiz de introdução ao direito, que elas ultrapassam as possibilidades constitucionais. Não vale tudo, “a bem da nação” ou como agora se diz em “politiquês” em nome da saúde pública. O Estado de Direito Democrático, ao invés do Estado Totalitário, é aquele em cujas instituições o cidadão é protegido por leis emanadas pelos eleitos democraticamente, executadas por um poder derivado desse sufrágio e com um poder judicial eficaz. Isto não é a Hungria.

In jornal Açoriano Oriental, edição de 05 de maio de 2020

28 de abril de 2020

Morrer da cura

A voz embargada do Presidente do Governo no fim de uma recente entrevista à RTP-a não enche a barriga àqueles que recorrem diariamente aos movimentos cívicos por um prato de sopa. Nem pouco mais ou menos. As estratégias de contenção do vírus, são uma utopia que apenas servem os que, com o vencimento garantido, estão em casa sem nada fazer um fazendo muito pouco. Por outro lado estão a destruir a uma velocidade avassaladora, empregos, empresas, famílias e até a matar doentes ditos não-covid por falta de assistência médica e exames de diagnóstico, mais do que do próprio vírus, estamos a, padecer da cura. Não vamos acabar com este maldito vírus nem dentro de 2 anos mesmo para os mais optimistas, estaremos sempre sujeitos a uma segunda vaga antes de existirem vacinas e tratamentos eficazes. O Mundo não pode ficar parado esse tempo todo. As economias mais frágeis sofrerão irreversíveis perdas e os mais pobres não sairão dessa condição e verão o seu grupo engrossado por aqueles que, aos milhões, passarão da condição de remediados para a de pobres irremediáveis.

In Jornal Açoriano Oriental, edição de 28 de Abril de 2020

22 de abril de 2020

Abril confinado



A Assembleia da República, insiste e bem, em comemorar o 25 de Abril apesar das medidas confinantes do Estado de Emergência. Com a opinião púbica e publicada dividida, mais para o lado do não do que para o lado do sim, fica-nos a ideia de que nada disso tem a ver com as verdadeiras razões sanitárias mas com atavismos que ainda povoam algumas cabeças que pululam pela nossa deslastrada democracia. Digamos que essa falta de lastro é fruto de uma certa iliteracia política que o país teima em não ultrapassar. Nem mesmo nos meios mais politicamente ativos se pode ainda falar de verdadeira Democracia. Ainda há muito decisor que não leu um único livro de ciência politica, de filosofia social ou nem sequer os princípios programáticos do partido onde milita. Afinal o que faz falta é mesmo instruir. Discutir se devemos ou não comemorar o 25 de Abril é resvalar para o que de pior a politica tem, apagar memórias. E já agora arrumem definitivamente essa ideia rocambolesca de adiar eleições. A Democracia não está sitiada, felizmente.


In Jornal Açoriano Oriental, edição de 22 de Abril de 2020

14 de abril de 2020

Miseráveis




Marcelo Rebelo de Sousa já não surpreende. Só surpreendeu por ter migrado do estilo popularucho das selfie e dos beijinhos por aqui e por ali, para um regime absolutamente populista que culminou esta semana com uma chamada para o Luís, o enfermeiro que assistiu à cabeceira, num hospital público de Londres, Boris Johnson aquele a quem os portugueses, que se julgam gente,  não se coíbem de criticar. O Luis, as suas competências adquiridas e o seu profissionalismo, são a personificação do que de melhor se faz em Portugal, os nossos profissionais de saúde são do mais humano e competente que há por este Mundo fora. O Luís, no entanto, teve que emigrar para o Reino Unido para ver essas suas competências reconhecidas, em Portugal estava a trabalhar sem condições, sem equipamentos de proteção e a ganhar 6,4 euros à hora. O Luís afinal, também representa o que de mais miserável existe neste país onde a única porta para o reconhecimento é a emigração. Exportamos os melhores e exportamos recursos materiais, isso explica porque somos cada vez mais pobres.


In Jornal Açoriano Oriental edição de 14 sw Abril de 2020

9 de abril de 2020

Pela calada...



…da noite do obscuro regime do  “Velho das Botas”, polícias e subversivos atuavam entre becos e vielas. Assim ficou a expressão conhecida para esses e para outros que faziam por passar despercebidas as suas manobras secretas. Por cá, em tempos difíceis, há quem se aproveite para ir fazendo o que quer e lhe apetece enquanto a grande maioria está, forçadamente, distraída com as preocupações decorrentes da propagação do vírus. Pela calada da doença, as máquinas irromperam pelos muros dentro do jardim do Museu Carlos Machado, bem depressa e antes que algum ativista tivesse permissão de sair da toca imposta onde nos encontramos. Não havia necessidade de agir assim tão prontamente com a obra que foi sucessivamente escondida da população por gerar contestação. Pela calada da COVID-19, AMISM/MUSAMI, relançaram o concurso público internacional para a construção de uma incineradora a que chamam central de valorização energética, mais um projeto feito pela calada sabendo-se da enorme contestação social que gerou. Deve ser parte do nosso plano para revitalizar a economia da EU.


In Jornal Açoriano Oriental, edição de 7 de Abril de 2020

31 de março de 2020

Lazareto?


Chamam-nas de medidas de exceção na contenção do SARS-Covi-2.  Trata-se de confinamento em unidade hoteleira em regime de pensão completa e autorização para circular nas zonas comuns (recreio). Há quem ache isso tudo uma medida de grande alcance, de enorme responsabilidade e de coragem. Independentemente da sua necessidade e da sua eficácia, que não discuto, entendo ser um abuso de poder. Sim um abuso, uma prepotência e uma arrogância improprias dum Estado Democrático e de Direito. Nem o diploma do Presidente da República, nem o diploma do Governo, preveem medidas de confinamento de cidadãos em unidades que não sejam hospitalares. Já sei, vão dizer-me que é necessário, e até talvez seja, mas então isso demonstra que quando legislaram não sabiam o que estavam a fazer, fizeram-no apenas para legalizar as medidas então ilegais e que por boa vontade dos Portugueses já estavam no terreno. Muitos dos que clamam pela libertação do Rui Pinto, ou estão calados ou pior, tecem loas ao confinamento de cidadãos num quarto de hotel contra sua vontade. Estranho, muito estranho.


In Jornal Açoriano Oriental, edição de 31 de Março de 2020

25 de março de 2020

CEGANDO 3



O arquipélago dos Açores não fica isolado e protegido de ameaças externas graças ao centralismo dos mandantes de Lisboa. Nunca tive dúvidas! Em cada Português existe um inimigo das Autonomias, apenas uns disfarçam melhor do que outros. Estou ciente, cada vez mais, de que o regime das autonomias constitucionais apenas existe porque, assustados com os gritos de libertação dos Povos, Lisboa cedeu nos seus apetites colonialistas um poucochinho para calar as ondas independentistas. Traídos pelos seus pares, os Povos Insulares entraram de alma e coração num regime que, cuidavam, era de livre administração dos Açores pelos Açorianos, e da Madeira pelos Madeirenses. Os de sempre, os que já vinham acomodados dos tempos dos Distritos e os outros que, ainda imberbes, rapidamente aprenderam a arte da vida boa sem ondas, sentaram-se no poder desse sistema que não é nem de perto o que os Açorianos e Madeirenses desejam, mas o que Portugal permite que tenhamos. Se o caso fosse de Guerra no sentido literal do termo, essa gentalha não hesitaria em atirar-nos para as trincheiras como carne para canhão. 


In Jornal Açoriano Oriental edição de 24 de Março de 2020

19 de março de 2020

Cegando 2


O encerramento de fronteiras e consequentemente dos Aeroportos dos Açores é competência exclusiva do Governo da República. Esta é, tal como a questão das Lajes, uma das questões que carece ser repensada no aprofundamento da autonomia dos Açores. Na verdade, esta é também uma daquelas questões que deveria levar os Governos Regionais a uma espécie de “desobediência civil”, teriam, certamente, o apoio dos povos .  A contenção de um surto desta natureza não se faz com “medidinhas” nem com “meias tintas”. Ambas as Regiões são pobres, incapazes de gerar recursos suficientes para manter um nível de financiamento adequado ao sector da saúde, os meios complementares de diagnóstico são escassos e mesmo nos casos em que esse serviço está convencionado com os privados, não está ao alcance de todos no tempo desejável. Não estamos à altura de lidar com uma pandemia desta natureza, a única coisa que podemos fazer é fecharmo-nos, isolarmo-nos. É ver os patéticos globalistas a defenderem o isolacionismo. Quando o fogo chega aos seus “rabos-de-palha, as convicções esvaem-se. Estão cegando.

In jornal Açoriano Oriental, edição de 17 de Março de 2020

11 de março de 2020

Caciquismo




Leio o comunicado do último Conselho do Governo e há apenas duas palavras que me assaltam a alma, eleitoralismo e caciquismo. Quanto ao eleitoralismo, assalta-me aquela pregunta: Deve o Governo deixar de governar no último ano da legislatura? Precisamente por haver eleições, fica claro que não, bem pelo contrário. O Governo deve trabalhar e muito em especial nesse último ano de legislatura. No entanto, deve fazê-lo para encerrar um ciclo e não lançar projetos e primeiras pedras; Deve trabalhar para ara fechar processos e não para dar inicio a processos novos; Deve esforçar-se para mostrar o trabalho feito e não apenas as boas intenções futuras; Deve ter soluções e não propostas, deve ter respostas e não perguntas. Aquilo a que temos assistido nos últimos dias não é governação, não é oposição, não é política, é aquilo a que alguém, muito brilhantemente, chamou de “eventologia”. Já no que concerne ao caciquismo, ele é a vetusta ferramenta para a perpetuação do poder. Roça muitas vezes o nepotismo disfarçado de opções democráticas, toca tangencialmente o carácter disfarçadamente dinástico da democracia do tipo ilhéu.


In Jornal Açoriano Oriental, edição de 10 de Março de 2020.

4 de março de 2020

Cegando



O Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal já nos habituou a um certo padrão de ironia que roça a falta de educação. Bem sei que há vezes em que falta paciência para “paninhos quentes” e banhos de “água de rosas” e é preciso ser-se curto e grosso na forma e no conteúdo. Curto e grosso não significa grosseiro como é hábito no Sr. Santos Silva. Sempre que se tratam questões relacionadas com os Açores e com as relações euro-atlânticas o Sr. Ministro arrepia-se eriça-se e toca de mandar a malta tomar “banho de malvas”. Como “quem não se sente não é filho de boa gente” Vasco Cordeiro, desta vez, fartou-se e tendo o Ministro usado da Ironia para ofender os Açores através do sempre acutilante Deputado Paulo Moniz. Vasco Cordeiro disse chega e quase que se “passava dos carretos” e vai dai responde à letra e com clareza. O Sr. Ministro está, de facto, “cegando” e estamos todos ficando cansados da forma como Portugal olha os Açores e como menospreza as relações euro-atlânticas sempre de relevante importância para Açorianos. Estes Portugueses estão cegando.


In Jornal Açoriano Oriental, edição de 03 de Março de 2020

27 de fevereiro de 2020

2 Margens 2020.02.27

Edição nº 20 da terceira série do programa 2 margens, na Açores-TSF, 2020.02.27
https://www.acorianooriental.pt/files/multimedia/podcasts/50_Duas_Margens/14238.mp3?fbclid=IwAR0zQUKjqKtNJPhU51K4iGRyGOHJSGw2uTb0JD03hEM9eMgN2qm_xvGAPWc

Entrudo


Malassadas, coscorões, bailes e bailinhos, fantasias e costumes, máscaras e desmascarados, mais ou menos formais mais ou menos regados com cargas etílicas, as tradições carnavalescas do Povo Açoriano vão se mantendo um pouco por todo o lado. Carnaval é na Terceira, dizem uns, outros que é na Graciosa, alguns dizem que é em São Miguel e outros ainda acham que só no faial é que se comemora condignamente o caminho para a Quaresma, já que no Pico a grande tradição é a matança do porco na quarta-feira de cinzas. Certo é que em todas as ilhas dos Açores há uma tradição diferente e é isso que faz de nós um Povo singular, um Povo que vive as mesmas festas de modo diferente e não há uma única forma comum a todas as ilhas, fruto do isolamento enorme que viveram até há bem pouco tempo. “Guerrear” com limas cheias de água foi uma tradição decorrente de uma batalha de flores que hoje se faz, maioritariamente, com sacos de plástico e balões, tudo muito mais ecológico do que andar a colher flores para atirar uns aos outros, goste-se ou não, a batalha é uma tradição.


In jornal Açoriano Oriental edição de 25 de Fevereiro de 2020

19 de fevereiro de 2020

Matar Fascistas

Na sinopse de uma peça de Teatro levada à cena no Nacional D.MariaII, ou sejas, paga pelos impostos de nós todos e de alguns outros cidadãos da União Europeia, pode ler-se uma espécie de incitamento ao ódio que para lá de lamentável chega a ser criminoso. “Há lugar para a violência na luta por um mundo melhor? Esta família mata fascistas. É uma tradição com mais de 70 anos que cada membro da família sempre seguiu. Hoje, reúnem-se numa casa no campo, no Sul de Portugal, perto da aldeia de Baleizão. A mais jovem da família, Catarina, vai matar o seu primeiro fascista, raptado de propósito para o efeito.” É claro que há lugar à violência na luta por um mundo melhor, está nos livros e até em artigos publicados pelo autor desta crónica e citados internacionalmente, o que não há lugar, pelo menos por hora, é a este tipo de incitamento à violência encapotado em cultura e sob o manto da liberdade de expressão. Este tipo de atividade constitui, de acordo com o código penal em vigor, crime punível de 6 meses a 8 anos de prisão. Onde anda o Ministério Público?

In Jornal Açoriano Oriental, edição de 18 de Fevereiro de 2020

12 de fevereiro de 2020

Trumpalhada

Bem ao seu jeito mediático e exibicionista Donald Trump fez, na semana passada, aquilo a que se pode chamar uma mutação do tradicional discurso do Estado da União num espectáculo de variedades. Provocou o Regime de Maduro & Friends, mandou recados para dentro do seu Partido, apelou à participação dos Americanos na mudança, desafiou os democratas e ainda conseguiu fazer com que Nancy Pelosi cometesse um dos mais infantis erros que alguém na sua posição poderia cometer, rasgar um discurso em frente às câmaras, em direto, e enquanto o Presidente ainda o proferia e depois de ter aplaudido de pé algumas das suas intervenções. Este episódio e o acumular de erros que os Democratas têm vindo a cometer desde a eleição de Tump em 2016, fizeram com que o Presidente atingisse os níveis mais altos de popularidade desde a sua investidura. Com o desemprego mais baixo dos últimos 50 anos e a economia a crescer como não se registava desde 1995, Trump tem a linha aberta para a reeleição para o seu segundo mandato. Do outro lado, Bernie Sanders e Elizabeth Warren  ainda não perceberam “Porque não houve socialismo na América”.

In jornal Açoriano Oriental edição de 11 de Fevereiro de 2020

30 de janeiro de 2020

Brexit



Se há incontornáveis filósofos políticos na história da modernidade,  metade deles medraram no Reino Unido. Para confirmarmos essa preponderância britânica e a sua dedicação às grandes questões da humanidade bastaria citar nomes como Hobbes, Locke ou Hume, porventura o mais importante pensador do Iluminismo Britânico, ou até Hayek que, nascido austríaco, se naturalizou britânico e em Londres desenvolveu grande parte das suas teorias económicas e monetárias. Ainda recentemente perdemos Scruton que em 1998 trouxe aos escaparates An Intelligent Person’s Guide to Modern Culture” obra que nos ajuda a perceber um conservador-liberal. A Rainha Vitória e Churchill são outras duas referências nas relações internacionais. Também Boris Johnson, é uma lufada de ar fresco nas Ilhas Britânicas desde o desaparecimento de Margaret Thatcher. Um conservador-liberal, irreverente, um intelectual de referência e um jogador da alta política que leva o Reino Unido à porta de saída da União Europeia e deixa essa transformada numa espécie de Vénus amputada.

In, jornal Açoriano Oriental, edição de 28 de Janeiro de 2020

22 de janeiro de 2020

Lagoa do Fogo



Falhei, inadmissivelmente, as primeiras duas crónicas do ano. Não porque não tenha havido assunto para escrever mas por manifesta falta de tempo. Primeiro a família, depois o trabalho que me poe o pão na mesa e depois o resto. Nesse resto, que não é nem pouco nem desprezível, cabem os meus Açores, onde nasci, escolhi viver e acima de tudo ser cidadão ativo e “irrequieto”. É difícil viver nos Açores assim, sempre foi difícil viver nos açores onde até os ricos são pobres e onde o poder, desde sempre, tende a assumir laivos de arrogante totalitarismo ou, no mínimo, tende ao pensamento único. O poder vai agora, só depois de instalada a polémica pública, ouvir o Povo, numa abertura feita de palavras mais do que de atos, acerca do que agora chamam de estudo prévio mas antes era projeto de um novo miradouro, cheio de contemporaneidade e materiais importados, retretes e afins, ali para os lados da Lagoa do Fogo. Bravo, seria um ato louvável, não fora ele feito apenas a reboque das criticas publicas e tal como faz o “cachorro vagabundo” ganindo e com o rabo metido entre as patas traseiras escondendo as partes escassas da sua virilidade.


In Jornal Açoriano Oriental edição de 21 de Janeiro de 2020

2 de janeiro de 2020

Diário dos Açores 2020.01.01


1 - Do que vivemos em 2019, sente que 2020 vai ser muito diferente nos Açores, no plano geral, em termos económicos e políticos?

2020 é ano de fim de quadro comunitário e de eleições regionais , supostamente seria um ano de muitas metas e de muitos desígnios, convulsões até. O orçamento regional vai ser maior do lado da receita por força do aumento das transferências da república ao abrigo da Lei de financiamento das Regiões Autónomas. Na decorrência desse aumento da receita, apesar do mesmo indiciar o arrefecimento da economia em 2018, havendo mais alguma disponibilidade financeira e orçamental e sendo a economia dos Açores muito dependente do orçamento regional, é natural que se registem pequenas evoluções na economia das nossas ilhas. No entanto, o grande problema económico da nossa comunidade política continua a ser a debilidade do tecido empresarial que ainda ficou mais fragilizado depois das crises económica e financeira que vivemos à escala mundial. As pequenas e médias empresas que resistiram à crise ficaram muito descapitalizadas e as que desapareceram não foram substituídas nem é possível que venham a sê-lo. A regulação não permite que os empresários retomem a atividade económica, ou  se reformam, ou vão para o desemprego e a indigência e tornam-se trabalhadores por conta de outrem. Na verdade, perde-se muita criatividade e empreendedorismo por via da regulação demasiado apertada e desnecessária. O Estado/Região é obsessivamente regulador, está-lhe no ADN. Uma economia altamente regulada e centrada no estado, e um sector de investimento e inovação “keynesino” assente em subsídios estatais cuja atribuição é só por si um instrumento regulador pernicioso, não cresce sustentávelmente, promove enormes desigualdades sociais e impossibilita uma franja significativa da sociedade de ter acesso às mais diversas oportunidades. As decisões políticas condicionam demasiado o plano económico. Uma coisa é certa, há um crescimento do sector terciário e uma certa consolidação dos subsectores da hotelaria e restauração e isso poderá aliviar um pouco os números do desemprego no próximo ano e consequentemente terá reflexos nos números relativos à pobreza. Mais investimento público menos desemprego, menos pobreza, é o que se espera em 2020, ano de ir a votos nos Açores.


2 - As eleições regionais são acontecimento incontornável neste 2020. Qual a sua perceção em termos de estratégias dos partidos e da mobilização dos eleitores?

Analisando em jeito aligeirado o que poderá acontecer nos Açores no próximo ano do ponto de vista político digamos que há uma meia dúzia de análises que se podem fazer sendo que todas elas passam, incontornavelmente pelas eleições regionais de outubro próximo. Na realidade, 2020 é um ano importante para a democracia e para a autonomia dos Açores. Temos eleições regionais lá para Outubro e as eleições são a festa da democracia sendo as regionais a grande festa da autonomia constitucional. A próxima legislatura será a última em que o Partido Socialista pode indicar Vasco Cordeiro, o maior ativo político que o PS detém no momento na Região, para o cargo de Presidente do Governo dos Açores uma vez que por via da lei de limitação de mandatos Vasco Cordeiro será o primeiro Presidente dos Açores a não ter a possibilidade de cumprir uma quarta legislatura. A implantação que o Partido Socialista  já tem nos Açores, mercê de clientelas políticas que foi construindo e consolidando ao longo dos últimos 23 anos de poder e o capital político do seu líder, deixam claro quem será o grande vencedor das eleições do final do ano. Não pode, no entanto, o Partido Socialista tomar isso como certo. Há, na verdade, idiossincrasias locais que podem alterar radicalmente o sentido de voto e há algumas franjas do eleitorado esclarecido, mais urbano  e mais volátil que manifestam já algum descontentamento com a governação socialista. Basta um descuido e o PS pode perder deputados numa ou duas ilhas das mais pequenas e mais um ou dois nas ilhas maiores. Cabe à oposição fazer também o seu trabalho. Vasco Coreiro parte com muita vantagem para esta corrida desigual, “nos primeiros cinquenta metros leva cem de avanço”.

Do lado da oposição a novidade é que vamos assistir a um PSD, com uma nova liderança. Desejado pelos militantes, empurrado pelo aparelho, levado ao colo pelos parceiros, José Manuel Bolieiro tem a responsabilidade de liderar o maior partido da oposição e de fazer pontes com os autarcas e restantes forças partidárias, rumo a 2024, não lhe é exigido que ganhe eleições agora, seria injusto fazê-lo. O Bloco de Esquerda aproveitará a boa performance eleitoral nacional para tentar, nos Açores, conquistar a condição de 3ª força política e posição de charneira caso o PS tenha algum desaire eleitoral que, só pode acontecer, por razões excepcionais como já referi. O Bloco ultrapassará assim o CDS, de onde se podem esperar ainda algumas surpresas nos próximos tempos com o congresso marcado e adiado para este início de ano.
Surpresas podem também vir das novas forças políticas emergentes, PAN, CHEGA, ALIANÇA, INICIATIVA LIBERAL e LIVRE, sendo que os únicos, destes novos partidos, que estão minimamente organizados nos Açores são o Aliança e o PAN, todos os outros carecem encontrar figuras e construir estruturas para poderem alcançar o objectivo de eleger deputados.
O fator surpresa pode funcionar, por exemplo em São Miguel, se um qualquer destes partidos, mais à direita, confirmando-se a falta de habilidade do CDS em recuperar o seu eleitorado perdido, conseguir um cabeça de lista com peso eleitoral significativo e uma equipa minimamente aceitável e assim alcançar o desiderato de eleger um Deputado.

De resto, não se podem esperar grandes surpresas, o eleitorado corresponderá à chamada quanto mais os partidos da oposição demonstrarem vontade e apresentarem alternativas, caso contrário teremos Vasco Cordeiro num passeio tranquilo até Outubro de 2020 e um Partido Socialista empenhado em encontrar, ou perdido em lutas fratricidas, pela sucessão ao “Gigante da Covoada”.


In Jornal Diário dos Açores, edição de 01 de Janeiro de 2020.

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