Ao
longo da história da humanidade várias foram a tentativas dos governantes de
condicionarem o pensamento e o desenvolvimento dos indivíduos. O liberalismo
veio trazer algo de novo ao pensamento filosófico e à organização do governo da
polis no sentido de libertar o cidadão das peias do absolutismo.
Nos
últimos dias, na Cidade Praia da Vitória, o Partido Socialista dos Açores
discutiu (eufemismo) e votou (outro eufemismo) uma moção de estratégia global
que, para além de ser a única a ir a votos, foi aprovada por unanimidade (por
principio não aprecio unanimismos). Escalpelizar essa moção é uma tarefa, de
veras, complicada para alguém que ousa defender as liberdades individuais e os
seus princípios libertadores.
Apreciar
os discursos do oradores fixando-se nas expressões faciais de Carlos Cesar é um
exercício que , talvez, pouca gente fez. Analisar a denominada, perdoem-me o
estrangeirismo, “body language” do
presidente honorário do PS-Açores é um exercício lúdico muito interessante.
Este foi um congresso que ficará marcado não pelo que disse, verbalmente Carlos
Cesar, mas sim pelo que expressou inequivocamente pela permanente “cara de
jogador de poker” que ostentou. Tomara. Cada “jovem turco” que subiu à tribuna
naqueles dias veio anunciar mais uma medida, mais um truque de magia para
resolver problemas estruturais, permanentes e persistentes da sociedade
açoriana. Diz a sabedoria popular que “
quem se deita com pequenos acorda mijado” Carlos Cesar, um dos mais experientes
políticos portugueses, acordou encharcado.
Cesar
ouviu e consentiu mas, certamente não gostou, eu também não gostava.
A
páginas tantas (42 para ser preciso), da tal moção de estratégia global
aprovada por unanimidade, lê-se: “o Partido
Socialista dos Açores tem dirigido a sua ação política para a promoção de uma
sociedade cada vez mais coesa, justa, solidária e geradora de igualdade de
oportunidades.” Para logo de seguida se ler que “a educação permanece como
a mais eficaz ferramenta no combate à pobreza, no acesso ao emprego e a uma
remuneração condigna.” Sempre a
paixão pela educação usada como arma de combate à pobreza e à exclusão mas isso
só nas palavras porque nos atos a Região está para lá de muito pior do que o
resto do país e a distar muitas milhas
do que já se faz por essa Europa a
dentro da qual divergimos a olhos vistos e números declarados.
Dizem ainda os
subescritores que uma estratégia para a educação “ implica uma mudança de mentalidades, de procedimentos e de prioridades,
inclusive dentro do próprio sistema educativo regional “. Salvo seja!
O
Estado de direito democrático não pode nem deve construir mentalidades,
condicionar formas de pensar, construir narrativas diferentes da estrutura
cultural e identitária de todo um Povo. Bem sei que para este PS essa coisa de
Povo Açoriano “não dá pão”, mas devia dar.
Quando
o estado monitoriza e indica tutores educativos, como se de “guardas vermelhos”
se tratassem, para supostamente ajudarem determinados indivíduos, esse estado
está a condicionar o pensamento desse individuo e a dirigi-lo para um
pensamento coletivo, estamos a trabalhar no caminho do Partido único, do
pensamento único, das práticas estandardizadas. Disso, só foi visto, de facto, na China de Mao até
meados do século XX com a chamada revolução cultural . Essa China não era e
nunca mais foi um estado de direito e muito menos liberal.
Depois
de vinte e dois anos no poder, nos Açores, como assim seria em qualquer outra parte
do Mundo, é absolutamente normal que o Partido Socialista comece a beber dos
seus próprios venenos, ou seja a apontar soluções para problemas que são da sua
inteira responsabilidade ( não me digam que a culpa ainda é das velhas famílias
dos Senhores feudais, do Salazar do Mota Amaral ou do Natalino Viveiros).
Também
é expectável que esse mesmo partido encerre nas suas fileiras gente que se
aproximou para gestão dos seus interesses pessoais, dos seus apetites, em lugar de o fazer por ter um projeto para o
bem-comum, isso é da natureza humana como dizia Hobbes o “Homem é lobo do Homem”
e nisso fundamentou a sua teoria para a construção do Estado talo como o
conhecemos hoje.
É
preocupante que se leia dos discursos de alguns dirigentes do PS-Açores e que
se ouçam das bocas de jovens quadros da Região, discursos aplaudidos de pé que
indicam caminhos perigosos de pensamento único e m nome de conceitos tão vagos
como são o da própria autonomia e o de “interesse dos Açorianos”. O partido
Socialista dos Açores vive um momento de autismo que, fruto de medos atávicos e
comodismo de todo um povo dependente do Estado/Região, poe em perigo um dos
mais básicos pilares da democracia, o pluralismo de opiniões, até mesmo dentro
do próprio partido onde não aparecem discursos alternativos ao poder instalado
ou a líder incontestado. Líder esse que, diga-se, ainda vai sendo o único que
tenta introduzir novidade e agitar as consciências.
Para
os que, nesta região, lutaram contra as forças que no PSD-Açores tentaram a
mesma via nos anos noventa do século passado, é entristecedor assistir a este
processo sentado na bancada central.
Não
é normal, nem um bom sinal para a democracia,
digo eu, que num país ou numa
região, como num partido ou num clube de futebol, a mesma fação ou seja lá o
que for, detenha o poder durante vinte e
dois anos, dezoito dos quais em maioria absoluta.
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