22 de janeiro de 2020

Lagoa do Fogo



Falhei, inadmissivelmente, as primeiras duas crónicas do ano. Não porque não tenha havido assunto para escrever mas por manifesta falta de tempo. Primeiro a família, depois o trabalho que me poe o pão na mesa e depois o resto. Nesse resto, que não é nem pouco nem desprezível, cabem os meus Açores, onde nasci, escolhi viver e acima de tudo ser cidadão ativo e “irrequieto”. É difícil viver nos Açores assim, sempre foi difícil viver nos açores onde até os ricos são pobres e onde o poder, desde sempre, tende a assumir laivos de arrogante totalitarismo ou, no mínimo, tende ao pensamento único. O poder vai agora, só depois de instalada a polémica pública, ouvir o Povo, numa abertura feita de palavras mais do que de atos, acerca do que agora chamam de estudo prévio mas antes era projeto de um novo miradouro, cheio de contemporaneidade e materiais importados, retretes e afins, ali para os lados da Lagoa do Fogo. Bravo, seria um ato louvável, não fora ele feito apenas a reboque das criticas publicas e tal como faz o “cachorro vagabundo” ganindo e com o rabo metido entre as patas traseiras escondendo as partes escassas da sua virilidade.


In Jornal Açoriano Oriental edição de 21 de Janeiro de 2020

2 de janeiro de 2020

Diário dos Açores 2020.01.01


1 - Do que vivemos em 2019, sente que 2020 vai ser muito diferente nos Açores, no plano geral, em termos económicos e políticos?

2020 é ano de fim de quadro comunitário e de eleições regionais , supostamente seria um ano de muitas metas e de muitos desígnios, convulsões até. O orçamento regional vai ser maior do lado da receita por força do aumento das transferências da república ao abrigo da Lei de financiamento das Regiões Autónomas. Na decorrência desse aumento da receita, apesar do mesmo indiciar o arrefecimento da economia em 2018, havendo mais alguma disponibilidade financeira e orçamental e sendo a economia dos Açores muito dependente do orçamento regional, é natural que se registem pequenas evoluções na economia das nossas ilhas. No entanto, o grande problema económico da nossa comunidade política continua a ser a debilidade do tecido empresarial que ainda ficou mais fragilizado depois das crises económica e financeira que vivemos à escala mundial. As pequenas e médias empresas que resistiram à crise ficaram muito descapitalizadas e as que desapareceram não foram substituídas nem é possível que venham a sê-lo. A regulação não permite que os empresários retomem a atividade económica, ou  se reformam, ou vão para o desemprego e a indigência e tornam-se trabalhadores por conta de outrem. Na verdade, perde-se muita criatividade e empreendedorismo por via da regulação demasiado apertada e desnecessária. O Estado/Região é obsessivamente regulador, está-lhe no ADN. Uma economia altamente regulada e centrada no estado, e um sector de investimento e inovação “keynesino” assente em subsídios estatais cuja atribuição é só por si um instrumento regulador pernicioso, não cresce sustentávelmente, promove enormes desigualdades sociais e impossibilita uma franja significativa da sociedade de ter acesso às mais diversas oportunidades. As decisões políticas condicionam demasiado o plano económico. Uma coisa é certa, há um crescimento do sector terciário e uma certa consolidação dos subsectores da hotelaria e restauração e isso poderá aliviar um pouco os números do desemprego no próximo ano e consequentemente terá reflexos nos números relativos à pobreza. Mais investimento público menos desemprego, menos pobreza, é o que se espera em 2020, ano de ir a votos nos Açores.


2 - As eleições regionais são acontecimento incontornável neste 2020. Qual a sua perceção em termos de estratégias dos partidos e da mobilização dos eleitores?

Analisando em jeito aligeirado o que poderá acontecer nos Açores no próximo ano do ponto de vista político digamos que há uma meia dúzia de análises que se podem fazer sendo que todas elas passam, incontornavelmente pelas eleições regionais de outubro próximo. Na realidade, 2020 é um ano importante para a democracia e para a autonomia dos Açores. Temos eleições regionais lá para Outubro e as eleições são a festa da democracia sendo as regionais a grande festa da autonomia constitucional. A próxima legislatura será a última em que o Partido Socialista pode indicar Vasco Cordeiro, o maior ativo político que o PS detém no momento na Região, para o cargo de Presidente do Governo dos Açores uma vez que por via da lei de limitação de mandatos Vasco Cordeiro será o primeiro Presidente dos Açores a não ter a possibilidade de cumprir uma quarta legislatura. A implantação que o Partido Socialista  já tem nos Açores, mercê de clientelas políticas que foi construindo e consolidando ao longo dos últimos 23 anos de poder e o capital político do seu líder, deixam claro quem será o grande vencedor das eleições do final do ano. Não pode, no entanto, o Partido Socialista tomar isso como certo. Há, na verdade, idiossincrasias locais que podem alterar radicalmente o sentido de voto e há algumas franjas do eleitorado esclarecido, mais urbano  e mais volátil que manifestam já algum descontentamento com a governação socialista. Basta um descuido e o PS pode perder deputados numa ou duas ilhas das mais pequenas e mais um ou dois nas ilhas maiores. Cabe à oposição fazer também o seu trabalho. Vasco Coreiro parte com muita vantagem para esta corrida desigual, “nos primeiros cinquenta metros leva cem de avanço”.

Do lado da oposição a novidade é que vamos assistir a um PSD, com uma nova liderança. Desejado pelos militantes, empurrado pelo aparelho, levado ao colo pelos parceiros, José Manuel Bolieiro tem a responsabilidade de liderar o maior partido da oposição e de fazer pontes com os autarcas e restantes forças partidárias, rumo a 2024, não lhe é exigido que ganhe eleições agora, seria injusto fazê-lo. O Bloco de Esquerda aproveitará a boa performance eleitoral nacional para tentar, nos Açores, conquistar a condição de 3ª força política e posição de charneira caso o PS tenha algum desaire eleitoral que, só pode acontecer, por razões excepcionais como já referi. O Bloco ultrapassará assim o CDS, de onde se podem esperar ainda algumas surpresas nos próximos tempos com o congresso marcado e adiado para este início de ano.
Surpresas podem também vir das novas forças políticas emergentes, PAN, CHEGA, ALIANÇA, INICIATIVA LIBERAL e LIVRE, sendo que os únicos, destes novos partidos, que estão minimamente organizados nos Açores são o Aliança e o PAN, todos os outros carecem encontrar figuras e construir estruturas para poderem alcançar o objectivo de eleger deputados.
O fator surpresa pode funcionar, por exemplo em São Miguel, se um qualquer destes partidos, mais à direita, confirmando-se a falta de habilidade do CDS em recuperar o seu eleitorado perdido, conseguir um cabeça de lista com peso eleitoral significativo e uma equipa minimamente aceitável e assim alcançar o desiderato de eleger um Deputado.

De resto, não se podem esperar grandes surpresas, o eleitorado corresponderá à chamada quanto mais os partidos da oposição demonstrarem vontade e apresentarem alternativas, caso contrário teremos Vasco Cordeiro num passeio tranquilo até Outubro de 2020 e um Partido Socialista empenhado em encontrar, ou perdido em lutas fratricidas, pela sucessão ao “Gigante da Covoada”.


In Jornal Diário dos Açores, edição de 01 de Janeiro de 2020.

31 de dezembro de 2019

Açores primeiro



SATA sempre! São duas parangonas que jamais olvidaremos. Não se cumpre a Autonomia dos Açores sem a SATA e as suas ligações regulares entre ilhas. Na verdade a companhia aérea regional é um instrumento fundamental de coesão social e territorial e tal como as mais amplas ou simples liberdades só sentiremos a sua falta depois de a perdemos. Por isso, tal como é obrigação de cidadania promovermos as liberdades coletivas e individuais, é dever de cidadania promover e defender a nossa companhia aérea. Na passada semana, confrontados com uma greve, absolutamente legitima até mesmo pelo “timing” e com a massa salarial ameaçada por uma ave de arribação que foi logo dizendo que “ vai doer”, a conjugar com um final de Outono em transição para o Inverno dos mais tempestivos dos últimos anos, foi notável o esforço hercúleo que trabalhadores de terra e do ar fizeram para garantir que todos chegariam aos seus destinos a tempo de passar o Natal junto daqueles com quem desejavam estar. Fomos os primeiros, entre os portugueses, a ter uma companhia de aviação e saibamos manter este importante instrumento sempre ao serviço de todos os açorianos e não dos interesses apenas de alguns.


In Jornal Açoriano Oriental, edição de 30 de Janeiro de 2019

26 de dezembro de 2019

Fui ao Mar...



Buscar Laranjas” … Mas só encontrei tangerinas. Perdido nas páginas da poesia de  Pedro da Silveira, recentemente editada pelo Instituto Açoriano de Cultura e cujo título achei delicioso,  não resisti a completar o mesmo com um tema natalício. O Natal açoriano, católico, conservador, reserva aos aromáticos citrinos um lugar especial ao lado do trigo e da ervilhaca. Junto ao Menino, deitado numa almofada de damasco, deixam-se as mais bonitas tangerinas. Nunca soube o significado deste costume, mas também não é isso que interessa. Importam sim, as palavras de Pedro da Silveira no seu magistral poema intitulado “gazetilha” que calha bem nas nossas “guerras2 pelos assuntos do mar e dos foguetões.

 “A liberdade que sei
E tenho por minha lei
Senhores políticos de Lisboa
Temo que não seria essa de que vos fazeis promessa
Tão géneros tão boa… gato escaldado (demais insulano dos Açores)
Fazem-me suar terrores
As liberdades plurais
Desde russas a francesas
Em traduções portuguesas
Chamem-lhes só liberdades
E a vossa
Pois seja a vossa vontade
(…)
Adeus passem muito bem
Senhores filhos da mãe."



In jornal Açoriano Oriental edição de 24 de Dezembro de 2019

Painel_Económico

Correio económico - Quais os factos mais relevantes ocorridos em 2019 nas áreas económica e política nos Açores?

Nuno Barata - A relevância económica de alguns factos ocorridos ao longo de 2019 traduz-se muito facilmente num discurso sobre o crescimento. Na verdade, este foi o ano em que a economia dos Açores mais cresceu, contrariando o abrandamento do PIB de 2018. Certamente a indústria do turismo tem uma enorme responsabilidade neste crescimento da economia e na ligeira baixa do desemprego. No entanto, este foi também o ano em ficamos a saber que a pobreza nos Açores aumentou muito significativamente em especial na Ilha onde foi criada, supostamente, mais riqueza. Este facto, confirmado por números irrefutáveis, vem confirmar o que venho a dizer quer aqui neste painel quer em outros fora ou espaços mediáticos em que tenho participado. O desenvolvimento insustentável mas sustentado constrói ilusões que tarde ou cedo virão denunciar a decadência das contas públicas e um galopante aumento das desigualdades sociais e exclusão dos mais pobres. Infelizmente os montantes de despesa de capital das empresas não se reflete no aumento do VAR e por isso não é possível remunerar melhor a força de trabalho nem sequer a qualificar da melhor e mais eficaz forma.
Do ponto de vista político o ano de 2019 fica marcado mais uma vez pelas conclusões  do Tribunal de Contas sobre  a conta da Região e à leviandade com que são tratadas as sucessivas e recorrentes recomendações daquele órgão de soberania.
2019 Fica ainda marcado pela perca incalculável e prematura de um dos mais promissores políticos dos Açores, um dos poucos com dimensão nacional e internacional. Seria muito injusto não lembrar nesta hora de balanço a partida do André Bradford, o Homem, o pai e marido, o humorista, o escritor, o melómano mas sobretudo o político nesta fase em que a humanidade carece de mais políticos e menos tecnocratas.


In jornal Correio dos Açores edição de 20 de Janeiro de 2019, suplemento Correio Económico.

18 de dezembro de 2019

Selvajaria



Mais uma vez as claques organizadamente desorganizadas, sem Rei nem roque, gente sem dono, tomaram conta de Ponta Delgada e fizeram o que menos se espera, ou talvez não, de um grupo de adeptos desportivos. Vandalismo quanto baste e apelo à violência. A prática desportiva, mesmo que de alta competição e negócio económico e financeiro, pressupõe bons hábitos. A estada do Santa Clara, ou de outro qualquer clube dos Açores, na linha da frente do futebol português é uma enorme valia para a indústria do turismo, quer em termos de notoriedade de um destino que está em construção quer em termos de captação de fluxos de viajantes em épocas de menos procura. Ao que me parece, de tantos planos e projetos, quem nos governa pretende desenvolver essa indústria nos Açores de modo a que venha ocupar o espaço económico que se vai esvaziando com a perca de rendimentos do sector primário e a incapacidade de desenvolver o terciário sem ser pela via dos serviços prestados a quem nos visita em lazer. Da parte de quem vem fruir do que é nosso, exige-se que seja mais civilizado, sob pena de tanta selvajaria criar anticorpos na sociedade Açoriana.


In Jornal Açoriano Oriental, edição de 17 de Dezembro de 2019

16 de dezembro de 2019

Reserva é reserva.


Há uma razão de peso, que na verdade encerra em si mesma várias outras ponderosíssimas razões, para não permitir a construção do miradouro e do subterrâneo na cumeeira da Lagoa do Fogo, chama-se: Sustentabilidade. Este projeto não garante um único dos principais parâmetros da sustentabilidade, são eles o económico, o social e o ambiental.
Do ponto de vista económico este é um projeto sem retorno direto, ou seja só gera gastos (custo) não gera ganhos (lucros) como tal não é sustentável economicamente.
Se atentarmos à questão social até podemos admitir que o mesmo alimente alguns egos, mas na verdade não há ganhos sociais, bem pelo contrário, vai gerar algum emprego temporário na altura da implementação e da construção mas posteriormente essa motricidade social morre pela base.
Da ótica da sustentabilidade ambiental nem se fala, não há qualquer tipo de benefício, bem pelo contrário. Este projeto ao desenvolver-se numa área da Rede Natura 2000 deveria ter tido em consideração a movimentação de terras necessária, a questão dos solos no local e a sua instabilidade e permeabilidade ou impermeabilidade bem como a existência de biótipos diversos. Promove, além do mais, a betonização de uma área considerável para estabilização do talude e cria condições, ao invés do anunciado, para o aumento da carga humana no local. Não são usados materiais autóctones, aliás a esse respeito tem havido uma enorme falta de respeito, transversal à sociedade açoriana.
Há muito para fazer na reserva Natural da Lagoa do Fogo, muitíssimo mesmo, poderia começar por um projeto de irradicação das gaivotas por exemplo, um caso de saúde pública, ou até por uma fiscalização efetiva do uso da cratera e da sua área molhada, coisa que não existe, fiscalizar nesta Região é um eufemismo. Podiam mesmo proceder à limpeza de infestantes na zona, mas não, tudo isso dá trabalho e não mostra factos transformáveis em votos, ao invés os governantes “facilitistas” promotores de notícias em vez de gestores da coisa comum, preferem fazer o que tem sido costume, derramar dinheiro que é o mesmo que dizer betão em cima de tudo e de todos.
Toda a zona entre os Foros da Ribeira Grande e os Remédios da Lagoa, é propícia a ter controlo de acessos e tem atrativos suficientes para se implementar um sistema de shutllle hop on hop of, esse sim capaz de garantir o controlo de acessos e a pressão sobre o local, não apenas de pessoas mas principalmente de viaturas, criaria emprego, valor acrescentado e sendo usados autocarros mesmo que convencionais o ganho ambiental seria brutal. No mesmo trajeto e pagando sempre o mesmo bilhete, que nunca poderia ser barato, o utilizador pode fruir de, pelo menos, quatro paragens com potencial turístico, a saber: Caldeira Velha; Miradouro da Lagoa do Fogo; Miradouro do Pico da Barrosa; Trilho da Janela do Inferno. Isso para citar apenas aqueles que já são utilizados pois se quisermos podem ainda falar da subida do Pega-Cão, dos Cachaços; da volta à lagoa pela zona do Pico da Vela, Lombadas e muitos outros que não são massificados mas que importa ir dando a conhecer para efetivamente se aliviar as zonas onde é efetivamente perniciosa a pressão humana.
Não está em causa a qualidade nem do projeto nem a opção estética, está em causa a Lagoa do Fogo, uma das nossas “Galinhas dos Ovos de Ouro” que este governo está a correr o risco de matar ainda antes dela por o primeiro ovo.


In, Jornal Diário dos Açores, edição de 15 de Dezembro de 2019

Sustentável?

Para falarmos de um destino turístico sustentável, temos que começar pelo princípio. Serão os Açores um Destino Turístico? Mesmo admitindo que sim, o que não é líquido, dissequemos o conceito de sustentável. A sustentabilidade avalia-se, com seriedade, por três vetores: Sustentabilidade Económica, Social e Ambiental. Do ponto de vista económico o “destino” assenta em camas, carros e restaurantes construídos e comprados com fundos da União, ou seja é mais sustentado do que sustentável. Do ponto de vista social, o “destino” representa uma ínfima parte dos empregados mas dessa ínfima parte fazem parte a maior parte do precários e dos mais mal pagos, estão aí em estatísticas (PISA) ainda recentes os números da pobreza no dito “Destino Sustentável”. Mas, do ponto de vista da sustentabilidade ambiental, a coisa torna-se do domínio do risível. De facto os turistas poluem pouco, já os “locals” são uma raça pouco dada a cuidar do ambiente, a título de exemplo: No último Domingo fui, como costumeiramente, caminhar com uns amigos pelas “entranhas” da ilha de São Miguel, no regresso ao carro, só nos derradeiros quilómetro e meio, juntamos uma saca de ração abandonada que enchemos com lixo. Haja saúde.

In Jornal Açoriano Oriental, Edição de 10 de Dezembro de 2019

E a tropa?


É indiscutível que as Forças Armadas Portuguesas têm uma excelente comunicação. No caso do apoio às populações afetadas pelos efeitos do furacão Lorenzo isso foi bem notório. 
Passados estes meses todos, os canhões foram-se da ilha, o C-130 já nem tem verba para a “benzina” e o navio de apoio jaz no Alfeite. É agora, no Inverno, na época mais sensível para a Ilha que devíamos estar a ouvir falar da tropa e do estado. Não daquela tropa que chegou e partiu depois de ter conseguido dez noticias boas. Não daquele estado que acha que resolve tudo anunciando milhões da União Europeia como se fossem seus. Mas sim daquele estado que usa bem os milhões no apoio às populações que mais precisam. Eu, assutado com o que estava a ver, avisei os Florentinos para se porem em sentido, fui mal interpretado, é costume, talvez por ser “japonês”. Acontece que a tropa fez dez e anunciou cem e todos os dias saiam notícias sobre tropas a desembarcar, sacas de batatas a chegarem à Ilha, um ror de coisas chapadas nas páginas dos jornais. No fim, nem o gasóleo era de qualidade que pudesse ser usado



In Jornal Açoriano Oriental, Edição de 3 de Dezembro de 2019

26 de novembro de 2019

Património?


Parece que é Doutor em Ciências Sociais, não tenho bem a certeza porque andei a buscar na rede e não encontrei senão algumas, poucas,  referencias soltas. Francisco Sarmento dirige o escritório da ONU para a Agricultura e Alimentação (FAO) em Portugal e na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) desde 2016 e esteve na passada  semana na Ilha Terceira onde deve ter dito coisas lindíssimas mas, como de costume, pouco uteis para quem se levanta de manhã cedo e se deita de noite tarde na luta diária (365 dias no ano) para pagar as contas, cada vez mais difíceis de pagar. Num congresso de Agricultura repleto de fatos escuros e gravatas contrastantes, com pouca gente que vive de trabalhar a terra e  muitos que vivem de falar disso ou de  canibalizar o sistema com os seus produtos milagreiros ou com as suas estratégias comerciais encapotadas de cooperativismo e associativismo, essa criatura terá alvitrado a hipótese de candidatar a Agricultura Açoriana a Património da Humanidade. Essa gente não sabe mais o que dizer para cair nas graças de quem a mantém de barriga cheia. Deixem de convidar gente dessa, por favor, pela nossa saúde mental.


In Jornal Açoriano Oriental edição de 26 de Novembro de 2019

22 de novembro de 2019

Sou



Cantarolava uma musica do Zeca:

"Quero ver o que Terra me dá/Ao romper desta manhã/O poejo, o milho e o araçá/A videira e a maçã (...)" devia estar a fazê-lo com tanta afinação que alguém ali perto exclamou,: afinal também sabe cantar. 

-Sim gosto de cantar mas não o faço mais amiúde por vergonha, disse timidamente.

- Vergonha? Mas qual vergonha, até canta bem!

-É por isso mesmo, disse eu,  para não dizerem: Porra também cantas?

Mais adiante, num  ambiente completamente diferente onde eu ia cansado, esfomeado, quase zangado mas cantarolando  desta feita um poema do incontornável António Melo Sousa musicado pelo não menos incontornável Luís Bettencourt,

 "Esta rosa que te ofereço,
é um dom que não tem preço
é a flor que em mim plantaste.
São pétalas são espinhos
que enfeitam os caminhos
do coração que assaltaste.
Há um jardim em teus olhos
feito de ternura aos molhos
e encantos de promessas…
hei-de ser o jardineiro
que cultiva a tempo inteiro
esse canteiro de esperanças.
Virão chuvas, virão ventos,
virão temporais aos centos
pra murchar nosso desejo,
esperaremos pelo Sol
como quem busca o farol
que anuncia o novo porto,
navegaremos os medos
como quem desfaz enredos,
que a vida sem aventura
é pássaro sem ninho,
é uva eu não dá vinho,
é um mal que não tem cura.
Esta rosa que te ofereço
é um dom que não tem preço
é o amor que em mim plantaste.

Perguntou-me alguém em quem eu quase esbarrava: Quem és na verdade Nuno Barata, que ontem eras atleta de maratonas, hoje cantas o amor e amanhã serás agricultor depois da missa.
Entrei no café Royal, o Pedro serviu-me um café entre duas piadas de circunstância e veio-me à cabeça o Jorge Luis Borges:

"(...) somos aquilo que comemos, sem dúvida, mas também somos cada livro lido, cada história vivida nesse mar de letras e cada sensação experimentada ao longo de mil e um romances(...)"

Sou todos os livros  que li
Sou todos caminhos que percorri
Sou todos os amores que vivi
Sou um somatório
Sou matemática portanto.

19 de novembro de 2019

Açores Primeiro



No plano teórico repensar as politicas e planear o futuro são uma obrigação de todos os partidos, corporações e até dos cidadãos, tenham eles mais voz ou menos voz, mais palco ou menos palco. Nesse sentido faz toda a diferença quem promove o debate saindo da sua “zona de conforto”, de quem simplesmente não o faz por mero comodismo. Faz bem, por isso, o Partido Socialista em trazer à liça as questões que incomodam os açorianos por forma a traçar novos rumos. Foi assim que fez em 1995 António Guterres com os chamados Estados Gerais e assim fez Carlos César com a Nova Autonomia de 1996, dois movimentos que envolveram as elites nacionais e regionais (muitos independentes) com o intuito de quebrar os ciclos longos de governação do PSD esgotado de ideias e envolto em escândalos. Ora a diferença para este novo movimento está desde logo na falta das elites, mas até dou de barato que as escolhas feitas sejam as possíveis o que já é mais difícil de perceber é qual é o ciclo que o PS-Açores pretende quebrar? Senão o seu próprio ciclo longo de quase 24 anos de poder.



In Jornal Açoriano Oriental, edição de 19 de Novembro de 2019

14 de novembro de 2019

O bodo.

Estamos a entrar naquela altura do ano em que os privilegiados e até alguns mais remediados que aspiram alcandorar o “next floor” do elevador social, se agrupam, associam, organizam para como dizia alguém “jantarem lagosta para angariar fundos para oferecer massa aos pobres”. Fazem tudo isso acompanhado da mais elementar propaganda “marketista” e vão todos, muitos pelo menos, nessa cantiga. Esta é, de facto, uma época em que nos sensibilizamos um pouco mais com a pobreza, com a infelicidade e com a solidão do próximo mas isso não dá o direito de nos refastelarmos enquanto desejamos uns pacotes de arroz, massas e ou um mero “cabaz” com uns figos passados e uma garrafa de vinho do porto de 5ª categoria. A caridadezinha, como lhe chamava o “reviralho” que o estado social emergente dos anos setenta do século passado tanto criticou e tentou acabar, afinal não deixou de existir, apenas se passou a chamar “solidariedadezinha”. A diferença na prática é, no entanto, abismal, é que a caridade católica de então seguia os ensinamentos de Mateus (6:3) “(..), quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita". 
Hoje tocam trombetas.

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