8 de outubro de 2018

De língua na boca mas não é para casar.


“Dá para sermos amigos, não dá para casar” foram estas as palavras de António Costa na entrevista que deu à TVI em vésperas de entrega da proposta de Orçamento de Estado para 2019, ano de eleições e de todas as decisões sobre o seu futuro como Secretário-geral do PS.

Acontece que esta não é uma simples amizade, Costa, se atentarmos à teoria triangular do Amor,  está numa relação de Companheirismo Amoroso com Catarina Martins e de Amor Fugaz com Jerónimo de Sousa. Explico, Com Catarina Martins e o Bloco de Esquerda mantem uma relação de intimidade, anda de língua na boca, faz piadas, troca olhares e manifesta-se pelas suas expressões corporais, e mantém um certo compromisso mas ainda não deixou a escova de dentes na casa de banho dela. Com Jerónimo de Sousa e o PCP trata-se de paixão, coisa antiga, o PS é no fundo um herdeiro do socialismo soviético com vias democratizantes e também compromisso mas não chega para casar, o PCP abomina relacionamentos definitivos.

Para Costa isso vai chegando, vai dando jeito, ora passa um assunto aqui ora passa outro assunto acolá. Para a esquerda radical é que a coisa, tal como para as amantes em relações triangulares, não passa de um amor instrumental, em que ela finge não gostar nem ceder espaço mas no fundo sabe que quando esticar a corda ela partirá para o seu lado.

Se até aqui tivemos uma geringonça que apesar de ser um amontoado de arames e porcas desajustadas fez funcionar uma maioria com estabilidade parlamentar, depois da entrevista do Primeiro-ministro passamos a uma fase diferente. Na verdade, passamos à fase pré eleitoral que como o próprio nome indica antecede as eleições legislativas de 2019, data em que o Povo escolherá se quer uma geringonça se quer uma maioria do PS para governar o país sem dar contas senão aos seus representantes parlamentares que, como se sabe, nessas circunstâncias, não passam de autómatos que se levantam e sentam à voz do chefe.

A direita, de Assunção Cristas, Rui Rio e quem sabe de Santana Lopes, olha para este namoro de Costa com as esquerdas como uma magra olha o prato cheio de doces que a gorda do lado degluta naquele casamento onde foram as duas convidadas do noivo. Baba-se como o cão de Pavlov mas finge não gostar daquela iguaria. Prefere ser elegante mas na verdade está se roendo de inveja do prato a abarrotar de doces com ovos e natas com que  a gorda se delicía exibindo descomplexadamente as suas  formas “Michelin” por baixo da blusa de seda.

À direita, nem namoro nem casamento, são todos tão perfeitos, tão com tudo no seu lugar que não se olham. Cristas está tão cheia de si mesma que não olha à volta, nem sequer para dentro do seu próprio partido. Santana ainda não sabe se tem certidão de nascimento  e Rio , na verdade, nem é de direita nem de esquerda e talvez preferisse ir ao altar com Costa do que com  qualquer um dos outros dois.
Entretanto o percurso do PS que podia parecer espinhoso começa a ficar liso e claro sob a batuta do “Bispo” Marcelo, que só desilude, de facto,  quem se iludiu como foi o meu caso.

Fogo os abrase nessa fogueira de ciúmes saída de um enredo de novela mexicana de qualidade duvidosa.

Ponta Delgada 3 de Outubro de 2018

6 de outubro de 2018

Coluna Liberal - Jornal Diário dos Açores 5 de Outubro de 2018



Máxima liberdade com a maior responsabilidade

Título esta minha reflecção de hoje com uma frase que deverei ter ouvido umas centenas de vezes da boca do meu saudoso Pai. Essa é, certamente, uma das frases mais proferidas pelos Pais quando vão abrindo mão do seu controlo sobre a vida dos filhos e os vão libertando para a vida mundana sem proteção do manto do “ninho” paterno.
Para as nações como para os indivíduos a conquista da liberdade constituiu também um conjunto de responsabilidades acrescidas. Desde logo, exige-se que os cidadãos de um estado livre e democrático exerçam o seus direitos e deveres de cidadãos de forma responsável e tendente  a construir uma comunidade politica livre e democraticamente lastrada.
Usa dizer-se que o ser humano tem tendência a apenas valorizar as coisas importantes quando as perde. Ora, a liberdade é uma dessas coisas que os povos têm tendência para não dar valor enquanto a podem fruir mas que, de súbito valoram quando a perdem. Basta para tal ter apenas essa perceção de perda.
As recentes eleições diretas no PSD-Açores, tal como acontece em todos os partidos, registaram uma abstenção para lá dos 70%. Partidos há em que essa participação em eleições internas é ainda mais diminuta. Se olharmos para a eleição de órgãos de ilha e concelhios, espécie de proliferação de órgãos supostamente descentralizadores mas que não passam de instrumentos do mais hediondo caciquismo, essa realidade ainda se torna mais dramática, casos há em que nem os próprios candidatos se dignam a ir votar na lista de que fazem parte.
Atente-se à democraticidade dessas eleições e à legitimidade desses eleitos. É, obviamente, difícil desmontar o argumento da falta de democracia no seio dos partidos políticos portugueses, eles parece que trabalham afincadamente para o descrédito. Há mesmo os que anunciam abertura à sociedade civil e outras artimanhas para cair no goto dos eleitores e adeptos, militantes, simpatizantes, correligionários e outros epítetos de uso comum. Tudo isso feito como se os Partidos Políticos não fossem, por si só, parte da chamada sociedade civil, senão mesmo, nos casos como o português, a essência da sociedade civil. Mas não, eles sentem-se acima de tudo isso. Sentem-se acima dos cocidadãos, dos seus pares. É disso que trata hoje a política à portuguesa.
Já aqui nesta coluna alertei, pelo menos duas vezes, para a necessidade de prevenirmos acutilantemente o recrudescimento de sentimentos nacionalistas exacerbados que podem apenas contribuir para o nascimento de totalitarismos à semelhança do que vimos acontecer no rescaldo das primeira e segunda guerra mundiais.
Na verdade, o discurso e a narrativa anti liberal, recorrentemente usados pela esquerda anti democrática clássica e emergente e por uma boa faixa das denominadas sociais-democracias ou socialismos democráticos, constitui um enorme o risco pra a relativização e assim contribui para que a humanidade tenda em regressar a regimes mais ou menos musculados que atropelem os chamados direitos liberais.
A incapacidade dos regimes e a falência do estado social por se ter transformado num estado omnipresente e omnipotente que quer controlar tudo e todos falhando redondamente em toda a linha principalmente nas áreas em que, de facto, tem razões para existir, leva a sentimentos de descrença coletiva, de negação generalizada das evidências e à não participação cívica por parte das gerações que já nasceram em estado de liberdade. Vai assim crescendo o terreno fértil para a emergência de regimes perniciosos.
A consolidação da democracia não se compadece com discursos populistas ou com falta de participação cívica. A democracia apenas se lastra com honestidade intelectual e muita formação sobre os direitos, liberdades e garantias, em suma, faz falta mais cidadania.

4 de outubro de 2018

Roda Viva - EPI 3 - 4 Outubro 2018

A humanidade não é para humanos


Este país não é para velhos, romance de Comac MacCartthy, eternizado pelos irmãos Coen no grande ecrã com o filme homónimo No Coutry fol Old Men, inspirou-me para a escolha do título desta cronica de hoje.

Robots, “machinas”, gadgets, APP para tudo e para nada a esperança da robotização  generalizada, as viaturas sem condutor, os aviões sem aviador, os navios sem capitão, as cirurgias sem doutor. A era da tecnologia em todo um esplendor de falta de sensações e de metalização das atividades humanas.
Pois é. Primeiro deslumbramo-nos com a tecnologia, a máquina a vapor, O “Cavalo de Ferro”, ou como diz Gedeão,  “(…)cisão do átomo, radar, ultra-som-televisão, desembarque em foguetão na superfície lunar (…) mas nem sempre que um Homem sonha o mundo pula e avança, há vezes em que regride, se perde em problemas que não tem e se desfaz em desilusões na espuma dos dias.
Depois do deslumbramento com os avanços tecnológicos e com a ciência, veio o desprezo pelo estudo das humanidades. Foi o passo seguinte. Isso é coisa que não alimenta bocas nem trata doenças. Um filho que se perde nessa coisa de estudar história ou filosofia é uma dor de cabeça para os pais. Não será engenheiro nem médico, nem sequer economista, essa profissão com artes de quem se dedica a fingir que sabe tomar conta dos recursos de quem os soube constituir. Com sorte acaba numa secretária lá do ministério onde as meninas que servem os cafés e a Dona Inês das fotocópias fazem o favor de o tratar por Dr. Fulano de Tal, e ao virar de costas se perguntam se alguém sabe o que faz por ali o dito Fulano de tal.

Deixaremos de ser gente para sermos autómatos carregadores de botões que não perceberemos o que fazem e ainda menos seremo0s capazes de compreender para que o fazem. Seremos parte de algoritmos e de sistemas de alerta complicados fazendo lembrar aquela anedota do Alentejano que vai numa nave espacial com um macaco com ordens de alimentar o macaco e não mexer nas alavancas. Seremos reduzidos à condição de pedintes recetores de um qualquer “rendimento mínimo assegurado” que essa coisa já mudou de nome umas quantas vezes e ainda mudará mais outras tantas.
Nos cafés, onde não haverá mais qualquer Steiner que nos aguce a arte de pensar e partilhar esse pensamento, seremos servidos por um amontoado de microchips e cabos velhos reciclados vezes sem conta que o cobre já se está a acabar pelo espaço terrestre deste planeta mar de tal maneira que estamos já a desenvolver máquinas infernais para minerar as profundezas do azul em busca dos restos.
O estudo das humanidades ajuda-nos a ser mais humanos, o desprezo por ele faz-nos perder o sentido de sermos humanos.
Fogo abrase essa humanidade que desumaniza.


Ponta Delgada, 21 de Setembro de 2018



1 de outubro de 2018

Foguetões ou foguetório?



Há duas razões para fazer o Spaceport em Santa Maria  uma é porque sim e a outra é porque sim. Ou seja porque alguém quer, porque alguém decidiu, porque alguém entende que isso é muito bom para a Ilha, e para os Açores, para Portugal e imagine-se para a humanidade.
Mais uma vez, como todas as outras vezes, as Ilhas dos Açores estão no meio dos apetites geoestratégicos ao serviço da guerra. Isto é o que ninguém nos diz. Sim porque é de guerra e de tecnologia ao serviço da guerra que se trata não só mas também e principalmente.

Se é bem verdade que a nossa importância geoestratégica e geopolítica apenas existe precisamente quando terceiros a valorizam, caso contrário não passa de uma posição geográfica, também é bem verdade que nem sempre devemos estar recetivos à entrada de estrangeiros no nosso território de forma a o transformarem definitivamente e irremediavelmente. Já foi assim num passado de emigração e fome que alguns, os que se safaram, entendem que foi muito bom.

O caso do denominado “Spaceport de Santa Maria”, ainda mal explicado, apesar do esforço do Governo e dos seus defensores, é um desses casos em que uma intervenção ao nível ambiental, social e no âmbito mais vasto do político terá consequências irreversíveis. Por isso, carece de uma avaliação séria e dos seus efeitos a longo prazo.

A quando da avaliação de possíveis localizações, Ponta Delgada da Ilha das Flores foi uma das hipóteses em cima da mesa. Desde logo essa hipótese estava comprometida pelo estatuto de reserva da biosfera. No entanto,  numa visita rápida, alguns técnicos estrangeiros colocaram-na de parte por causa da reduzida dimensão e operacionalidade da pista de aviação. No entanto, um desses técnicos deixou escapar ao seu anfitrião um desabafo: “ vocês não estraguem este paraíso”.

Se formos revisitar as notícias de 2000 a 2006 sobre a estação de rastreio de satélites da ESA em Santa Maria, também, ela ia trazer muitos empregos e muito desenvolvimento. Nem na fase de construção o trouxe (a empresa que a construiu faliu quase de seguida). Conclusão, a Região construiu um edifício, expropriou terrenos, concedeu à ESA para utilização, tudo isso custou muito dinheiro aos nossos impostos e nós (Ilha de Santa Maria) ganhamos mais um posto de trabalho, um emprego de segurança privado  a auferir o ordenado mínimo regional. Pronto admito, numa ro9tação de 24 horas de serviço são pelo menos 3 empregos.

Esta agora nova solução para os velhos problemas é só mais uma, mais um  “covaneiro” ( caso de estudo quando se fala de fraude na Ilha) que vai enganando com papas e bolos aqueles que preferem viver na ilusão de que vai vir alguma coisa de fora do que fazer cá dentro..

Mas a maior fraude está naqueles que defendem que a tecnologia a ser utilizada é limpa, o combustível será Gaz Natural Liquefeito e não haverá perigo de contaminação dos solos, do ar, ruido ou seja lá o que for. Vai ser tudo muito bom, espetacular. Então porque não o constroem em cima das vossas cabeças, nas áreas degradadas deixadas pelos tempos áureos da aeronáutica Civil? Posso indicar, pelo menos dois lugares extraordinários para o efeito. Um é o denominado “tankfarm” e o outro a zona dos emissores. Têm ambos a mesma posição geoestratégica que tem Malbusca e fica tudo muito mais pertinho das vossas casas e dos ambientes urbanos onde gostais de conviver.

Há duas perguntas que são importantes serem respondidas neste momento e que ainda não foram devidamente esclarecidas.
Porquê Malbusca se é tudo feito com tecnologia muito limpinha?
Porquê Malbusca se não é tudo feito com essa tal limpeza toda?


São Lourenço, 22 de Setembro de 2018

22 de setembro de 2018

Coluna Liberal - Jornal Diário dos Açores 21 de Setembro de 2018


Ao longo da história da humanidade várias foram a tentativas dos governantes de condicionarem o pensamento e o desenvolvimento dos indivíduos. O liberalismo veio trazer algo de novo ao pensamento filosófico e à organização do governo da polis no sentido de libertar o cidadão das peias do absolutismo.
Nos últimos dias, na Cidade Praia da Vitória, o Partido Socialista dos Açores discutiu (eufemismo) e votou (outro eufemismo) uma moção de estratégia global que, para além de ser a única a ir a votos, foi aprovada por unanimidade (por principio não aprecio unanimismos). Escalpelizar essa moção é uma tarefa, de veras, complicada para alguém que ousa defender as liberdades individuais e os seus princípios libertadores.
Apreciar os discursos do oradores fixando-se nas expressões faciais de Carlos Cesar é um exercício que , talvez, pouca gente fez. Analisar a denominada, perdoem-me o estrangeirismo, “body language” do presidente honorário do PS-Açores é um exercício lúdico muito interessante. Este foi um congresso que ficará marcado não pelo que disse, verbalmente Carlos Cesar, mas sim pelo que expressou inequivocamente pela permanente “cara de jogador de poker” que ostentou. Tomara. Cada “jovem turco” que subiu à tribuna naqueles dias veio anunciar mais uma medida, mais um truque de magia para resolver problemas estruturais, permanentes e persistentes da sociedade açoriana. Diz a sabedoria popular  que “ quem se deita com pequenos acorda mijado” Carlos Cesar, um dos mais experientes políticos portugueses, acordou encharcado.
Cesar ouviu e consentiu mas, certamente não gostou, eu também não gostava.
A páginas tantas (42 para ser preciso), da tal moção de estratégia global aprovada por unanimidade, lê-se: “o Partido Socialista dos Açores tem dirigido a sua ação política para a promoção de uma sociedade cada vez mais coesa, justa, solidária e geradora de igualdade de oportunidades.” Para logo de seguida se ler que “a educação permanece como a mais eficaz ferramenta no combate à pobreza, no acesso ao emprego e a uma remuneração condigna.Sempre a paixão pela educação usada como arma de combate à pobreza e à exclusão mas isso só nas palavras porque nos atos a Região está para lá de muito pior do que o resto do país e  a distar muitas milhas do que  já se faz por essa Europa a dentro da qual divergimos a olhos vistos e números declarados.

Dizem ainda os subescritores que uma estratégia para a educação “ implica uma mudança de mentalidades, de procedimentos e de prioridades, inclusive dentro do próprio sistema educativo regional “. Salvo seja!

O Estado de direito democrático não pode nem deve construir mentalidades, condicionar formas de pensar, construir narrativas diferentes da estrutura cultural e identitária de todo um Povo. Bem sei que para este PS essa coisa de Povo Açoriano “não dá pão”, mas devia dar.

Quando o estado monitoriza e indica tutores educativos, como se de “guardas vermelhos” se tratassem, para supostamente ajudarem determinados indivíduos, esse estado está a condicionar o pensamento desse individuo e a dirigi-lo para um pensamento coletivo, estamos a trabalhar no caminho do Partido único, do pensamento único, das práticas estandardizadas. Disso,  só foi visto, de facto, na China de Mao até meados do século XX com a chamada revolução cultural . Essa China não era e nunca mais foi um estado de direito e muito menos liberal.

Depois de vinte e dois anos no poder, nos Açores, como assim seria em qualquer outra parte do Mundo, é absolutamente normal que o Partido Socialista comece a beber dos seus próprios venenos, ou seja a apontar soluções para problemas que são da sua inteira responsabilidade ( não me digam que a culpa ainda é das velhas famílias dos Senhores feudais, do Salazar do Mota Amaral ou do Natalino Viveiros).
Também é expectável que esse mesmo partido encerre nas suas fileiras gente que se aproximou para gestão dos seus interesses pessoais, dos seus apetites,  em lugar de o fazer por ter um projeto para o bem-comum, isso é da natureza humana como dizia Hobbes o “Homem é lobo do Homem” e nisso fundamentou a sua teoria para a construção do Estado talo como o conhecemos hoje.
É preocupante que se leia dos discursos de alguns dirigentes do PS-Açores e que se ouçam das bocas de jovens quadros da Região, discursos aplaudidos de pé que indicam caminhos perigosos de pensamento único e m nome de conceitos tão vagos como são o da própria autonomia e o de “interesse dos Açorianos”. O partido Socialista dos Açores vive um momento de autismo que, fruto de medos atávicos e comodismo de todo um povo dependente do Estado/Região, poe em perigo um dos mais básicos pilares da democracia, o pluralismo de opiniões, até mesmo dentro do próprio partido onde não aparecem discursos alternativos ao poder instalado ou a líder incontestado. Líder esse que, diga-se, ainda vai sendo o único que tenta introduzir novidade e agitar as consciências.

Para os que, nesta região, lutaram contra as forças que no PSD-Açores tentaram a mesma via nos anos noventa do século passado, é entristecedor assistir a este processo sentado na bancada central.
Não é normal, nem um bom sinal para a democracia,  digo eu, que num país  ou numa região, como num partido ou num clube de futebol, a mesma fação ou seja lá o que for,  detenha o poder durante vinte e dois anos, dezoito dos quais em maioria absoluta.

17 de setembro de 2018

Açores-A destruição do que nunca existiu



O denominado discurso   e prática permanentemente assentes no “politicamente correto” tornou-nos numa espécie de ovelhas seguindo em rebanho os guias do mesmo. Sabendo inclusive, que o caminho não é o percorrendo, algumas dessas gentes não ousam grita-lo, vão seguindo esperando que outras gritem, (não berramos Sr. Presidente da Republica, os Homens não Berram).
Nos últimos dias, perante as sucessivas narrativas falaciosas sobre o estado da Região. Construções semânticas essas que vão desde : a educação onde a Região em vez de ir além do que faz o Estado teima em ficar aquém; na saúde com as prioridades às evacuações a serem atribuídas pelos apetites pessoais dos decisores políticos  em lugar de serem tidos em conta os pareceres dos médicos; das finanças que apesar “da situação estável”  deixam os fornecedores  em estado de agonia prolongada;  do investimento que não se faz apesar dos anúncios de taxas de execução extraordinárias; do sector publico empresarial regional a definhar de dia para dia sem soluções visíveis; do descalabro no ambiente apesar dos discursos da sustentabilidade serem permanentes; das quebras no turismo  mesmo quando o investimento no sector nunca foi tão grande. E por aí adiante poderia continuar a desfiar um ror de coisas que culminariam no crónico estado de pobreza  dos agricultores e dos pescadores.
Nos últimos dias, dizia eu, perante tudo isso, eis que se levantam finalmente alguns dos “senadores” do Partido Socialista, em vésperas de conclave da agremiação, para gritarem, alto e a bom som, do alto das suas cátedras que “o Reio vai nu”. Primeiro Martins Goulart, depois Dionísio de Sousa.
É verdade, a Região falhou e isso aconteceu porque: Falhou a democracia porque não soube vencer e educar este povo para ultrapassar  os atavismos que o regime de Salazar semeou, o de Mota Amaral cultivou e o de Cesar está a colher;  Falhou a coesão porque se alimentaram clientelas, umas politicas outras sociais e outras ainda recriações do próprio regime; Falhou a Região num todo identitário e falhou absolutamente  e por direta culpa de todos os que nos governaram até hoje com especial responsabilidade para os pequenos grupelhos de agitadores e uma oposição ananicada que não foram, conjuntamente, capazes de construir uma comunidade politica que agregasse estas nove ilhas mas, tão só, uma unidade orgânica.

Os Açores, carecem de ser mais do que um espaço geográfico e um organigrama.  É urgente deixar de agitar bandeiras bairristas e falsas questões de igualdade quando somos todos diferentes.

 É urgente acabar com as discriminações feitas em nome da coesão ou do “desenvolvimento harmonioso” de uma região cheia de idiossincrasias e especificidades que não são anuláveis, felizmente.
A “discriminação positiva” não é diferente de discriminação pura e simples. Discriminar positivamente é favorecimento de grupo pessoa classe, etc , e isso é sempre feito em detrimento, prejuízo de outros. Por isso não existe discriminação positiva existe sim e sempre uma discriminação, porque é essa mesma a sua essência etimológica, uma separação, uma segregação. Discriminar é criar um grupo à parte, segrega-lo, não é juntar, tornar coeso.
Numa altura em que os políticos enchem a boca com palavras como coesão social e coesão territorial, sujam as mãos com discriminações sociais, territoriais ou corporativas só porque são mais populosas ou mais poderosas.
O que vieram dizer os “Senadores” do Partido Socialista nestas vésperas de Congresso do seu clube, não foi mais nem menos do que têm dito muitos escribas e comentadores políticos nos últimos anos, que o fogo abrase aqueles que não sabem ouvir.


Ponta Delgada, 14 de Setembro de 2018

13 de setembro de 2018

Inquérito Diário dos Açores 2018.09.12



Diário dos Açores - Vasco Cordeiro vai suceder a Vasco Cordeiro no Congresso do PS do próximo fim-de-semana. A sua liderança estará reforçada para assumir, sem problemas, uma nova vitória absoluta nas eleições de 2020 ou prevê alguma alteração?

Nuno Barata - Uma das vantagens, a grande vantagem arrisco dizer, do regime democrático, é que até ao contar dos votos ninguém pode estar mais seguro ou menos seguro do resultado a alcançar. Nas últimas regionais de 2016, o PS perdeu cerca de 9000 votos em relação às regionais de 2012, esse número de votos perdidos não é despiciendo se atentarmos ao círculo de compensação e ao efeito que pode ter o resultado na distribuição de mandatos. A liderança de um partido, seja ele qual for, em regime de candidato único não está em causa e poderá sair mesmo reforçada do congresso se, de facto, a moção de estratégia que se conhece for apresentada e for discutida com mais pormenor e de forma participada. Não é isso que tem vindo a acontecer nos congressos partidários mais recentes. Não se espera que venha a acontecer mas deseja-se.
 O PS Açores não tem que ter qualquer receio de debater-se, de renovar-se, de fazer diferente e para isso precisa de falar menos para fora e mais para dentro de si mesmo. Renovar o Partaido não aceitar novos militantes ilustres que muitas vezes são apenas “Cristão Novos” em busca de uma espaço com sombra. Renovar o Partido é purga-lo das coisas perniciosas -  onde se incluem esses agentes da oportunidade -  e reedita-lo seguindo a sua matriz ideológica e o espirito de mudança que preconizou num passado ainda recente.
Por princípio sou avesso a unanimismos, ao PS-Açores falta debate interno.

Diário dos Açores - As propostas que Vasco Cordeiro apresenta na sua moção são suficientemente mobilizadoras para uma renovação ou espera que haja espírito crítico por parte de dirigentes e militantes do PS?

Nuno Barata -Como disse atrás, existe um perigo enorme do PS-Açores sofrer de um certo “autismo” que culmine num pensamento único. Isso é, infelizmente, próprio dos partidos que passam pelo poder muito tempo. Aconteceu no PSD de Mota Amaral e está a acontecer ao PS de Vasco Cordeiro e Carlos Cesar. Dentro do PS-Açores não há quem arrisque agitar as águas.
Deve dizer-se, em nome de uma justiça de avaliação, que Vasco Cordeiro tem, ele próprio, em questões muito gerais sido o único agitador de consciências mas sempre com propostas que caem numa espécie de saco roto. Nunca mais se ouviu falar das propostas que aventou no dia da Região nas Flores ou no discurso do último congresso. Porém agora aparecem propostas ao conclave socialista relativas à qualificação da autonomia, vejamos o que o PS consegue fazer sobre esse importante desiderato  nos próximos dois anos. Este Partido Socialista não tem desculpas, já governa a Região com maioria absoluta desde 2000, só não reformou o regime porque não quis ou não quer ou ainda porque entende que está tudo bem (voltamos à tese do autismo). O papel aceita quase tudo o que lá se poe, operacionalizar essas intenções é que nem sempre é fácil, possível, e aceite pelo soberano eleitorado.


Diário dos Açores - Daqui a poucas semanas haverá alterações na liderança do PSD-Açores. Quem acha que estará mais apto: Alexandre Gaudêncio ou Pedro Nascimento Cabral?

 Nuno Barata - 1X2, é como jogar no totobola, só que aqui não há lugar ao uso do X. Eu diria que ambos os candidatos têm condições de ganhar as eleições internas diretas, ambos terão condições de enfrentar o congresso, mas só um pode ser o líder que o PSD almeja há algum tempo. Ser Presidente do Partido é a parte que custará menos a Alexandre Gaudência, tem conhecimento das bases, implantação bastante em São Miguel, foi Secretário-geral e é um autarca com algumas provas dadas mas também com muitos rabos-de-palha por explicar e tem o apoio do actaul dirigente máximo do PSD-Açores.
Nascimento Cabral, tem também nas suas fileiras, gente da máquina partidária e tem a enorme vantagem de não estar ele próprio ligado ao aparelho do Estado/Região/Poder Local, é aquilo que se pode chamar um outsider que sempre esteve por dentro e soube escolher a sua hora, fez o seu caminho como todos nós que andamos atentos podemos comprovar. Começou com cuidado a mandar recados para dentro do partido, endureceu as críticas à direção de Duarte Freitas e lançou, no início deste ano, a derradeira “lança” anunciando a sua candidatura ainda antes do processo eleitoral ser despoletado. Nascimento Cabral é um estratega da política e isso dá-lhe muitas garantias de sucesso.


Diário dos Açores - O PSD, com uma nova liderança, poderá almejar umas eleições mais disputadas em 2020 ou terá ainda que aguardar por 2024, quando Vasco Cordeiro já não se poderá recandidatar?

Nuno Barata - O resultado eleitoral de 2020 vai depender muito da forma como correrem os dossiers que neste momento são incómodos para o PS Açores.
O Governo e o Partido Socialista, muito por culpa da s suas cedências às reivindicações populistas da oposição, e menos por culpa das suas fracas convicções, criou ao longo dos últimos anos um conjunto de problemas para si próprio e com os quais vive ensombrado.
O Dossier SATA será fundamental neste processo. Se a operação de “reconstrução” da SATA correr mal, as eleições certamente irão correr mal para o PS.
Nos últimos anos de oposição, passado o período de “ressaca” despois da derrota de 1996, o PSD adotou uma tática política análoga à tática militar usada pelos Russos contra a invasão pelas tropas de Bonaparte. “Politica da Terra Queimada”. Ou seja, foi apresentando o sem número de propostas, mais um menos populistas, mais ou menos inexequíveis, algumas desnecessárias e até perniciosas como engodo para o PS ir cometendo os erros estratégicos que cometeu. Quando prevalece a tática sobre a estratégia é isso que acontece. O PS deixou-se levar pelo imediatismo da tática, da resposta rápida às provocações da oposição e nem sempre esteve à altura de responder com firmeza a esses ataques.
Neste momento o PSD espera calmamente, tal como os Russos esperaram às portas de Moscovo por napoleão e às portas de São Petersburgo pelas tropas alemãs. O PSD espera e desespera por um desaire do Partido Socialista, as eleições nos Açores não se ganham, perdem-se.

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