29 de julho de 2022
27 de julho de 2022
Uma questão de equilibrio
Em quase tudo nas nossas vidas há um
ponto de equilíbrio que procuramos, ou deveríamos tentar encontrar. Equilíbrio que
permita soluções, não só consensuais, como, acima de tudo, razoáveis.
Na economia, em especial na gestão e quando
temos que fazer opções de investimento na esfera pública, essa busca do que é possível,
do que é equilibrado e do que é razoável deve ser permanente. As opções erradas
(que todos tomamos nas nossas vidas privadas e com os nossos recursos) tarde ou
cedo são pagas, mas isso acontece à nossa custa, à custa dos nossos mais
diretos familiares e ninguém tem absolutamente nada que ver ou a haver com
isso.
Porém, no domínio da gestão da coisa pública
exigem-se escrupulosas escolhas e assertivas opções; que não sejam perdulárias,
pois os erros são pagos por todos e, quase sempre, esses erros beneficiam
alguns, quase sempre, uns poucos… muito poucos!
É, por isso, importante um permanente
escrutínio e uma escrupulosa avaliação do custo versus benefício de uma medida
– o que em gestão se chama: equilíbrio. Este equilíbrio é sempre difícil, particularmente
entre a eficácia e eficiência. Semanticamente semelhantes, tais substantivos
têm, economicamente, significados bastante diferentes. Um dos exemplos que uso,
recorrentemente, para explicar tal distinção é o do avião Concorde (os mais
novos façam o favor de googlar). Essa aeronave transportava à velocidade mach2,
passageiros entre a Europa e a América e era capaz de fazer um voo de Paris
para Boston em metade do tempo de um Boeing 747 (Jumbo) que, à altura, era
considerado o avião mais avançado desde sempre construído. Ora, o objetivo de transportar
passageiros de forma rápida entre um ponto e o outro do planeta foi conseguido
com o Concorde. Era, pois, um avião eficaz. No entanto, o custo da operação e o
próprio custo da construção destas aeronaves vieram a revelar que este projeto
não tinha qualquer viabilidade económica porque não era eficiente… Aquilo que
proporcionara em eficácia não era obtido em eficiência. O projeto, que se
iniciou em 1965, foi assim abandonado em 1978 e os últimos aviões construídos
operaram até 2003.
Por cá, nestas ilhas abençoadas pela Natureza,
mas tantas vezes maltratadas pelos Homens, a relação entre eficácia e
eficiência torna-se ainda mais relevante, atendendo a que a Região é muito
parca em recursos, para não dizer mesmo pobre.
A grande maquia dos recursos que
consumimos, quer para investimento, quer para despesa corrente, provem de uma
espécie de esmolas recebidas, por um lado, da “mão amiga” de Lisboa, através da
Lei de Financiamento das Regiões Autónomas, e, por outro lado, ao abrigo do
designado estatuto de ultraperiferia.
Quando damos uma esmola na rua e a vemos
mal utilizada pelo recetor pensamos de imediato que não a merecia. Essa é a
forma com que, quer os centralistas de Lisboa, quer os burocratas de Bruxelas,
olham para uma Região como a nossa, porque passados muitos milhões de esmolas
não conseguimos sair da situação de mão estendida. Isso porque os poderes de um
passado ainda recente e os de agora se comportaram e comportam como aquele
indigente que circula na baixa de Ponta Delgada, que pede para comer, mas gasta
em bebidas ou drogas; que diz que tem fome, mas, na verdade, tem vícios.
Ora uma Região cujos governos se
perderam e perdem nas eficácias imediatistas do eleitoralismo, em lugar de
prevenir as eficiências de longo prazo; uma Região onde foi mais rápida a
preocupação de substituir uns, de um Partido, pelos outros, dos outros três
partidos, do que reformar a administração pública; uma Região onde foi mais
fácil determinar encerrar empresas públicas sem estudar as soluções futuras,
para fingir que se reforma; uma Região onde se derrama dinheiro nos problemas
em lugar de o usar a prevenir esses problemas… será sempre uma região de pedintes,
cada vez mais olhados com desconfiança por quem ainda vai dando as tais
“esmolas”.
Assim, estamos como antes, mais do
mesmo, com uma subtil diferença: os executantes são diferentes, mas que parecem
pensar muito pior.
E se o socialismo é uma impossibilidade,
o socialismo disfarçado é uma impossibilidade ainda maior.
In Jornal Diário Insular, edição de 26 de julho de 2022
19 de julho de 2022
Entre São Bento e o Raton.
Desculpem-me os mais sensíveis, mas para o peditório de
diabolizar os juízes do Tribunal Constitucional eu não dou. Por uma razão
simples e que quem me lê e ouve há anos já terá percebido. Não temos outro
texto constitucional que nos proteja dos apetites autoritárias e das derivas
fascistas, sejam elas de que tipo forem e mesmo que sanitárias, como temos
vindo assistir (Já agora, era tempo de acabar com as máscaras nos transportes
públicos).
Goste-se ou não, é no Palácio Raton que residem as nossas
garantias da separação de poderes, e é também nesse Tribunal que nos podemos
estribar para vivermos, de facto e de direito, num Estado liberal, democrático
e do direito. Os Juízes do Tribunal Constitucional são os fiscais da
constitucionalidade das leis, são por isso o nosso último reduto, a nossa
última guarda. Já bem basta a enorme quantidade de portarias e despachos que
não lhes passam pelo crivo e que atropelam, diariamente, os nossos direitos,
liberdades e garantias. Na realidade, zurzir nas decisões desses magistrados,
sem antes fazer uma análise do processo legislativo, é a parte mais fácil e a
que todos os politiqueiros e fazedores de opiniões fáceis, sem exceção, recorreram.
Na verdade, o centralismo está um pouco por todo o lado nas
instituições, é um tumor que corrói o sistema político português. Desse
centralismo, queixam-se as autonomias como se queixam outras regiões do país,
assim como reclamam, dentro das Autonomias constitucionais insulares, os de umas
ilhas em relação aos de outras ilhas. A ideia - muito europeia – da aplicação
do princípio da subsidiariedade dos poderes e dos apoios, que derrama por cima
para que chegue abaixo - como escrevi aqui a semana passada - está
absolutamente errada, por ser ineficaz e até ineficiente. Os resultados estão à
vista de qualquer um mais ou menos atento.
No caso em apreço, o da gestão partilhada do mar português, a
questão a discutir, é mesmo o centralismo plasmado no texto constitucional. De
nada serve “espernear” contra os juízes se eles apenas interpretam a lei
fundamental, mesmo que tenha levado voto de vencido o seu Presidente, o que diz
muito mais da figura em causa do que do conjunto dos seus pares, isso nunca
pode servir de argumento para responsabilizar o Tribunal Constitucional. A
nossa constituição é, de certo modo, centralista em relação a muitos aspetos
que importam às autonomias constitucionais, que assim se chamam precisamente
por serem decorrência desse texto.
O centralismo está, como se pode comprovar, no texto
constitucional a autonomia que nos deram não foi uma concessão, foi apenas um rebuçado
embrulhado em papel colorido reluzente com o qual nos contentamos mas que já
não serve - se é que alguma vez serviu -
convenientemente os interesses do Povo Açoriano. É, por isso, urgente rever a
constituição para conferir mais e melhores poderes às regiões autónomas. No
entanto, isso só se faz com o acordo do PSD e do PS, esses são, na verdade, os
dois partidos responsáveis pela existência de travões e entraves às autonomias,
esses são os verdadeiros centralistas e disso não se podem esconder nem escapar
por mais que queiram ou que lhes dê jeito eleitoralista. Viram-se contra os
juízes. Pois é levar!
O verdadeiro e mais pernicioso centralismo está nos Deputados
do PSD e do PS na Assembleia da República, os únicos que já podiam ter mudado o
rumo de Portugal, mas não o fazem. O centralismo está em São Bento não está no
Palácio Raton,
Haja saúde.
13 de julho de 2022
E vergonha Sr. Ministro?
António Costa e Silva foi apresentado à nação como uma
espécie de guru que nos ia salvar a todos, de todos os males do “lock down
covidesco”. Corria ainda o mês de junho de 2020, três meses apenas passados e
já os estados-membros da União Europeia - essa organização internacional
esdruxula - se apercebiam do preço que todos iriamos pagar pela cómoda decisão
do “fique em casa pela sua suade”, tarde ou cedo essa máxima se transformaria
no fique sem casa, sem emprego, sem trabalho. Rapidamente trataram de desenhar
um programa de assistência económica e financeira que redundou naquilo que
sempre redundam esses planos da União. Derramar dinheiro nos problemas, mas
sempre de cima para baixo e bem peneirado que é para fazer jus à tal teoria da
subsidiariedade que a Europa tanto propala, mas que não passa de um sistema de
distribuição pelos que mais têm para tentar chegar à base depois de bem
joeirado. Até mesmo a subsidiariedade nas competências tem tido esse resultado.
Mas nas questões financeiras e económicas, a joeira tem a malha tão fina que na
base os remediados estão a chegar ao ponto de serem quase indigentes. É um
facto, apesar dos triliões de euros que os Estados-membro têm distribuído em
apoios ao investimento e até à perca de rendimento, na base da pirâmide está um
conjunto alargadíssimo de cidadãos para quem esses euros não passam de uma
miragem e uma promessa vã.
O plano de Recuperação e Resiliência não é exceção a esse
processo de dependência e redutora distribuição de recursos no seio da União
Europeia.
Em debate radiofónico no Programa 2 Margens da Açores TSF,
decorria junho desse ano 2020 sobre o PRR, Eu e o Pedro Arruda, na altura
dissemos precisamente que ia acontecer isto que agora está a acontecer. O
dinheiro do PRR não chegará sequer às empresas e muito menos às famílias. Apenas
2% das verbas não foram, até agora, gastas pelo Estado. Somos governados por
medíocres porque os melhores não estão disponíveis para participar na vida
pública.
Este Plano de Recuperação e Resiliência é um logro, uma
mentira, é um plano de recuperação para uns poucos e de resiliência para a
grande maioria dos portugueses onde se incluem os açorianos.
O tal António Costa e Silva, guru dos planos extraordinários
que nos iriam fazer recuperar e que agora é ministro da economia veio dizer, entretanto,
aos açorianos que o PRR foi desenhado sem ter em conta a dimensão das nossas
empresas e a realidade das nossas Ilhas. Obrigado, António Costa e Silva por
assumir o erro. Mas isso não nos traz mais pão para a boca, bem pelo contrário,
retira algum.
Esse foi que mesmo António Costa e Silva que desenhou o PRR. Foi
o incompetente, o incapaz que nos “venderam” como se fosse uma águia da gestão
e da administração. Aliás esse facto,
mais comercial do que real, seria, de imediato, razão para a desconfiança de
todos os Portugueses. Na verdade, os poderes, têm andado a “vender-nos” Dons
Sebastião desde Alcácer Quibir e cada um é sempre pior que o outro.
Haja saúde.
In jornal Diário Insular, edição de 13 de julho de 2022
5 de julho de 2022
Uma tempestade perfeita
A escalada das taxas de juro, a subida
das matérias-primas e a quebra das cadeias logísticas internacionais são
fatores que, associados à estagnação do rendimento das famílias, constituem
aquilo que se pode chamar de uma conjuntura potenciadora de instabilidade em
uma boa parte da humanidade. Há depois ainda uma parte dela – dessa humanidade –
que não sente os reflexos destas crises e conjunturas: é o mundo mais pobre, habituado
a viver com pouco, a viver com quase nada daquilo que consideramos básico; é o mundo
que sobrevive muito abaixo dos nossos padrões de pobreza extrema. É aquela
parte do mundo que conta muito nos discursos dos altos-comissários e dos secretários-gerais
das organizações internacionais, mas que, no fim das contas e desses
palavreados fáceis e bonitos, conta com poucos recursos, os que deveriam chegar
para essa gente ter um pouco mais de alimento e esperança. As organizações
internacionais gastam-se nas suas estruturas burocráticas de tal forma que não
lhes resta para cumprir o objeto da sua existência. Certo é que neste mundo
ocidental em que vivemos, com especial atenção para a Europa que vai da
Lusitânia aos Urais, isso pouco interessa desde que se mantenham as prebendas
do status-quo. Dois fatores vieram revirar do avesso a vida pacata e ilusoriamente
próspera em que vivíamos até 2008: a crise do subprime, com um abalo estrondoso
do Bears Stearnes, um gigante do crédito
hipotecário Norte americano e o colapso do Lehman Brothers e a crise das dívidas
soberanas. O banco criado no século XIX pelos irmãos Lehaman era o 4.º maior
dos Estados Unidos da América. A regulação internacional decorrente dos acordos
de Basileia tinha imposto aos bancos centrais regras de concessão de crédito
que limitavam muito os mercados, incentivando o garantismo das hipotecas imobiliárias.
Ora se só havia no sistema financeiro dinheiro disponível para a habitação e
consumo e para as dívidas soberanas foi precisamente aí que os bancos privados
investiram. Ao invés do que ousam dizer os defensores da regulação, não foi por
falta de regulação que o setor imobiliário cresceu especulativamente, nem, por
isso, que os bancos faliram. Foi precisamente porque os bancos centrais os
encaminharam para esse beco.
Na decorrência da crise financeira e na
esteira da falta de liquidez dos mercados andavam os estados mais pobres a
gastar por conta do futuro e a crise financeira rapidamente pôs a nu as
chamadas dívidas soberanas. Desde então, aquilo a que chamamos mundo ocidental não
mais recuperou, pois da crise financeira foi preciso tratar e a escolha dos
estados foram medidas cada vez mais reguladoras e impostos, em vez de liberdade
de empreender. Nalguns casos, como o português, aumentar impostos é como
ordenhar uma vaca já seca: o que dela mais se pode esperar é um coice!
Foi mesmo isso que aconteceu. Os
mercados não aguentaram as empresas e da crise financeira rapidamente passamos à
crise económica e dai à crise social. Perderam-se milhares de postos de
trabalho de cidadãos que hoje estão a produzir riqueza em países mais liberais
como os Estados Unidos, o Canadá ou a Reino Unido. Dessa crise, de 2008, ainda
não nos safamos, inventamos alguns bodes expiatórios, é certo, mas sair dela
ainda não saímos – se bem que agora não estamos na fase financeira da crise, já
chegamos à fase económica o que é muito mais difícil de resolver. O que se
espera dos governos de hoje é rigor nos gastos e seriedade nas políticas
laborais, de modo a recuperarmos a gente que perdemos e com isso fazermos
crescer a nossa economia. Sem crescimento económico não há riqueza e sem
riqueza não há estado. E é ao estado a que todos clamam nas horas difíceis.
Haja saúde!
In Jornal Diário Insular, edição de 05 de Julho de 2022
28 de junho de 2022
Estação tontinha ou gente tontinha?
Com os feriados de
junho, a chegada da época estival e o aproximar das festividades de verão, as
Ilhas dos Açores enchem-se de gente, umas por via das ligações aéreas com o
exterior, outras até pela mobilidade interna. Certo é que se nota já muita
gente a circular em todas as Ilhas. São turistas que nos vistam por
curiosidade, filhos da terra que regressam, temporariamente em final de ano letivo,
emigrantes que vêm às festas… Há de tudo e para todos os gostos e feitios. O
turismo, seja ele qual for, é de relevante importância para o desenvolvimento socioeconómico
da Região. No entanto, como não há só coisas boas neste sector, estamos ainda a
tempo de não cometermos os mesmos erros que foram cometidos noutras regiões
turísticas portuguesas que, certamente, hoje, se arrependem do caminho
percorrido.
Não
precisamos de muita gente, precisamos dos suficientes para irmos crescendo consolidadamente,
com garantias de sustentabilidade económica, social e ambiental e com o ritmo
que a resposta de cada uma das nossas realidades geográficas o permita. Não
devemos cair na tentação de vender o nosso destino a baixo preço, pois tal
banalização do preçário trará, no futuro, graves problemas sociais e
ambientais, ao invés se valorizarmos o destino. Só cobrando bem pelos serviços
prestados poderemos mais facilmente contribuir para que ele se torne
sustentável nos seus 3 vetores essenciais.
Ao
percorrermos as nossas Ilhas, de lés a lés, e de setor em setor, desde a
preparação das eleições regionais de 2020 até hoje, ou seja, há já 2 anos, o
que mais ouvimos de empresários, autarcas e instituições particulares de solidariedade
social foi que “falta gente para trabalhar”. Falta mão-de-obra no turismo, na agricultura,
nas pescas, nos serviços do Estado, nos serviços das autarquias, nas casas de
povo, nos lares de idosos, nos hospitais… Há falta de mão-de-obra em todo o
lado. Isto apesar de os últimos dados oficiais divulgados e publicados
indicarem que, em Maio passado, a Região contava com 6033 desempregados, 3400
ocupados em programas de inserção socioprofissional e 1968 jovens em programas
de estágio. Significa isto, 11401 Açorianos putativamente disponíveis para
trabalhar! Causa, por isso, alguma estranheza a continuidade e permanente
invenção de outros programas públicos de apoio à contratação de trabalhadores
ou manutenção de desempregados sob o jugo público.
Se há falta
de gente para trabalhar então não tem que haver apoios à contratação, bem pelo
contrário. Quando o mercado tem procura e falta a oferta não cabe ao Estado/Região
pagar para contratar ou para dar estabilidade a esses contratos. Muito menos
cabe ao Estado/Região manter desempregados ocupados em programas pagos pelos
impostos de todos os que trabalham. O Estado não se deve imiscuir onde não é
necessário, sob pena de desregular o mercado. Sempre que o Estado introduz alterações
no mercado através de mecanismos de intervenção cria mais problemas, do que aqueles
que resolve. Os empresários têm que saber cativar gente para o trabalho, pagar
convenientemente e, se necessário, aumentarem os preços dos seus serviços e
produtos para pagar melhor a quem para eles produz. Só com melhores produtos e
mais valorizados se pode criar riqueza que possa pagar melhores ordenados e,
por isso, aumentar a produtividade e o mercado de emprego. Como dizem os americanos,
lá naqueles países para onde gostamos de emigrar para crescer na vida: “se
pagares amendoins, apenas consegues macacos”.
Haja
saúde!
In Jornal
Diário Insular edição de 26 de junho de 2022
21 de junho de 2022
O ar une o que o mar separa
Partilho esta reflexão, nesta altura,
também a propósito da ideia de transporte marítimo de passageiros interilhas,
nomeadamente a denominada “Linha Amarela” (que, sazonalmente, no verão, ligou
as ilhas das Flores a Santa Maria) e que alguns defendem, reclamando ter sido
esquecida pela atual maioria parlamentar.
Comecemos, então, precisamente pelo transporte
marítimo de passageiros e por uma declaração de interesses: Particularmente e
em termos empresariais, a “Linha Amarela” dava-me imenso jeito. Fui um grande
utilizador daquele serviço, de maio a outubro, e seria um enorme beneficiado do
mesmo, se acaso ainda existisse. Essa realidade, acrescenta à minha pessoa uma relativa
superioridade moral para defender o seu fim, pois, egoisticamente, deveria
estar do lado dos que defendem a manutenção do sistema. Só que, na verdade,
esse serviço sazonal revelou-se um descalabro financeiro e económico. Redundou na
exportação de muitos milhões de euros em alugueres de navios e na aquisição de
combustíveis, em pouco contribuiu para a coesão económica e social e teve um incremento
enorme na pegada ambiental. Tudo isso para uma ocupação e uma utilização que
não ultrapassou os 18%. Milhões a mais para transportar gente a menos! Acresce o facto de que, em alguns anos, o
prejuízo com aquela linha ter ascendido aos 12 milhões de euros, numa Região
onde falta dinheiro para meios complementares de diagnóstico e terapêutica,
onde os cidadãos ficam à espera mais de três meses por um exame médico, por
falta de capacidade, quer no público, quer no privado, e onde as escolas caem
aos bocados por falta de investimento e manutenção. São as prioridades que alguns,
sempre os mesmos bem acomodados do regime, acham que têm direito. Provavelmente
os mesmos que fazem os exames no privado, que recorrem à cunha para marcar
exames médicos ou os que defendem o ensino privado para apenas lá meterem os
seus filhos e netos… São os parasitas do regime, que criaram um sistema social
e económico incapaz de tirar da pobreza os que já lá se encontravam e que tem
lançado nela muitos que se remediavam.
Todo esse desperdício de recursos e esse
esforço financeiro foi feito durante anos e, ao mesmo tempo, em que o transporte
aéreo era desprezado. Esbanjaram-se milhões em barcos gregos deixando a nossa companhia
aérea – a que verdadeiramente nos une – à beira de ter que fechar por via de
experimentalismos em rotas internacionais perdulárias e aviões que,
comprovadamente, não serviam as rotas consolidadas da empresa.
O preço a pagar por esses desmandos do
acionista/governo será caríssimo e está a ser empurrado para diante também pelo
atual governo de coligação PSD/CDS/PPM, lá para finais de 2025, ou seja, para
depois das próximas eleições regionais (realizem-se elas no prazo previsto ou
antecipadamente).
A SATA é um símbolo da perseverança e
empreendedorismo de alguns açorianos micaelenses, principalmente do Dr. Augusto
Rebelo Arruda. Surgiu como forma de combater a periferia da ilha de São Miguel
face às ligações aéreas internacionais. A SATA Air Açores é a via para o nosso
desenvolvimento, é o único instrumento de coesão entre os diferentes
territórios insulares, e esse instrumento tem que ser verdadeiramente salvo, mas
de forma racional. Para isso é preciso reestruturar, de facto, a companhia e estancar
a sangria de recursos que tem sido a Azores Airlines (SATA Internacional). Contudo,
não podemos continuar nem com experimentalismos nem a acumular dívida em cima
de dívida, como tem acontecido nos últimos anos.
Boas Sanjoaninas!
In Jornal Diário Insular, edição de 21 de junho de 2022
15 de junho de 2022
Viva o Senhor Espírito Santo
É na diferença que nos afirmamos e nos
complementamos, é na sã disputa que adquirimos ganas de crescer e fazer melhor,
é na competitividade e na adversidade de quem viveu séculos a rudeza dos
elementos que, resilientemente nos transcendemos, emigramos e imigramos,
construímos pontes e futuros, uns melhores outros piores. Sim é o culto em
honra do Senhor Espírito Santo que nos une mas as sopas daqui são melhores do
que as dali, e o bodo dacolá é melhor do que o “dacoli”. O Império da festa “dá
calças” no império de São João. É como ser do Lusitânia ou do Angrense, do Rego
Botelho ou do José Albino, da banda nova ou da banda velha como nos conta
Cristóvão D’Aguiar.
A este respeito não resisto em recontar uma
história passada no Café Espírito Santo, ali na Rua D'Arquinha, em Ponta Delgada,
e que acho deliciosa.
O Mestre Manuel Carreiro e os seus filhos foram
e são, há muito, os grandes promotores das festas do Espírito Santo D’Arquinha.
O Mestre Manuel Pintor, Homem de grandes convicções independentistas e defensor
de tudo o que é Açores, por seu lado, foi o grande impulsionador do império da
Rua do Passal, ruas quase contiguas.
Certo dia, vão para lá de mais de trinta anos,
assisti a uma acesa discussão entre dois “adeptos” das festas. Depois de
aduzidos quase todos os argumentos, os válidos e os nem por isso, o adepto do
império D'Arquinha, quase derrotado pela exuberância do foguetório das festas
dos ricos da Rua do Passal e pelos calores das cargas etílicas, sai-se com uma
exclamação: "Home o Sô Esprite Santo D'Arquinha tá-se cagando pó Sô
Esprite Santo da Rua do Passal". É isso mesmo.
Estranho é o facto do estado/região republicano
e laico ter escolhido a segunda-feira do Espirito Santo para feriado regional,
mas isso ainda se tolera, o que já não é aceitável, nem que aduzam todos os argumentos
da nossa intrínseca religiosidade e da transversalidade da “festa”, é que a Região
e as suas instituições promovam uma espécie de Império, com sopas e arroz doce
e rosquilhas, com direito a Coroa e Bandeira a um canto, para comemorar a nossa
ainda deslastrada autonomia e ainda “imberbe” democracia.
"Panem et circenses", é uma
expressão latina que tenho usado recorrentemente nas minhas crónicas. Não é por
puro acaso que recorro a esta expressão. Na verdade, o que estamos a assistir
nos Açores nos últimos anos (desde as eleições regionais de 1992) é a uma
crescente falta de interesse dos eleitores pelos assuntos relevantes da
política regional e a uma cada vez maior alienação e apego ao acessório. Pão e
circo, ou seja, festa e barriguinha cheia e estamos todos de acordo.
In jornal Diário Insular, edição de 14 de junho de 2022
Agendas (des)mobilizadoras
Esses
dirigentes da UE chegaram a um acordo sobre um pacote global de 1 824,3
milhares de milhões de euros, que conjugava 1 074,3 milhares de milhões de
euros do quadro financeiro plurianual (QFP) e 750 mil milhões de euros de um
esforço extraordinário, o Next Generation EU. Era, como se usa dizer,
dinheiro a rodos.
Por cá, as
negociações seguiram com a República e, em 26 de agosto de 2020, o então
Ministro do Planeamento informou a Região, através de ofício, de que a Região
receberia 649 milhões de euros (cerca de 5% do valor do PRR para Portugal, que,
à época, corresponderia a 12.974 milhões de euros). Passado algum tempo esse
valor seria apenas de 580 milhões (4%) e os restantes 1% seriam acomodados em
verbas nacionais às quais as empresas da Região poderiam concorrer, a par das
restantes congéneres nacionais, formando-se em consórcios. O mesmo é dizer que
esse bolo que veio a ficar fixado em 117,5 milhões de euros seria nacional e
sem qualquer reserva para as empresas da Região (as Agendas
Mobilizadoras, geridas num bolo nacional pelo IAPMEI, que, por sinal, afirma
nunca ter ouvido falar de 117 milhões, mas sim de um total global de cerca de
980 milhões de euros).
Digam o que entenderem dizer, os ministros, os ex-ministros, o
IAPMEI, a estrutura de missão, o Presidente do Governo, o ex-Presidente do
Governo, conclua a Comissão de Inquérito o que concluir, uma coisa é certa: a
Região e as nossas empresas não vão ter acesso aos 117 milhões de euros que
correspondem a 1% do inicialmente previsto para os Açores no âmbito do Plano de
Recuperação e Resiliência.
O Secretário Regional com a tutela deste processo, então Joaquim
Bastos e Silva – que apenas pecou por excesso de voluntarismo – de pronto se
esforçou para que as empresas regionais se habilitassem a esses concursos
nacionais, nomeadamente nas verbas mobilizadoras para a inovação,
descarbonização da indústria e transição digital.
As empresas açorianas em geral não vão ter acesso ao grande bolo
da recuperação, mas vão ter que fazer um reforço de resiliência fora do comum.
As famílias terão o mesmo esforço pela frente e isso passa-se tudo num País
onde as escolas não têm condições, chove dentro dos tribunais e as policias
estão instaladas em esquadras provisórias com carácter definitivo.
As empresas e os empresários dos Açores devem “agradecer” o
desfecho de tal medida, em primeiro lugar, às Câmaras de Comércio de Angra do
Heroísmo e Horta, que “incendiaram” a opinião pública perante a sua própria
incapacidade de construir consórcios e tomados de serôdio “ciúme” da sua congénere
de Ponta Delgada, trataram de dar o dito por não dito. Podem também agradecer,
por fim, ao Sr. Presidente do Governo dos Açores, que numa extrema tibieza disfarçada
de coragem deitou por terra o processo e assim condenou as empresas à insignificância.
In Jornal Diário Insular, Edição do dia 31 de Maio de 2022
25 de maio de 2022
Inesgotabilidade
24 de maio de 2022
Em busca da quimera perdida
No
princípio dizia-se que os Açores eram uma terra rica e de grande prosperidade.
Do mar, da pesca e da Base das Lajes viria toda a nossa fortuna. Seríamos, num
ápice, todos ricos sem necessidade de trabalharmos. Assim nos venderam a ideia
de Autonomia político-administrativa. Seríamos ricos e governaríamos as nossas
ilhas ditando o nosso destino.
Alguns,
os mais céticos, mais racionais e pragmáticos, logo desconfiaram que coisa tão
boa não seria de acontecer nestas ilhas, de onde já haviam visto partirem os
seus mais próximos, pais, avós, tios, irmãos e primos, rumo à outra margem do
Atlântico.
Hoje,
alguns, líricos, românticos, deslumbrados com o poder, embora sem sequer o vislumbrarem,
continuam alimentando na busca de quimeras vãs as soluções para o dia de
amanhã. Da pesca, da vaca e do leite, do mar profundo e do espaço, como uma
família endividada que se perde em jogos de fortuna e azar à espera de um
milagre.
Entretanto,
a Região segue endividada, cada vez mais endividada… vai perdendo os seus principais
ativos e os seus principais centros de decisão. Enredeados por um regime que se
revela incapaz de se reformar e por um poder que anuncia ser aquilo que não é!
O regime se não se
reforma, se não se adapta ao tempo, num processo rápido e eficaz, acabará pondo
em causa a sua própria sobrevivência, pela emergência de populismos serôdios e
totalitarismos indesejáveis.
Num regime democrático
e liberal, parlamentar por essência, como é o nosso, o poder legislativo tem sempre
um papel preponderante na fiscalização da observância das elementares regras
democráticas, por forma a garantir que o poder executivo não perpetra
sobre os cidadãos pressões e formas totalitárias e autoritárias de poder.
Quando nós, cidadãos, nos demitimos de escolher os melhores entre os nossos
pares, deixamos essa decisão nas mãos de outros. Quando nós, cidadãos,
desacreditamos os diretamente eleitos damos força aos que, não tendo a mesma
legitimidade democrática, têm mais poder de mudar as nossas vidas.
Para uma reforma, que
se entende necessária da Autonomia, concorrem além das nossas vontades e apetites,
as instituições nacionais e da União Europeia. Na verdade, as questões
relativas à nossa Autonomia decidem-se, cada vez mais, em Lisboa ou em Bruxelas
e, cada vez menos, nos Açores. Na realidade, o financiamento fundamental ao
funcionamento das nossas instituições, decide-se mais no eixo entre o
Terreiro do Paço e a Rue de la Loi, do
que no eixo longitudinal Horta-Angra do Heroísmo-Ponta Delgada.
Carece, assim, a
nossa Autonomia, de uma reforma ampla, que permita aproximar os eleitores dos
eleitos para que os primeiros se sintam de veras representados pelos segundos.
Caso contrário, o presente quadro parlamentar não está a prestar um bom serviço
ao regime, bem ao invés contribui para a sua degradação. E não vale a pena
continuarmos em busca de quimeras perdidas!
In jornal Diário Insular, edição de 24 de maio de 2022
22 de maio de 2022
Poeta em Angra
Comerciei fazendas na Rua de São João,
Fui saltimbanco no adro da Sé,
Em São Pedro fui sapateiro
Fui Donatário, Capitão-general,
Fui poeta na memória.
Amei uma prostituta no Pátio da Alfândega
Embarquei numa caravela do Gama
Rumo às Índias Orientais
Cheio de esperanças e quimeras
Tive escorbuto sede e fome
Dias dificeis carecem de estadistas não de populistas
Ao ler a edição do passado sábado do Jornal que a partir de hoje me acolha às terças-feiras nas suas páginas, deparei-me com duas tomadas de posição dos Senhores Deputados da República sobre os Açores e ambas dedicadas à Ilha Terceira em particular. Desde que o Dr. José Lourenço me convidou a colaborar com o Diário Insular tenho adiado esta participação, mas eis que hoje, os Senhores Deputados que nos representam em Portugal ajudaram nesse difícil pontapé de saída. As posições dessas figuras também podiam ter servido de inspiração a um qualquer humorista ou cartoonista.
Fiquei para aqui perdido em cogitações sobre esses dois grandes
partidos que nos têm governado cá e lá e que nos têm representado lá, em Portugal,
alternando poderes entre uns e outros, entre o socialismo puro e duro do PS e o
socialismo requentado de um PSD que não se consegue assumir liberal e assim se libertar
do pensamento estatista que os seus fundadores nos Açores lhe conferiram por necessidade
estrutural.
Paulo Moniz desenterra o assunto do GNL, Vânia Ferreira - atual
Presidente de Câmara da Cidade da Praia da Vitória – havia desenterrado a
questão do HUB Logístico Internacional no lançamento da sua campanha autárquica.
Já Sérgio Ávila, nem especifica, pergunta ao atual Ministro Costa e Silva o que
devemos fazer e o que reserva Portugal para os Açores. Pois é levar isso tudo
com muita paciência que essa gente nem sabe do que fala e muito menos sabe o
que quer para esta terra quase à beira de se tornar ingovernável pelo sucessivo
adiamento de políticas estratégicas, de veras, estruturantes e capazes de fazer
crescer e consolidar o tecido económico e empresarial.
Na verdade, esses
Partidos centralistas continuam a dizer inverdades aos açorianos e em especial
aos Terceirenses para nos embalar a todos numa teia de enredos que vai levando
a Terceira ao definhamento e à perda de importância quer em termos internos
quer em termos internacionais. Continuar a alimentar a questão do GNL (Gás
Natural Liquefeito) e do HUB Internacional é adiar soluções, adiar importância
e fingir que estão com a Terceira e os Terceirenses. Meus Caros conterrâneos da
Ilha de Jesus Cristo, acreditai que quem vos diz a verdade não é bairrista nem
tem absolutamente nada contra o desenvolvimento da Ilha, bem pelo contrário, o
que defendo é um crescimento económico de todos para, dessa forma, todos sermos
mercado uns dos outros e todos termos dias melhores num futuro próximo. O que
defendem os outros que se dizem amigos e preocupados, são soluções desenquadradas,
quimeras vãs e mitos urbanos sobre a importância geoestratégica dos Açores e o
nosso desenvolvimento assente nessa mera geografia.
Os dias que se seguem não se coadunam com romantismos bacocos
ou lirismos, os dias que se seguem carecem de gente capaz de decidir de forma
pragmática e realista, os dias difíceis carecem de homens de Estado, não de
populistas sejam eles dos partidos ou
das outras corporações costumeiras, sejam eles da esquerda , da direita ou do
centro, sejam eles do Estado, da Região, das autarquias ou sejam eles até das associações empresariais ou das
empresas, dos sindicatos ou dos trabalhadores.
In Jornal DIário Insular, edição de terça-feira 17 de maio de 2022
25 de março de 2022
Sobre a estratégia para o Espaço
O Deputado da Iniciativa Liberal na Assembleia Legislativa dos Açores, Nuno Barata, sublinha as contradições em torno da Estrutura de Missão para o Espaço e explica por que precisamos de terceiros.
Diário Insular - Já questionou os custos da estrutura de missão para o espaço (açoriana) que vinha do governo anterior e mantém-se. Há algo especial que desperte a sua atenção?
Nuno Barata - Claro que há! Uma questão que, logo à partida, desperta a atenção de qualquer cidadão atento é o facto de o Sr. Ministro Manuel Heitor ter vindo à Região dizer que os Governos Regionais, o anterior e o atual, foram incompetentes no que à estratégia dos Açores para o espaço concerne. Depois, a Sr.ª Secretária Regional da tutela que veio dizer que todo o processo está atrasado por culpa do Governo anterior. No entanto, a cereja no topo do bolo é a renomeação e recondução da mesma Estrutura de Missão para o Espaço que vinha do Governo Regional anterior. É, no mínimo, inusitado e obviamente isso desperta, faz soar alarmes, em qualquer mente inquieta.
Diário Insular - Há estruturas em Santa Maria relacionadas com o espaço e os marienses tardam em ver resultados palpáveis no seu modo de vida. Depois há (haverá...) o porto espacial.... Correremos o risco de darmos o espaço (físico) essencial e entregarmos o ouro a alguém?
Nuno Barata - Em qualquer tipo de investimento externo corremos esse risco, isso parece-me óbvio, mas se caminharmos permanentemente alimentando esses medos e essas inquietudes, certamente não vamos avançar e jamais saberemos se demos o passo certo ou errado. É só nesse sentido que questiono os custos da Estrutura de Missão, para tentar avaliar se são gastos ou se, ao invés, são ganhos. Há coisas que custam muito dinheiro e que não são caras, assim como há coisas onde são gastas quantias pequenas que constituem gastos enormes. Tudo depende da sua eficiência, ou seja, da sua relação com a eficácia. Por exemplo, o avião Concorde era extremamente eficaz, transportava pessoas muito rapidamente entre dois pontos do globo.
No entanto, a sua operação era de tal forma onerosa que o tornou ineficiente. Esse é um excelente exemplo: um avião do outro mundo, mas isso tinha um custo incomportável. E há por aí tantas coisas do "outro mundo"...
Diário Insular - Teremos capacidade nos Açores para refletir sobre o uso do nosso espaço geoestratégico (para fins civis e militares) ou será que, pelo menos nisto, fazemos aquela figura do burro a olhar para um palácio?
Nuno Barata - Há que diferenciar a nossa posição geográfica daquilo que é a nossa posição geoestratégica e ainda a nossa importância geoestratégica e geopolítica. A nossa posição geográfica decorre das convenções internacionais que definem a nossa latitude e a nossa longitude e isso não mudará, a não ser que aconteça um cataclismo que nos faça desaparecer do mapa mundi. A nossa posição geoestratégica decorre da nossa posição geográfica conjugada com as geografias mais próximas, Estados Unidos da América a ocidente e Europa a oriente, no meio destes dois centros económicos e militares de preponderante importância para o equilíbrio das forças mundiais. E os Açores têm um pedaço da América e são espaço da Europa! A nossa importância geoestratégica e geopolítica depende da necessidade que um desses polos ou um terceiro polo venham a ter, quer do ponto de vista económico, quer do ponto de vista militar. A importância não é aquela que nós atribuímos, mas sim aquela que terceiros nos atribuem.
Diário Insular - Fará alguém alguma ideia, mesmo com algum tempo para consultas, de quantas estruturas aproveitam o nosso espaço geoestratégico? Quem e quanto ganham com isso? E quanto (ou como) ganhamos nós?
Nuno Barata - Não! Ninguém sabe e ninguém consegue avaliar. Mas isso não é obrigatoriamente mau, bem pelo contrário. Mau mesmo é nós continuarmos a desvalorizar todas as questões de geografia e geopolíticas e não sermos competentes para desenvolvermos atividades capazes de valorizarem a nossa geografia, tendo em conta as geografias que nos são mais próximas.
Agricultura Familiar "Eat local first".
Sustentabilidade, nos Açores é eufemismo.
12 de março de 2022
Lugar ao sol era só para alguns.
27 de dezembro de 2021
Mini Entrevista Diário Insular
Diário Insular - No espectro político açoriano, a que
deveremos estar muito atentos no ano de 2022?
Nuno Barata - Desde logo à concretização (ou não) do discurso do Governo Regional de coligação. Está mais do que na hora de se evoluir do discurso da mudança de paradigma, para a efetiva mudança de paradigma. Importa maior arrojo na privatização de serviços e na libertação dos Açorianos do peso das empresas públicas perdulárias e da máquina administrativa burocrática; sermos mais exigentes na forma como os apoios sociais são concedidos e utilizados; sermos mais eficientes e eficazes nas políticas económicas, quer no apoio à recuperação da pandemia, quer na gestão dos recursos da saúde e da educação. Há longos caminhos a percorrer, mas sem anúncios de vãs paixões, porque dessas estamos cansados. A última “paixão pela educação” conhecida redundou na taxa mais alta de abandono escolar precoce e o desígnio regional “da saúde para todos” culminou nas mais longas listas de espera de sempre (para consultas e cirurgias). Em síntese, importa estarmos atentos ao efetivo fim das políticas socialistas que durante 24 anos conduziram a Região aos piores patamares sociais e económicos do País.
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Diário Insular - Os sinais já dados pela coligação a 3 e
com outros 3 apoios parlamentares, podem sossegar alguém ou, pelo contrário,
serão indiciadores de problemas a caminho?
Nuno Barata - A Iniciativa Liberal (IL) conhece o seu lugar no espetro político regional. É na oposição, construtiva, dialogante e que sabe (hoje e no futuro) aproveitar a abertura do Governo para debater e implementar políticas liberais que conduzam a Região para um novo patamar de desburocratização, descomplicação, despartidarização e de sustentabilidade social, económica e ambiental. Tudo o que aliviar o cidadão do peso do Estado/Região e lhe devolva a Liberdade de escolha e de ação são sinais de tranquilidade; tudo que o que sejam políticas socialistas a prosseguir serão sinais de “problemas a caminho”.
Diário Insular - A Europa terá de dizer alguma coisa
sobre a SATA... Dada a dimensão do problema, poderemos estar perante a gota de
água que faz transbordar o copo (com um orçamento retificativo, por
exemplo...)?
Nuno Barata - Se esperam continuar a meter milhões de euros dos nossos impostos numa empresa em insolvência técnica, terão de procurar outro parceiro. Contra o esbanjamento de recursos que fazem muito mais falta em setores como a saúde, a educação e a qualificação profissional. O que é fundamental preservar é a SATA Air Açores. Ao contrário de alguns que só se preocupam com “umbiguismos” sectários e assomos de bairrismo serôdio, materializados em obrazinhas de paróquia, nós estamos atentos à sustentabilidade deste Povo e desta Região.
Diário Insular - Lisboa é historicamente centralista e,
de quando em vez, foge-lhe a boca para a verdade, como acaba de acontecer com o
ministro Manuel Heitor.,. O que poderemos fazer a partir dos Açores para ao
menos amainar os ventos centralistas?
Nuno Barata - O Estado Português não cumpre com os
cidadãos da Região e PS e PSD têm cedido em todas as matérias em que a
República passou por cima dos interesses da Região. A 30 de janeiro, os
Açorianos vão a votos pela 17.ª vez, para eleger 5 Deputados à Assembleia da
República. Arrisco a dizer que vamos voltar a ouvir os mesmos discursos e reivindicações
de sempre. PS e PSD já não têm cara de exigir à República absolutamente nada. Partilham
o poder desde 1975 e foram sempre cúmplices. É preciso mais Liberdade e menos amarras
político-partidárias. Esta liberdade só se encontra na IL. A Autonomia falhou, não
por falta de poderes, nem de recursos; falhou porque exerceu esses poderes e
consumiu esses recursos de forma errada, despesista e incapaz de gerar a riqueza
que nos tirasse do fosso da pobreza resiliente, que nos transformou num bando
de remediados. Custe a quem custar, os Açores são uma manta de retalhos
geográfica, presos por pinças de euros e engalfinhados em bairrismos bacocos. Urdiu-se
a Autonomia nos gabinetes, em vez de a discutir nos cafés, nos adros das
igrejas ou nos arraiais festivos. Ora, se falhámos internamente, jamais soubemos
ser suficientemente convincentes na defesa do nosso sistema, deixando o caminho
livre para que o espírito centralista pulule no espetro partidário luso. Em 45
anos de Autonomia, PS e PSD nunca foram capazes de inverter esta teoria em
Lisboa, pelo que só uma efetiva mudança de protagonistas e de forças políticas
será capaz de iniciar o processo de sensibilização dos centralistas. Deixar de
pedinchar a Lisboa e passar a exigir de Lisboa, fazendo ver a todos os partidos
que damos ao País mais do que qualquer financiamento que o País nos possa
conceder. Só gente livre dos aparelhismos e das visões carreiristas que os
mesmos de sempre têm da política pode alterar o status quo. Está nas mãos do
Povo Açoriano a 30 de janeiro!
Mini Entrevista Diário dos Açores
24 de dezembro de 2021
PS e PSD não fazem diferença na Assembleia da República
