25 de agosto de 2018

Coluna Liberal - Jornal Diário dos Açores 24 de Agosto de 2018


Talvez não seja por puro acaso que começam a reaparecer em Portugal novos partidos de inspiração liberal. A ideia transversal à sociedade portuguesa de que algo vai podre nesta democracia representativa do levanta-te e baixa-te às ordens do chefe; Da disciplina de voto; Do carreirismo político; Do nepotismo e da plutocracia. A ideia corrente e generalizada de que são todos iguais apesar de alguns serem mais iguais do que outros (o caso Robles foi só mais um). O descrédito gerado nas instituições partidárias e a sua manifesta incapacidade de se reinventarem por estarem perdidos nas suas convulsões internas e por se terem tornado numa espécie de estribo para interesses pessoais. São motivos mais do que suficientes para buscarmos soluções fora do tradicional espectro político-partidário.
Depois das aparições dos partidos sectoriais, dos reformados, dos animais (quem sabe ainda vai aparecer dos LGBT), partidos com agenda mas sem ideologia, embora se lhes reconheçam tiques totalitários e de esquerda. E, depois da recriação da UDP e do PSR por fusão no Bloco de Esquerda, eis que Portugal assiste ao emergir da Iniciativa Liberal.
Primeiro foi um movimento, depois um partido, uma espécie de “startup política” de matriz essencialmente liberal, sem pejo e sem complexos que se diz estar, ideologicamente entre o PS e o PSD, à esquerda deste e à direita daquele, seja lá o que isso for. O Iniciativa Liberal aparece como uma espécie de PRD liberal, ou seja um Partido que apesar de se afirmar como novidade, encerra nos seus princípios programáticos, a que chamaram de Manifesto Portugal Mais Liberal, um conjunto de banalidades e lugares comuns capazes de serem sobescritos por qualquer dirigente do PS do PSD e até do CDS. O Iniciativa Liberal parece, assim, uma espécie de caixa de cartão  onde cabem todos e tudo. Para um novo partido, são vetustas práticas. Para uma solução inovadora são velhas táticas. Para uma perspetiva de futuro tem já demasiado passado.
Uma das questões que mais reservas me causou no manifesto e nas palavras dos promotores da Iniciativa Liberal, é o facto de acreditarem que Portugal é já um país liberal. Na verdade, nem com D. Pedro IV foi possível afirmar essa certeza e mesmo durante a primeira república, com a desordem instalada, foi possível garantir esse desiderato tendo o pais acabando se entregando a um regime de partido único, personificado num líder feito herói nacional. Caído o regime do Estado Novo, logo nos apressamos a apoiar outro tipo de totalitarismo do qual, felizmente, nos libertamos em 25 de Novembro de 1975. Não somos, na verdade, um país de liberais e isso explica muita da nossa pobreza, do nosso atavismo da nossa condição de dependentes, da nossa permanente busca de soluções exógenas quando elas são, ou deveriam ser, endógenas.
Agora aparece-nos a Aliança, movimento para-partidário liderado por Pedro Santana Lopes. Com uma declaração de princípios que, apesar de não trazer nada de novo, não esconde ao que vem. Três palavras-chave encimam esse documento: Personalismo, Liberalismo e Solidariedade. Parece-me bem, mas vamos escalpelizar o que nos é dito nesse manifesto sobre estes três “eixos fundamentais”. Pouco ou quase nada, na verdade.
O documento não vai além de considerações vagas sobre o respeito pela vida, a dignidade humana e a pessoa no centro das decisões. Sim, concordo mas é pouco. Importa saber o que pensam os “aliados” sobre temas tão na ordem do dia como a eutanásia e o aborto (recuso usar a sigla IVG).
Para lá de pequenas referências à liberdade religiosa, a defesa da iniciativa privada e a liberdade económica, o manifesto perde-se em pormenores de programa de governo deixando algumas ideias basilares do liberalismo por explorar.
De matriz democrata-cristã, na esteira da doutrina social da igreja, o fundador deste movimento não poderia deixar de falar de solidariedade e de responsabilidade da sociedade pela proteção dos mais desfavorecidos, promovendo valores absolutamente essenciais ao desenvolvimento  das comunidades como são o da solidariedade “intra e inter-geracionais” e a promoção de políticas de combate à exclusão social promovendo assim uma real e verdadeira convergência social através da implementação de politicas capazes de criar oportunidades para todos e não apenas para alguns que, sabemos, são sempre os mesmos.
Pedro Santana Lopes, sempre o mesmo inconformado, resiliente, lutador, incompreendido por uma maioria de medíocres, permanentemente na busca do bem comum, saltando permanentemente para fora da sua zona de conforto, mais uma vez, dá uma lição de humildade, convicção, tenacidade e fé.
A sorte está lançada, ou como diziam os romanos na antiguidade clássica: Alea jacta est.


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