29 de novembro de 2016

O blogue feito por outros

Dos liberalizadores de fachada
Bastava uma dúzia de decretos à Mouzinho da Silveira para refundar o Estado onde ele faz falta e extingui-lo no que ele é inútil. E somando reforço com abolição, a conta seria bem menos mesada. Por outras palavras, não chega liberalizar, impõe-se a libertação. Até dos chamados liberalizadores de fachada


José Adelino Maltez, Sobre o Tempo que passa, 2011/06/29

25 de novembro de 2016

25 de Novembro de 1975

Hoje comemoramos a liberdade, a libertação de Portugal do jugo comunista. Hoje comemoramos Melo Antunes e o grupo dos 9. A liberdade é um dos bens que o nosso imaginário colectivo apenas valoriza quando o perde.Cabe a cada um de nós, individualmente, vivê-la, para que se não perca a noção da sua importância para o bem comum.

4 de novembro de 2016

A frequência ainda vai que não vai mas só a matricula...?

Digamos que estamos perante uma licenciatura na forma tentada.

O XII Governo da Região Autónoma dos Açores


Diário dos Açores  - Qual a avaliação que faz do novo governo?

Se há 4 anos Vasco Cordeiro surpreendeu com um governo de técnicos em detrimento de políticos, agora parece demonstrar ter reconhecido a necessidade de construir um Governo mais político do que técnico. Atente-se por exemplo nas escolhas de Rui Bettencourt, o veterano deste governo, que tem um perfil que conjuga muitíssimo bem os conhecimentos técnicos com as abordagens mais políticas ou ainda no caso de João Ponte que, permanentemente estribado numa aura de independente, pode muito bem ser um secretário mais politico do que técnico fazendo-se para isso valer da sua vasta experiencia como “autarca de proximidade “ o que pode ter uma importância redobrada no contacto direto com os agricultores e silvicultores e menos com as corporações deles supostas representantes. João Ponte não será uma ponta-de-lança da lavoura no governo, será antes um ponta-de-lança do governo a jogar sempre no meio-campo da lavoura.

A escolha de Berto Messias para fazer a ponte entre o governo e o Parlamento foi apenas surpresa para os mais distraídos. Na verdade, desde o anúncio de André Bradford para liderar a bancada parlamentar do PS se vislumbrava esta solução agora apresentada. É mais uma escolha de um secretário eminentemente político, basta para tal verificar o seu currículo ou a falta dele, para concluirmos que será mais um elemento de combate parlamentar do que qualquer outra coisa.

Marta Guerreiro é a maior surpresa deste XII Governo Regional dos Açores e tem pela frente um enorme desafio, o de guindar o sector do turismo para patamares consolidados de entre os diversos sectores da economia das nossas Ilhas garantido um desenvolvimento sustentável e uma preservação do meio ambiente compatíveis com um destino de natureza e de sustentabilidade que é o que pretendemos e entendo que devemos querer ser. Finalmente o ambiente e o Turismo na mesma tutela. Só tarda o que nunca chega.

Todo o resto foi uma não surpresa, Gui Menezes no Mar Ciência e Tecnologia é só uma confirmação de uma carreira delineada por este prestigiado investigador e Rui Luís na Saúde também não causa qualquer espanto. A manutenção de Avelino Freitas Meneses , Andreia Cardoso e Vítor Fraga nas respetivas pastas também não causa qualquer tipo de alarme, sendo que no caso deste último as Obras Públicas poderiam ter sido ser uma espécie de subsecretaria.

Uma avaliação mais cuidada do XII Governo Regional apenas poderá ser feita depois de conhecidas  as mudanças ou não  nível de Diretores Regionais e Gestores de empresas e Institutos Públicos. A segunda linha, como se usa dizer, é muitíssimo importante.


Diário dos Açores  - Sérgio Ávila não perde nenhuma área que já possuía, apesar de ser criticado por estar sobrecarregado de sectores vitais, na economia e finanças. É um erro?

Ávila, na área das finanças, não pode deixar as pastas que domina, porque o descalabro seria total, só ele sabe como estão as contas públicas e os verdadeiros níveis de endividamento direto e indireto da Região. Também na área da economia e do apoio ao investimento qualquer retirada de poder seria entendida como uma “traição” ao seu eleitorado, não podemos esquecer que Ávila foi cabeça de lista pelo círculo da Ilha Terceira e nessa ilha o eleitorado é muito critico quando a mesma perde importância ou poder. Aliás esta é uma das grandes novidades desta legislatura, a Ilha Terceira vê reforçados os seus poderes quer ao nível parlamentar que passa de 10 para 12 Deputados por via da eleição de mais dois pelo circulo regional com os votos dos Micaelenses, Picoenses e Faialenses quer ao nível do governo com as pastas da saúde e dos assuntos parlamentares e a manutenção da gestão dos fundos europeus e de todo o apoio ao investimento centralizado em Sérgio Ávila.



Diário dos Açores  - É um governo para perder mais 10 mil votos daqui a 4 anos?


É um Governo com um combate difícil pela frente mas muito dificilmente será um governo para perder votos. Em primeiro lugar pelas razões já atrás aduzidas, é um governo de políticos e isso faz toda a diferença. Mas, principalmente porque o quadro de financiamento europeu tem alocado muitos milhões de euros, mais do que tinha o quadro 2007/2013. Na verdade, este XII governo corre o risco de ter dinheiro a mais, pois, passados 3 anos, a execução do quadro 2014/2020, ainda não teve inicio o que demonstra alguma incapacidade do XI Governo de fazer a economia utilizar na sua plenitude os montantes disponibilizados pela União Europeia. Pois, na realidade, de sete anos de quadro, já passaram três sem execução, e assim Região terá de investir nos próximos 4 anos ainda mais verbas do que foram executadas nos sete anos do quadro anterior. Num panorama destes dificilmente se perdem eleições a não ser que se faça tudo mal feito.

Qual direita, qual carapuça.

"Ouvir PSD e CDS lamentarem a falta de investimento público e entrarem no campeonato dos aumentos das pensões é bem a prova de que Portugal está condenado às miseráveis políticas de esquerda"

31/10/2016 i oneline

19 de outubro de 2016

Mini Entrevista Diário dos Açores


Diário dos Açores - Como analisa esta vitória do PS?

Embora abaixo das sondagens conhecidas e das projeções à boca das urnas, a vitória do Partido Socialista nestas eleições Regionais vem no seguimento do que era esperado nos meios políticos da Região. No entanto, há a salientar o facto do Partido Socialista não se ter superado relativamente a 2012. Apesar da conjuntura favorável que vem de Lisboa, O PS perdeu 9500 votos, cerca de 18% do seu eleitorado, e um mandato relativamente às eleições de  2012. Parabéns a Vasco Cordeiro que soube, ao longo dos últimos 4 difíceis anos, aguentar uma boa parte do seu eleitorado  e aproveitar a onda de crescimento do PS nacional.

Diário dos Açores - O que vai acontecer ao PSD depois desta derrota?

O PSD, perdeu nestas eleições 6 760 eleitores, um mandato e tal como o PS 18% do seu eleitorado. Apesar de ter feito uma tentativa de renovação interna
 que eu classificaria de “depuração” necessária, não foi suficientemente convincente e não foi clarificador relativamente às questões ideológicas. O PSD Açores continua sem saber onde se vai posicionar dentro do espectro ideológico da politica doméstica, se mais liberal onde pode ocupar um espaço vazio e que deixou órfãos muitos eleitores especialmente em São Miguel, se mais social-democrata onde encontra no Partido Socialista um claro vencedor e um adversário difícil de combater.
O PSD, para seu bem, não pode continuar a “queimar” lideres à razão de um em cada dois anos sob pena de se esvair em prolongadas noites de facas longas.
Por ultimo é de salientar o facto de ter ganho novo folego recuperando a liderança da Ilha do Faial onde foi um claro e inequívoco vencedor ainda mais sendo a lita do PS encabeçada pela até agora Presidente da Assembleia Legislativa Regional dos Açores..

Diário dos Açores - Nos restantes partidos, o que mais o surpreendeu?

Foi dos chamados partidos mais pequenos que veio a grande resposta, a resposta mais assertiva e  onde o Povo Açoriano manifestou a sua racionalidade e cultura democráticas. Os pequenos subiram todos sem exceção, fazendo assim pensar que há espaço para todos e que a qualquer momento podem vir surpresas eleitorais de projetos como o PAN ou o  PURP que subiram bastante as suas votações e poderão chegar, já em 2020 a uma representação parlamentar.

A CDU apesar de ter crescido e ter garantido a vitória no círculo da Ilha das Flores, não conseguiu garantir a eleição do seu coordenador e pode entrar num período de debate interno que leve à substituição de Aníbal Pires na sua liderança. O Bloco de Esquerda é um dos justos vencedores entre os vencidos uma vez que conseguiu, pela primeira vez eleger diretamente a sua coordenadora pelo circulo de São Miguel consolidando a sua posição de 3ª força política na Ilha, assim como também é vencedor o CDS que passou a segunda força politica na Ilha de São Jorge relegando o Partido Social Democrata para a 3ª posição e viu aumentado o número de Deputados eleitos apesar de ter falhado a eleição de um deputado pelo circulo eleitoral de São Miguel objetivo no qual se empenhou como nunca havia sido visto até agora.

Diário dos Açores - E a abstenção?

A abstenção, retirada a chamada abstenção técnica que deverá rodar os 20 pontos percentuais,  entre o recenseamento automático as ausências no estrangeiro e a desatualização dos cadernos eleitorais por óbito não declarado de cidadão sem o respetivo cartão, deverá ficar-se nos 40% o que se aproxima bastante dos valores que se registam nas maiores e mais consolidadas democracias mundiais como o Reino Unido ou os Estados Unidos da América.
Há , no entanto, que considerar a enorme responsabilidade dos dois maiores partidos nessa percentagem de gente que não deseja expressar o seu voto, e essa responsabilidade fica clara quando analisamos os números e constatamos que, em relação ao ato eleitoral anterior,   o número de abstencionistas aumentou precisamente na mesma dimensão dos votos que os dois maiores partidos perderam. São os eleitores descontentes com as promessas por cumprir, com a indefinição ideológica dos dois maiores partidos e desencantados por entenderem e expressarem a ideia de que o seu voto em nada muda porque seja quem for que para lá vá fica tudo na mesma. Felizmente não é assim e já existiram provas de que assim não é.

Por outro lado, os partidos mais pequenos, têm sido os grandes responsáveis pelo envolvimento de pessoas novas e de novas ideias no sistema e isso reflete-se nas suas proporcionais subidas. Por último e ainda em relação à abstenção, muitas vezes apontada como o grande mal da democracia, convém sempre lembrar os mais desatentos que abster-se, em qualquer circunstância, tem que ser encarado como um direito e nunca como uma displicência, todos temos o direito de não nos revermos em qualquer projeto e de querermos assim expressar o nosso desencanto. No entanto, o exercício do voto secreto e universal é a única “arma secreta” que possuímos para nos defendermos dos supostos abusos de quem nos possa governar com recurso a esses mesmos abusos. Por isso, votar é um garante das nossas liberdades individuais, bem esse que apenas valorizamos quando o perdemos. A bem da democracia e do debate mais plural e construtivo é salutar que a abstenção baixe e que a representatividade aumente. Para isso todos temos que fazer um esforço em vez de apontarmos sempre o dedo aos partidos como os causadores de todos os males. Mudar depende de cada um de nós, mesmo dentro dos partidos, se nos abstivermos de lutar pelo que acreditamos resta-nos aceitar o que outros decidam por nós.

Publicado no Diário dos Açores de 2016.10.18

13 de outubro de 2016

Parabéns melhor de sempre...


Robert Allen Zimmerman ou melhor dizendo, Bob Dylan foi o vencedor  anunciado do Nobel da Literatura 2016. 
Era já tempo da academia Sueca reconhecer nos poetas cantores uma outra forma de literatura, ou como dizia António Manuel Ribeiro, vocalista dos UHF  nos  anos 80 do século XX, “os poetas do século XX não escrevem livros, armam-se em cantores e soltam gritos de rebelião”.

Certamente não foi pelo “pastelão”  de seu titulo Tarântula, trazido aos escaparates em 1971 mas escrito em 1966 (tem a minha idade) ou pela sua Autobiografia de 2005 que Dylan alcança o desiderato que hoje foi publico. Mas foi, com certeza, por obras como Slow Train Coming de 1979 ou Knocked Out Loaded de 1986 ou ainda por coisas mais recentes como  Together Through Life de 2009.

10 de outubro de 2016

Rufina, Dona Rufina de Melo Tavares

Rufina é uma bela e contagiante história de tantas e tantas mulheres destas ilhas repletas de partidas e regressos, muitíssimo bem contada e adjetivada pelo Miguel Soares de Albergaria. Como o próprio diz, entre a realidade e a ficção, Rufina, chegada à ilha aos 25 anos de idade vai contando a história e caracterizando a sociedade micaelense que encontrou num espaço temporal  de meio século na transição de XIX para XX. Francisco Luís Tavares, politico, advogado, Juiz, pensador é o personagem principal deste romance que começa com uma sua carta dirigida à mãe pedindo-lhe ajuizados conselhos na questão da greve académica de 1907 e termina com a avisada resposta dessa mulher “que soube construir uma vida como a sua”.
Rufina, Srª D. Rufina de Mel(l)o Tavares, sobrevivente de uma de tantas casas de desvalidos, uma dessas grandes “latrina onde a sociedade escondia as sobras” é um hino à perseverança, uma apologia do trabalho, uma ode à libertação da mulher não pelo reclamar constante de direitos mas pelo exercício efetivo da cidadania, um tratado da libertação e da conquista pela força da razão e  com a graça de Deus.
Tantas Rufinas há e quantas ainda estão para nascer mesmo neste século XXI da cibernética e do multiculturalismo?
O presépio da tias Jacinta e Abigail, ou melhor, a montagem deste e a discrição das suas figuras, mandadas fazer e pintar a preceito e a jeito, a disposição dessas mesmas figuras estrategicamente entre patamares devidamente separados e estratificados, constitui um retrato, uma crónica costumeira de Ponta Delgada e São Miguel no final do século da laranja e transporta o leitor para a época deixando-nos embrenhar no cheiro dos laranjais, no bafo húmido e asfixiante de uma estufa de ananases acabada de receber fumo. Um livro, tem que ter esta capacidade de nos transportar, de nos fazer revisitar, este atributo único de ser uma espécie de máquina do tempo em regressos ao passado e ao futuro.
Sem recurso ao grotesco ou à violência ou sequer ao sexo gratuito, coisa que até poderia ter acontecido se atentarmos à realidade desse tempo em Terras e Vera Cruz , o Miguel Albergaria cativa-nos enquanto leitores transportando-os para a época contando-nos, “romanceadamente” e de um ponto de vista sociológico, um pouco, bastante, da história das estórias que ouvimos contadas dos nossos avós nesta cidade de Ponta Delgada e da sociedade micaelense de então. Longe de ser um grande romance histórico é um bom romance com histórias das nossas estórias. O “dinheiro velho” em contraponto ao “dinheiro novo” da Laranja e de como uma certa burguesia se aristocratizou. A forma rude e severa como a sociedade, infelizmente ainda hoje, idolatra ou despreza um ser humano pelo volume da sua carteira ou pelo cargo que ocupa num serviço publico. O nascimento e a ascensão do Doutor Francisco Luís Tavares (bisavô do autor), figura incontornável da primeira metade do século XX micaelense quer na consolidação da República da qual foi Deputado Constituinte quer na oposição ao regime musculado do Doutor Oliveira Salazar.
Há, por fim, ao longo de todo o romance uma presença permanente da família como núcleo centrifugo e uma apologia da mesma como garante não só da estabilidade emocional dos que dela necessitam como também da força e do apoio que o ser humano requer para vencer as desventuras e as adversidades da vida terrena. Deus e a Família foram o suporte desta Rufina que o Miguel Albergaria, a bom tempo, resolveu trazer aos escaparates pela mão da Companhia das Ilhas. Anthero, o Santo Anthero, revolucionário e racionalista também lá está.

Bem hajas meu amigo.

8 de outubro de 2016

Quem muito se abaixa o...

Quem muito se abaixa o …

Chegou num Avião de fabrico estadunidense (eles não confiam na sua própria tecnologia), chama-se Li Keqiang, é o primeiro-ministro da República Popular da China e esteve segunda  e terça-feiras  passadas, 26 e 27 de Setembro,  nos Açores, mais propriamente na Ilha Terceira (onde havia de ser?), depois de ter realizado um conjunto de viagens que incluíram a “amiga” Cuba, a sede da ONU na “Big Apple” e o Canadá. 
De acordo com a informação oficial saída de Pequim pela Boca do seu mais alto representante para os negócios estrangeiros, tratou-se de uma escala técnica. No entanto, como há oportunidades que não se podem perder, O Ministro da propaganda do PS disfarçado de Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal  acompanhado do Candidato do PS a deputado pelo maior circulo dos Açores disfarçado de Presidente do Governo dos Açores, lá foram, a correr, investidos de profícuos dotes de  vendedores de “bacalhau-a-pataco” rapidamente e em força para a Praça Velha (para o que havia de estar reservado tão nobre lugar) no encalce de que essa visita pudesse dar à pré campanha do PS na Ilha Terceira qualquer coisa que não seja mais uma mão cheia de coisa nenhuma.
Até aqui tudo bem, “com papas e bolos se enganam os tolos” e quem se deixa enganar por um prato de chinesices não tem senão aquilo que merece.
Essa campanha começou há muito, esta visita só veio demonstrar, para os mais atentos à geopolítica, que tudo o que tem sido feito e dito sobre as lajes não passa, de facto, de  “papas para tolos” travestidas de PREIT.
Em Abril passado, outro propagandista da república (hoje em dia os ministros falam pela voz dos assessores de imprensa), veio em jeito de dar o jeito à propaganda de cá, dizer que o Governo Português pondera dar uso civil mais consistente à Base das Lajes”. Ora agora ficou bem provado que quem manda na Base aérea nº 4 é o Pentágono e mais nada nem ninguém. O episódio que marcou o retardamento da partida do Boing 747 chinês para aterragem de seis aviões de ataque americanos é bem revelador do que pode e vai sempre acontecer nas Lajes enquanto os americanos quiserem. Pode ser o primeiro-ministro da china como pode ser o voo X da companhia de baixo custo Y.
Fizeram bem, Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa em não virem aos Açores participar do “festim no pagode”, esta não foi e nem podia ser uma visita de estado e há que manter a dignidade dos cargos sob pena de, pela banalização, se perder a dignidade das instituições. As relações internacionais são um campo fértil, por ignorância nuns casos, por má-fé noutros, para abusos de interpretação e transposição para a ordem politica interna de assuntos que são da ordem da política externa. Esta não foi uma visita de estado, foi uma escala técnica.
Esse episódio traz-nos (aos mais desatentos, para mim não é novidade), no entanto, muito boas notícias, os Açores continuam (como eu sempre disse) em termos de geopolítica e geoestratégia, no centro do “realismo intrínseco” do Pentágono, caso contrário os Americanos já tinham feito do chamado acordo bilateral um monte de papel rasgado. Sai é muito mais barato e tem mais efeito dissuasor uma operação do tipo da que aconteceu terça-feira passada do que manter um efetivo permanente na Ilha Terceira. Cabe a Portugal fazer pressão, ameaçar mesmo rasgar o tal acordo se necessário, para garantir mais efetivos e mais investimento americano na Base Aérea nº 4. Cabe a Portugal zelar pelos seus interesses e não ceder aos interesses externos com anuência subserviente.
Nem tudo são más notícias portanto.

Ponta Delgada 1 de Outubro de 2016


Nuno Barata
in Diário dos Açores edição de 08 de Outubro de 2016

10 de fevereiro de 2016

Porque hoje é Quarta-feira de cinzas.

"Quando considero na vida que se usa, acho que não vivemos como mortais, nem vivemos como imortais. Não vivemos como mortais, porque tratamos das coisas desta vida como se esta vida fora eterna. Não vivemos como imortais, porque nos esquecemos tanto da vida eterna, como se não houvera tal vida.(...)"

26 de janeiro de 2016

Presidenciais 2016

Diário dos Açores - Como analisa os  resultados das presidenciais a nível nacional e regional?
Nuno Barata - Ao nível geral diria que apenas pode gerar alguma admiração o facto da esquerda não ter conseguido levar Marcelo Rebelo de Sousa a jogar um prolongamento, a segunda volta. Num país que acabou de assistir a uma reviravolta politica com o resultado das legislativas e o desfecho da “geringonça” em que a esquerda, na senda de justificar a “golpada” não se cansa de propagandear o desalento que o eleitorado tem pela direita, a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa mesmo depois dos ataques ferozes da esquerda à sua candidatura que a tentou, inclusive, colar ao Estado Novo, revela que os Portugueses sabem bem decidir pelas melhores soluções. Se me pedissem para descrever numa única palavra a campanha e a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa eu diria: Serenidade.

Diário dos Açores  - Mais uma vez a abstenção subiu nos Açores, ao contrário do que aconteceu a nível nacional. É preocupante?

Nuno Barata - A abstenção é sempre preocupante. As liberdades e os direitos cívicos só são valorizados quando os perdemos e, de facto, a consolidação da nossa democracia é por um lado muito salutar mas por outro produz fenómenos que podem ser inimigos da participação cívica. No entanto, convém sempre relembrar, na minha opinião,  que há uma abstenção forçada que teria que ser aferida convenientemente para que pudéssemos fazer uma análise realista desta situação. Há, na verdade, um número significativo de abstencionistas forçados e de abstencionistas voluntários. Os primeiros são os que, por uma ou outra razão, estão fora dos Açores mas mantêm as suas residências na Região. É o caso dos emigrantes que têm cartão de cidadão e uma morada nos Açores, os jovens que estão a trabalhar no estrangeiro mas que mantêm as moradas nas casas do país e outros que por via da alteração do sistema de recenseamento estão aqui registados mas não residem de facto na Região.

No caso dos Açores, os candidatos e os seus apoiantes locais, estes últimos  talvez por já estarem ou ainda não estarem  focados nas regionais de Outubro próximo “desprezaram” os contactos com os eleitores. Mesmo a vinda de Sampaio da Nóvoa nos últimos dias de campanha aos Açores, com a apresentação de uma “novidade velha”, a extinção do cargo do Representante da República, foi uma pobreza de ideias e soluções.

Há, no entanto, por parte de algumas faixas da população um alheamento e um desalento, preocupantes, sobre as questões que se relacionam com o governo da polis. Como envolver esses cidadãos nas decisões coletivas é um desafio que nos deve preocupar a todos. Na verdade, não há uma estratégia para atingir esse desiderato, por mais estudos sociológicos que se façam há questões que são do foro das escolhas pessoais e que dificilmente se conseguem identificar. No entanto, compete às proposituras fazerem um esforço de atingirem, com as suas mensagens, esse potencial eleitorado desalentado ou alheado. Há que encontrar novas fórmulas para chegar às pessoas com mensagens mobilizadoras e que digam alguma coisa ao eleitorado sobre as questões que o preocupam, de facto.



Diário dos Açores - Estes resultados têm algum impacto na vida partidária regional? Tem alguma influência neste ano eleitoral das regionais?

Nuno Barata - Estes resultados podem ter uma leitura para a definição de estratégias e de posicionamento dos partidos no espectro político mas não se devem tirar elações de realidades que são diferentes. No entanto, o resultado de Marcelo Rebelo de Sousa é uma clara derrota pessoal e coletiva de Vasco Cordeiro,  Presidente do PS açores, e de todo o centro-esquerda. Todos os candidatos da esquerda tiveram resultados aquém da média nacional e Marcelo ficou 6 pontos percentuais acima da média nacional. No entanto, este resultado até pelo distanciamento cronológico, não deverá entrar nas pré-campanhas e campanhas dos partidos regionais. No entanto, essa realidade não augura facilidades para o PS-Açores nos próximos meses.
As eleições regionais de Outubro próximo, de certo as mais importantes para todos os Açorianos, disputar-se-ão num campo minado em que o partido do governo, com quase vinte anos de governação espelhando algum cansaço e falta de ideias, leva a vantagem de saber onde estão metade das minas e armadilhas. Sérgio Ávila conhece-as como ninguém.
 Muito dependerá da forma como os partidos da oposição souberem entrar no terreno com listas renovadas e com propostas concretas capazes de mobilizar o eleitorado descontente e abstencionista.


Diário dos Açores edição de 26 de Janeiro de 2016.

14 de dezembro de 2015

Das liberdades individuais e do jacobinismo serôdio.

Ou um hipótese de nação.


Tamanho título poderia ser o de uma tese de mestrado ou de um mero ensaio filosófico mas não é. É apenas o título desta minha crónica semanal no jornal que me acolheu pela primeira vez nos idos de março de 1983.  A crónica é o género literário que melhor se enquadra nestes dias depois da nona de dezembro e do resultado que a Front National de Marine  le Pen obteve na primeira volta das regionais em frança. Na verdade, não é tempo (cronos) de falar de outra coisa. Na França a extrema-direita na Grécia a extrema-esquerda e um pouco por toda a parte se vão manifestando inquietantes sinais de fim do regime, de vontade de mudar.  Por todo o lado surgem preocupantes sinais de violência, instabilidade e intolerância que culminam, invariavelmente na retirada de liberdades individuais em prol de poderes reforçados dos estados. O Estado-moderno é, na verdade, o grande inimigo da liberdade.
Quando nos debruçamos sobre as teorias filosóficas dos contratualistas, nomeadamente sobre  Rousseau, conseguimos identificar inequivocamente como é que a sua teoria da “Vontade Geral” nos pode conduzir a uma enorme perca de liberdades individuais, ficamos Escravos, cedemos direitos, apetites individuais, opções e escolhas morais  e tudo isso em nome  desse desiderato a alcançar, em nome de uma coisa a que chamamos de “bem comum” mas que não sabemos bem o que é. Essa chamada “Vontade Geral”, tantas vezes evocada pelos assaltantes de poderes por esta Europa fora, e pelas massas ululantes, é perigosamente usada como conjunto do “argumentário” para o coartar das liberdades individuais. A liberade é, como tantas outras coisas, um bem ao qual só damos valor depois de o perdermos. Mas que, perdida, dificilmente é recuperável.
Obviamente, só os seres livres, de pensamento livre e capazes de pensar a construção de uma nação, seja ela a que for, são capazes de analisar e repensar a devolução de liberdades como um meio para a construção de uma nação melhor. Os restantes, os que vivem obcecados com a regulação, a legislação e com a ação do estado são incapazes de admitir a falência desse sistema (desde logo por ignorância a seu respeito) e agitam o fantasma do liberalismo e do neoliberalismo como se de coisa perniciosa se tratasse. Na verdade, esse é o grande paradoxo do socialismo, moderado e radical, por um lado diz-se democrático, defensor do estado-social, garante e às vezes “dono” da liberdade, mas culpa o liberalismo e o neoliberalismo de todos os males da humanidade. Essa espécie de jacobinismo serôdio, tem sido, de facto, o grande entrave ao desenvolvimento de sociedades mais justas e mais equilibradas. O fosso entre ricos e pobres não se cavou mais fundo por causa das liberdades mas sim, ao invés, pela falta delas. Foi a obsessão da regulação que destruiu a possibilidade de criar riqueza a partir de muito pouco ou de quase nada. Foi a regulação que acabou com a possibilidade dos chamados “self made man”. Foi o jacobinismo bacoco e serôdio que condenou os novos empreendedores, criadores de riqueza e consequentemente de postos de trabalho tantas e tantas vezes apelidando-os de novos-ricos e patos-bravos e que os perseguiu com leis e regulamentos que acabou lançando toda essa gente no desespero e a abandonar o tecido empresarial. Foi a regulação, o “regulamentozinho”, a “regrazinha”, a “fiscalizaçãozinha”, a “invejasinha”, a pequena “corrupção”, que potenciaram a concentração de riqueza e não a defesa das liberdades de estabelecimento, a proteção da propriedade privada e o comércio livre. Enfim, o socialismo interventivo na economia condicionou, regulou, regulamentou a vida dos cidadãos com tal complexidade que tornou o tecido económico dependente do próprio sistema político, talvez fosse esse mesmo o desiderato, tornar-nos todos dependentes de um qualquer Diretor Geral ou Secretário de Estado como se de Senhores Feudais se tratassem. No entanto, não se julgue este regime eterno.
Tal como escreveu Popper, Newton enterrou o determinismo teológico do medievo substituindo-o por um determinismo naturalista que Marx e Hegel substituíram por um determinismo histórico. Hoje o determinismo teológico está reduzido ao extremismo islâmico e o determinismo histórico às fábricas da nova china. As vozes em defesa de um Homem verdadeiramente livre têm cada vez mais eco.
Mesmo nos países mais socialistas, onde até na formatação das opiniões o estado tende a intervir, não há meio nem forma de condicionar o pensamento e as opções éticas de cada um. É nas liberdades individuais, nas opções e escolhas éticas que reside a essência da nação e não no Estado. A nação é o conjunto alargado das opções livres dos cidadãos o Estado é o conjunto das cedências que cada um de nós faz dessas liberdades. Quanto mais pode o estado menos podem os cidadãos e quanto menos podem os cidadãos menos livre é a nação. O regime busca e necessita de fazer um “reset”.


Diário dos Açores, 13 de  Dezembro de 2015



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