28 de outubro de 2018

Estamos mais ricos mas com mais pobres



Em 2017, dizem as contas do Governo, foram gerados na Região quatro mil milhões de euros de riqueza. Nesse mesmo ano, ficamos a saber pelas mesmas fontes fidedignas (seja lá isso o que for) que,  o número de beneficiários do Rendimento Social de Inserção aumentou em mais de seiscentos. Leio também a opinião de Décio Santos, um líder juvenil de sucesso, assumidamente socialista, um jovem empreendedor daqueles que sabe onde ir buscar os financiamentos e um modo de viver adquirindo riqueza a partir da riqueza daqueles que a sabem criar, dizer que os incentivos para o empreendedorismo e para o investimento são “incríveis” e já deram “excelentes resultados”. Claro que deram excelentes resultados, para uma minoria muito mínima mas deram, e por outro lado criaram mais pobres. É fantástico.
Essa gente que sabe falar de empreendedorismo mas não empreende. Essa gente que sabe falar de Pobreza mas não a vive nem a sente. Essa gente que ousa alvitrar sobre reconversão de carreiras mas está acomodada na sua zona de conforto. Essa gente que usa e abusa de falsas narrativas sobre como vivemos todos nós. Essa outra gente que vive “escanchada” nas suas douradas reformas e que não abdica de seja o que for em prol dos filhos e netos dos que têm que trabalhar até morrer. Essa gente toda não tem moral para decidir sobre os destinos de um Povo e sobre os destinos de uma Região.
Essa gente toda é o Regime no seu pior, o Regime assente em pilares que apenas servem para esconder os seus podres, o regime que podia muito bem ser o saído da Primeira Republica e que apenas foi interrompido por uma ditadura.
Como já escrevi e disse em outros momentos e lugares, o sistema de distribuição de riqueza implementado na nossa Região está a funcionar em sentido inverso ao desejado. Ou seja, está a tirar aos mais pobres e remediados para dar ao mais ricos e bem instalados. Esse é um facto comprovado pelos números, não é uma perceção apenas minha ou uma interpretação de um malicioso liberal. É um facto inegável, irrefutável. Manter isso não faz qualquer sentido.
Foram e estão a ser distribuídos sob a forma de incentivos ao investimento e ajudas à perca de rendimento (uma espécie de RSI  dos abastados) a quem anda à volta do sistema a falar dele, a avaliar os projectos, a fazer os projectos e a construir o regime, milhões e milhões de euros em nome do combate à pobreza, à exclusão, à precariedade, em nome da criação de emprego, da valorização de ativos humanos, da reconversão das massa proletária e muitas outras coisas bonitas que nunca funcionaram. Se não forem alterados os métodos, não serão alterados os resultados. Mais dinheiro gasto, mais pobres, mais precariedade, mais exclusão, mais pobreza, mais alcoolismo, mais toxicodependência, e mais e mais e mais.
A palavra-chave, neste processo sociológico é: Inserção. Se analisarmos um qualquer diploma sobre incentivos ao investimento, ao empreendedorismo, até mesmo os que criaram o microcrédito, facilmente podemos encontrar dezenas de fatores de exclusão social. Atenção, esses diplomas são feitos por socialistas e social-democratas desde 1986, ou seja desde a adesão de Portugal à então CEE. Antes disso, na chamada pré-adesão, também.
Este sistema “engole vorazmente” recursos financeiros, destrói valor ao invés de o criar, constrói ressentimentos em lugar de esperanças, afasta os cidadãos da participação cívica em vez de os envolver nas decisões, faz medrar populismos em lugar de construir uma sociedade democrática liberal e justa.
Que o fogo abrase os que não querem ver e mudar que nós os outros já ardemos nas teias dos resultados desastrosos das suas decisões.
Ponta Delgada, 25 de Outubro de 2018

22 de outubro de 2018

Orçamento para ano de eleições



Em 2019 vamos a votos duas vezes. É verdade vamos escolher os nossos representantes no Parlamento Europeu e vamos escolher os Deputados que irão representar os Açorianos na Assembleia da República. Se faltasse alguma justificação para as normas e intenções plasmadas na proposta do orçamento de estado para 2019 estes dois atos eleitorais, num só ano, serviriam bastante para o fazer.
Há um indício de eleitoralismo nesta proposta de orçamento de Estado para 2019. Aliás há vários. Mas, o primeiro e mais relevante nem sequer está plasmado no seu articulado. O indicio maior e mais claro de eleitoralismo da proposta de Orçamento de Estado que agora se discute reside no fato de Mário Centeno ter começado por apresenta-lo dizendo que este “não é  um orçamento eleitoralista”.

Mas há mais. Centeno e Sérgio Ávila foram logo enchendo a boca com o aumento das transferências do Estado para a Região como se de benesses se tratasse. Na verdade, esse aumento de transferências decorre tão só da aplicação da lei de financiamento das Regiões Autónomas, Lei Orgânica 2/2013 de 2 de setembro, nomeadamente do seu artigo 48º que como se sabe, tem por base a despesa corrente do Estado no ano anterior. Quer isso dizer que o aumento das transferências para a Região Autónoma dos Açores em cumprimento do dever de solidariedade nacional decorre do aumento da despesa corrente no orçamento o Estado de 2017 e não da boa ou má vontade de quem governa por lá ou por cá.
Ficamos também a saber que o Governo e o Partido Socialista querem promover o aumento da pista do Aeroporto da Horta mesmo que isso implique um atentado ambiental com a destruição de dois monumentos naturais e mais um outro atentado económico que é construir mais um “Elefante-branco”. É que ainda temos poucos. Depois admiram-se do Pico crescer e o Faial definhar. Enchem a boca com a palavra sustentabilidade ao mesmo tempo que untam as mãos com o cheiro do alcatrão.

Na verdade, os anos de eleições são os anos de todas as promessas. Ora vejamos um caso prático em sede de Orçamento de Estado para 2019. A páginas tantas, o Estado e a Região perderam-se de preocupações com a gente que estava habituada a vidinhas fáceis à conta dos “Amercanes” na Ilha de Nosso Senhor Jesus Cristo e toca de,  em ano de eleições regionais, que foi o de 2016, assinar uma Declaração Conjunta aproveitando a Visita Oficial que o Primeiro-ministro, confundido com o cargo de Secretário-geral do PS, fez aos Açores para lançar as bases da pré-campanha do seu partido. Andava por cá a peregrina Assunção Cristas a rezar ao Senhor Santo Cristo que lhe fizesse um milagre de arranjar um candidato que não servisse os intentos e ambições dos micaelenses mas que sossegasse as hostes vindas da Ilha dos Capitães Generais contra um perigoso revolucionário nacionalista, tido como amigo da esquerda socialista.

Passaram alguns anos, 3 anos quase, e eis que o orçamento de estado volta a falar da intenção de revitalizar a economia da Ilha Terceira. Quase 3 anos depois e de novo em período pré-eleitoral. Dizem que em politica não há coincidências eu também acho, até porque: “à mulher de César (o imperador de Roma) não basta ser séria tem de parecê-lo”. Fogo vos abrase na fogueira da demagogia que nós por cá vamos ardendo já na da fome e da letargia.

Ponta Delgada, 19 de Outubro de 2018

20 de outubro de 2018

Coluna Liberal - Jornal Diário dos Açores 19 de Outubro de 2018



Parece hoje consensual que a juventude se alia e aliena do espaço de gestão da coisa pública, em suma da política. Mas, na verdade, essa não é uma sensação nova, bem pelo contrário. No entanto, hoje, o desafio de envolver os jovens nas decisões do governo do espaço público é um desiderato mais difícil de atingir do que há meio século, principalmente nos países e comunidades mais evoluídas, isto é, mais democratizadas.
As gerações que hoje deveriam estar a chegar aos lugares de  poder, são constituídas por jovens que já nasceram em liberdade e pouco ou nada conhecem de regimes que não sejam democráticos. Lá longe, algures numa televisão ouvem-se noticias de abusos de poder e de atropelo às liberdades individuais mas isso só acontece em paragens que longínquas, em mundos que não são o nosso, no médio-oriente, na Ibero-américa na china ou no cormo de África.
Se atentarmos ao mais remoto pensamento sobre o governo da polis, por exemplo em Aristóteles e no seu tratado de Política, encontramos bastas referencias à necessidade de se encontrar uma “receita” para a garantia da “felicidade colectiva”, do melhor sistema de governo da polis que garanta  o bem-estar comum. Essa “receita” é, nem mais nem menos, do que uma constituição (politeia).
Porém, só na época renascentista e na modernidade, esse desiderato veio a ganhar força. O rescaldo da guerra dos trinta anos, os tratados de paz e os acordos diplomáticos que decorreram durante o período que historiadores e filósofos conhecem como Paz de Vestefália trouxe novos tempos, novos pensamentos e a consolidação do processo constitucional. A “politeia” de Aristóteles tem nos chamados contratualistas do renascimento e da modernidade os principais seguidores. Daí para cá temos mantas de retalhos.
Importa no entanto, centrarmo-nos no que vai acontecendo nos nossos dias com a eleição e aumento da aceitação popular de protagonistas que usam da sua verborreia à volta de assuntos que, em nosso entender, deveriam ter sido já remetidos ao esquecimento.
Na verdade, a Democracia liberal falhou redondamente na forma como se organizou a partir dos bons princípios contratualistas. E, é essa incapacidade das constituições chamadas democráticas se fazerem cumprir, até porque as leis que são feitas por Homens e aplicadas por Homens sobre Homens que as não querem cumprir, que periga a própria democracia.
É a incapacidade dos regimes em resolverem os problemas mais prementes das pessoas que faz recrudescer discursos radicais e formas populistas de guindar ao poder as mais vis criaturas.
Em todos nós, existe intrínseco e silenciosamente permanece, um perigoso sentimento racista, xenófobo, homofóbico, arrogante, prepotente e totalitário. Hannah Arendt, a mais influente escritora sobre os totalitarismos e figura proeminente da filosofia do nosso tempo explica esse assunto melhor do que alguém alguma vez foi capaz de fazer.
A ideologia racista, materializada pelo racismo Alemão da primeira metade de XX, por exemplo, só ganha adeptos porque estava “impregnada” no adn dos povos europeus.
Hoje, fenómenos populares e eleitorais como o de Donald Trump e Marine Le Pen, o aparecimento de movimentos como o Vox de Santiago Abascal em Espanha , ou com um nível de gravidade muito mais elevado, a aceitação do discurso “fascista”  de Jair Bolsonaro no Brasil, são facilmente explicáveis pela existência de um sentimento recalcado e por uma incapacidade das democracias de acudirem às questões que preocupam os cidadãos.
Se por um lado, no caso dos Estados Unidos da  América, podemos estar tranquilos pois  trata-se da mais lastrada e  dilatada democracia da humanidade, com uma constituição que garante a liberdade dos cidadãos e os poderes do Estado, onde existem muitos poderes e um sistema de equilíbrio entre esses poderes. Por outro,  o mesmo já não podemos dizer de países com democracias frágeis, com constituições sem força suficiente, sem um mecanismo de fiscalização constitucional eficaz e eficiente  e com níveis de pobreza extrema que provocam dependências do sistema de governo que não permitem  os equilíbrios desejáveis entre poderes. Nestes casos devemos estar muito atentos.
Dito de outra forma. Os discursos e os ensaios sobre a bonomia do multiculturalismo, da globalização, do comércio livre, dos direitos dos migrantes e refugiados ou até mesmo sobre uma  Nova Ordem Mundial, não passam de narrativas que não se materializam em soluções para as vitimas dos abusos dos poderes e dos senhores das guerras. Esta é uma das origens do totalitarismo que temos obrigação de combater. E só o podemos fazer sendo melhor cidadãos.

In jornal Diário dos Açores, edição de 19 de Outubro de 2018

19 de outubro de 2018

Roda Viva V - 18 de Outubro 2018

Já não há consequências



Pode parecer, ao mais incauto leitor desta minha crónica, que venho aqui desancar na classe política e politiqueira (nesta ultima apetece-me sempre dar uns abanicos) pela falta de coragem em retirar consequências pessoais dos seus atos públicos. Não, não é só isso que interessa embora isso seja uma das grandes causas da perca desse enorme valor na nossa sociedade.
É transversal à sociedade portuguesa contemporânea. Tornou-se normal. Os pais, talvez por peso de consciência, não obrigam os filhos a tirarem consequências do seus atos irrefletidos e estes levam isso para o seu futuro. Os professores não são responsabilizados pelos seus fracassos, a escola não assume as suas culpas as famílias demitem-se das suas responsabilidades, as empresas escudam-se em articulados estéreis de leis sem sentido para não cumprirem com as suas obrigações, os médicos falham na deontologia, os filósofos e os sociólogos “vendem” narrativas ideológicas como se de verdades científicas se tratassem e  que nos levam a becos, os jornais transformam verdades em mentiras e vice-versa, e podia aqui desfiar um rol de irresponsabilidades e inconsequências sem fim. Somos um país inconsequente.
Quando foi a última vez que ouviu a frase: Ministro demite-se em consequência de? Se “googlar”(verbo novo ainda fora dos dicionários mas de grande utilidade prática)  esta frase irão aparecer inúmeras noticias, deste ano 2018,  na França, Noruega, Reino Unido, Espanha, Jordânia, Grécia e até no Haiti, um estado em posição periclitante entre o exíguo e o falhado.
Por cá, desde Jorge Coelho que se demitiu em 2001 na sequencia da queda da Ponte Hintze Ribeiro e Pedro Lynce que deixou o governo em 2003 por ter havido um favorecimento a uma filha de um membro do Governo no acesso ao ensino superior, não houve outro ministro que saísse do Governo que não fosse por “razões pessoais e cansaço” de resto não há consequências a tirar dos casos, dos casos comprovados e muito menos das suspeitas.
Um ministro, um Secretário Regional, um membro de uma administração de uma empresa pública, um diretor de uma instituição com contratos com o governo, um simples diretor de departamento dentro de uma empresa pública, não podem estar sob suspeição.
Os cidadãos carecem de estar seguros de que são governados pelos melhores. Os contribuintes merecem ter garantias de que o seu esforço para os cofres do Estado/Região são feitos em prol do bem-comum e não de grupelhos organizados que “se vão safando” e ainda aparecem, de quando em vez, armando-se em filantropos, fazendo uma ou outra caridadezinha num jantar de gala. Foguetabraze!
O Estado/Região, seja ele governado à esquerda ou à direita tem que o ser pelos melhores e os melhores nem sempre são os mais espertos, os mais sábios ou as eminências pardas dos regimes. Os melhores são, neste caso, os mais sérios, os mais honestos intelectualmente e materialmente e aqueles que olham, de facto, os mais pobres , os mais desprotegidos e os apoiam e os ajudam a sair dessa condição.
O caso, ainda quente, relativo às pressões efetuadas por parte de uma Administradora de um Hospital (facto), as pressões do Secretário da Tutela e do responsável pela Proteção Civil (facto) sobre uma técnica para alterar o fluxograma  e o procedimento numa evacuação  de doentes, para dar prioridade a um familiar de uma poderosa em detrimento de uma outra opção técnica,  não pode ficar sem consequências de ordem pessoal e politica. Já deviam ter-se demitido ou ter sido demitidos. Não bastam operações de mera cosmética.
Fogo abrase aquele que não nos protege de gente dessa.
Ponta Delgada, 12 de Outubro de 2018

8 de outubro de 2018

De língua na boca mas não é para casar.


“Dá para sermos amigos, não dá para casar” foram estas as palavras de António Costa na entrevista que deu à TVI em vésperas de entrega da proposta de Orçamento de Estado para 2019, ano de eleições e de todas as decisões sobre o seu futuro como Secretário-geral do PS.

Acontece que esta não é uma simples amizade, Costa, se atentarmos à teoria triangular do Amor,  está numa relação de Companheirismo Amoroso com Catarina Martins e de Amor Fugaz com Jerónimo de Sousa. Explico, Com Catarina Martins e o Bloco de Esquerda mantem uma relação de intimidade, anda de língua na boca, faz piadas, troca olhares e manifesta-se pelas suas expressões corporais, e mantém um certo compromisso mas ainda não deixou a escova de dentes na casa de banho dela. Com Jerónimo de Sousa e o PCP trata-se de paixão, coisa antiga, o PS é no fundo um herdeiro do socialismo soviético com vias democratizantes e também compromisso mas não chega para casar, o PCP abomina relacionamentos definitivos.

Para Costa isso vai chegando, vai dando jeito, ora passa um assunto aqui ora passa outro assunto acolá. Para a esquerda radical é que a coisa, tal como para as amantes em relações triangulares, não passa de um amor instrumental, em que ela finge não gostar nem ceder espaço mas no fundo sabe que quando esticar a corda ela partirá para o seu lado.

Se até aqui tivemos uma geringonça que apesar de ser um amontoado de arames e porcas desajustadas fez funcionar uma maioria com estabilidade parlamentar, depois da entrevista do Primeiro-ministro passamos a uma fase diferente. Na verdade, passamos à fase pré eleitoral que como o próprio nome indica antecede as eleições legislativas de 2019, data em que o Povo escolherá se quer uma geringonça se quer uma maioria do PS para governar o país sem dar contas senão aos seus representantes parlamentares que, como se sabe, nessas circunstâncias, não passam de autómatos que se levantam e sentam à voz do chefe.

A direita, de Assunção Cristas, Rui Rio e quem sabe de Santana Lopes, olha para este namoro de Costa com as esquerdas como uma magra olha o prato cheio de doces que a gorda do lado degluta naquele casamento onde foram as duas convidadas do noivo. Baba-se como o cão de Pavlov mas finge não gostar daquela iguaria. Prefere ser elegante mas na verdade está se roendo de inveja do prato a abarrotar de doces com ovos e natas com que  a gorda se delicía exibindo descomplexadamente as suas  formas “Michelin” por baixo da blusa de seda.

À direita, nem namoro nem casamento, são todos tão perfeitos, tão com tudo no seu lugar que não se olham. Cristas está tão cheia de si mesma que não olha à volta, nem sequer para dentro do seu próprio partido. Santana ainda não sabe se tem certidão de nascimento  e Rio , na verdade, nem é de direita nem de esquerda e talvez preferisse ir ao altar com Costa do que com  qualquer um dos outros dois.
Entretanto o percurso do PS que podia parecer espinhoso começa a ficar liso e claro sob a batuta do “Bispo” Marcelo, que só desilude, de facto,  quem se iludiu como foi o meu caso.

Fogo os abrase nessa fogueira de ciúmes saída de um enredo de novela mexicana de qualidade duvidosa.

Ponta Delgada 3 de Outubro de 2018

6 de outubro de 2018

Coluna Liberal - Jornal Diário dos Açores 5 de Outubro de 2018



Máxima liberdade com a maior responsabilidade

Título esta minha reflecção de hoje com uma frase que deverei ter ouvido umas centenas de vezes da boca do meu saudoso Pai. Essa é, certamente, uma das frases mais proferidas pelos Pais quando vão abrindo mão do seu controlo sobre a vida dos filhos e os vão libertando para a vida mundana sem proteção do manto do “ninho” paterno.
Para as nações como para os indivíduos a conquista da liberdade constituiu também um conjunto de responsabilidades acrescidas. Desde logo, exige-se que os cidadãos de um estado livre e democrático exerçam o seus direitos e deveres de cidadãos de forma responsável e tendente  a construir uma comunidade politica livre e democraticamente lastrada.
Usa dizer-se que o ser humano tem tendência a apenas valorizar as coisas importantes quando as perde. Ora, a liberdade é uma dessas coisas que os povos têm tendência para não dar valor enquanto a podem fruir mas que, de súbito valoram quando a perdem. Basta para tal ter apenas essa perceção de perda.
As recentes eleições diretas no PSD-Açores, tal como acontece em todos os partidos, registaram uma abstenção para lá dos 70%. Partidos há em que essa participação em eleições internas é ainda mais diminuta. Se olharmos para a eleição de órgãos de ilha e concelhios, espécie de proliferação de órgãos supostamente descentralizadores mas que não passam de instrumentos do mais hediondo caciquismo, essa realidade ainda se torna mais dramática, casos há em que nem os próprios candidatos se dignam a ir votar na lista de que fazem parte.
Atente-se à democraticidade dessas eleições e à legitimidade desses eleitos. É, obviamente, difícil desmontar o argumento da falta de democracia no seio dos partidos políticos portugueses, eles parece que trabalham afincadamente para o descrédito. Há mesmo os que anunciam abertura à sociedade civil e outras artimanhas para cair no goto dos eleitores e adeptos, militantes, simpatizantes, correligionários e outros epítetos de uso comum. Tudo isso feito como se os Partidos Políticos não fossem, por si só, parte da chamada sociedade civil, senão mesmo, nos casos como o português, a essência da sociedade civil. Mas não, eles sentem-se acima de tudo isso. Sentem-se acima dos cocidadãos, dos seus pares. É disso que trata hoje a política à portuguesa.
Já aqui nesta coluna alertei, pelo menos duas vezes, para a necessidade de prevenirmos acutilantemente o recrudescimento de sentimentos nacionalistas exacerbados que podem apenas contribuir para o nascimento de totalitarismos à semelhança do que vimos acontecer no rescaldo das primeira e segunda guerra mundiais.
Na verdade, o discurso e a narrativa anti liberal, recorrentemente usados pela esquerda anti democrática clássica e emergente e por uma boa faixa das denominadas sociais-democracias ou socialismos democráticos, constitui um enorme o risco pra a relativização e assim contribui para que a humanidade tenda em regressar a regimes mais ou menos musculados que atropelem os chamados direitos liberais.
A incapacidade dos regimes e a falência do estado social por se ter transformado num estado omnipresente e omnipotente que quer controlar tudo e todos falhando redondamente em toda a linha principalmente nas áreas em que, de facto, tem razões para existir, leva a sentimentos de descrença coletiva, de negação generalizada das evidências e à não participação cívica por parte das gerações que já nasceram em estado de liberdade. Vai assim crescendo o terreno fértil para a emergência de regimes perniciosos.
A consolidação da democracia não se compadece com discursos populistas ou com falta de participação cívica. A democracia apenas se lastra com honestidade intelectual e muita formação sobre os direitos, liberdades e garantias, em suma, faz falta mais cidadania.

4 de outubro de 2018

Roda Viva - EPI 3 - 4 Outubro 2018

A humanidade não é para humanos


Este país não é para velhos, romance de Comac MacCartthy, eternizado pelos irmãos Coen no grande ecrã com o filme homónimo No Coutry fol Old Men, inspirou-me para a escolha do título desta cronica de hoje.

Robots, “machinas”, gadgets, APP para tudo e para nada a esperança da robotização  generalizada, as viaturas sem condutor, os aviões sem aviador, os navios sem capitão, as cirurgias sem doutor. A era da tecnologia em todo um esplendor de falta de sensações e de metalização das atividades humanas.
Pois é. Primeiro deslumbramo-nos com a tecnologia, a máquina a vapor, O “Cavalo de Ferro”, ou como diz Gedeão,  “(…)cisão do átomo, radar, ultra-som-televisão, desembarque em foguetão na superfície lunar (…) mas nem sempre que um Homem sonha o mundo pula e avança, há vezes em que regride, se perde em problemas que não tem e se desfaz em desilusões na espuma dos dias.
Depois do deslumbramento com os avanços tecnológicos e com a ciência, veio o desprezo pelo estudo das humanidades. Foi o passo seguinte. Isso é coisa que não alimenta bocas nem trata doenças. Um filho que se perde nessa coisa de estudar história ou filosofia é uma dor de cabeça para os pais. Não será engenheiro nem médico, nem sequer economista, essa profissão com artes de quem se dedica a fingir que sabe tomar conta dos recursos de quem os soube constituir. Com sorte acaba numa secretária lá do ministério onde as meninas que servem os cafés e a Dona Inês das fotocópias fazem o favor de o tratar por Dr. Fulano de Tal, e ao virar de costas se perguntam se alguém sabe o que faz por ali o dito Fulano de tal.

Deixaremos de ser gente para sermos autómatos carregadores de botões que não perceberemos o que fazem e ainda menos seremo0s capazes de compreender para que o fazem. Seremos parte de algoritmos e de sistemas de alerta complicados fazendo lembrar aquela anedota do Alentejano que vai numa nave espacial com um macaco com ordens de alimentar o macaco e não mexer nas alavancas. Seremos reduzidos à condição de pedintes recetores de um qualquer “rendimento mínimo assegurado” que essa coisa já mudou de nome umas quantas vezes e ainda mudará mais outras tantas.
Nos cafés, onde não haverá mais qualquer Steiner que nos aguce a arte de pensar e partilhar esse pensamento, seremos servidos por um amontoado de microchips e cabos velhos reciclados vezes sem conta que o cobre já se está a acabar pelo espaço terrestre deste planeta mar de tal maneira que estamos já a desenvolver máquinas infernais para minerar as profundezas do azul em busca dos restos.
O estudo das humanidades ajuda-nos a ser mais humanos, o desprezo por ele faz-nos perder o sentido de sermos humanos.
Fogo abrase essa humanidade que desumaniza.


Ponta Delgada, 21 de Setembro de 2018



1 de outubro de 2018

Foguetões ou foguetório?



Há duas razões para fazer o Spaceport em Santa Maria  uma é porque sim e a outra é porque sim. Ou seja porque alguém quer, porque alguém decidiu, porque alguém entende que isso é muito bom para a Ilha, e para os Açores, para Portugal e imagine-se para a humanidade.
Mais uma vez, como todas as outras vezes, as Ilhas dos Açores estão no meio dos apetites geoestratégicos ao serviço da guerra. Isto é o que ninguém nos diz. Sim porque é de guerra e de tecnologia ao serviço da guerra que se trata não só mas também e principalmente.

Se é bem verdade que a nossa importância geoestratégica e geopolítica apenas existe precisamente quando terceiros a valorizam, caso contrário não passa de uma posição geográfica, também é bem verdade que nem sempre devemos estar recetivos à entrada de estrangeiros no nosso território de forma a o transformarem definitivamente e irremediavelmente. Já foi assim num passado de emigração e fome que alguns, os que se safaram, entendem que foi muito bom.

O caso do denominado “Spaceport de Santa Maria”, ainda mal explicado, apesar do esforço do Governo e dos seus defensores, é um desses casos em que uma intervenção ao nível ambiental, social e no âmbito mais vasto do político terá consequências irreversíveis. Por isso, carece de uma avaliação séria e dos seus efeitos a longo prazo.

A quando da avaliação de possíveis localizações, Ponta Delgada da Ilha das Flores foi uma das hipóteses em cima da mesa. Desde logo essa hipótese estava comprometida pelo estatuto de reserva da biosfera. No entanto,  numa visita rápida, alguns técnicos estrangeiros colocaram-na de parte por causa da reduzida dimensão e operacionalidade da pista de aviação. No entanto, um desses técnicos deixou escapar ao seu anfitrião um desabafo: “ vocês não estraguem este paraíso”.

Se formos revisitar as notícias de 2000 a 2006 sobre a estação de rastreio de satélites da ESA em Santa Maria, também, ela ia trazer muitos empregos e muito desenvolvimento. Nem na fase de construção o trouxe (a empresa que a construiu faliu quase de seguida). Conclusão, a Região construiu um edifício, expropriou terrenos, concedeu à ESA para utilização, tudo isso custou muito dinheiro aos nossos impostos e nós (Ilha de Santa Maria) ganhamos mais um posto de trabalho, um emprego de segurança privado  a auferir o ordenado mínimo regional. Pronto admito, numa ro9tação de 24 horas de serviço são pelo menos 3 empregos.

Esta agora nova solução para os velhos problemas é só mais uma, mais um  “covaneiro” ( caso de estudo quando se fala de fraude na Ilha) que vai enganando com papas e bolos aqueles que preferem viver na ilusão de que vai vir alguma coisa de fora do que fazer cá dentro..

Mas a maior fraude está naqueles que defendem que a tecnologia a ser utilizada é limpa, o combustível será Gaz Natural Liquefeito e não haverá perigo de contaminação dos solos, do ar, ruido ou seja lá o que for. Vai ser tudo muito bom, espetacular. Então porque não o constroem em cima das vossas cabeças, nas áreas degradadas deixadas pelos tempos áureos da aeronáutica Civil? Posso indicar, pelo menos dois lugares extraordinários para o efeito. Um é o denominado “tankfarm” e o outro a zona dos emissores. Têm ambos a mesma posição geoestratégica que tem Malbusca e fica tudo muito mais pertinho das vossas casas e dos ambientes urbanos onde gostais de conviver.

Há duas perguntas que são importantes serem respondidas neste momento e que ainda não foram devidamente esclarecidas.
Porquê Malbusca se é tudo feito com tecnologia muito limpinha?
Porquê Malbusca se não é tudo feito com essa tal limpeza toda?


São Lourenço, 22 de Setembro de 2018

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