22 de outubro de 2019

Face a face

FACE A FACE!.... com Nuno Barata Almeida e Sousa




1 – Descreva os dados que o identificam perante os leitores!

Sou um irrequieto cidadão, especialista em generalidades de 53 Anos, casado e pai de 3 filhos, duas meninas e um menino.

2 – Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?

Ao longo deste mais de meio século de existência tenho feito muitas coisas e algumas delas bem diferentes mas todas complementares da minha formação como individuo e cidadão. Fui Professor provisório sem habilitação própria mas suficiente de Trabalhos Oficinais, Comissário de Bordo da SATA, Bancário no BCA, administrativo e Secretário-geral da APASA-Associação de Produtores de Atum e Similares dos Açores, empresário, agricultor, pescador, armador, construtor civil, cabouqueiro, madeireiro, animador turístico e mais uma ou outra coisa que posso estar a esquecer-me. Nutro pelos especialistas uma enorme admiração, jamais seria capaz de me especializar em alguma coisa, é como viver sempre no mesmo lugar, comer sempre a mesma ementa. O mundo não avança sem imaginação, alteração de regras, guerras e convulsões. A estabilidade significa letargia e isso é uma coisa que me incomoda muito.
Licenciei-me tarde, por via também dessa inquietude, estudei Estudos Europeus e Política Internacional e apenas depois de ter feito várias tentativas noutros cursos que acabei sempre abandonando. No entanto, a área de estudo que mais me apaixona é a Filosofia dai ter frequentado um Mestrado em Filosofia Contemporânea, Ética, Valores e Sociedade cuja parte curricular terminei com muito bom aproveitamento. Mas, tenho adiado a entrega da tese dedicada a uma problemática muito atual, tão atual que não consigo parar de escrever sobre ela: Terrorismo e Guerra Justa na esteira do pensamento de Michael Walzer. Cada vez que releio a tese entendo acrescentar mais um capítulo.

3 – Como se define a nível profissional?

Sou o tipo de pessoa a quem se pode sempre exigir mais um bocadinho. Isso faz de mim aquilo a que se chama um workaholic, mas não faço sacrifícios em ir trabalhar todas as manhãs, gosto de trabalhar. Não faço nada primorosamente bem feito, mas sou capaz de, profissionalmente, fazer quase tudo e arranjo sempre tempo para fazer mais qualquer coisa. O meu pai dizia que quando precisava de ajuda pedia sempre a quem estivesse muito ocupado, quem tem tempo livre é porque não sabe fazer nada. Para se ter sucesso profissional (seja lá o que isso for) há duas vias: ou fazer coisas ou portar-se como um relógio parado que duas vezes ao dia está certo. Eu prefiro errar mas fazer, decidir e prosseguir com as decisões apesar de já me ter saído muito caro decidir erradamente. Hoje, há cada vez menos margem para errar, a intolerância é enorme, daí que muita gente opte por ir na corrente e deixar-se levar pela espuma dos dias na esperança de que o relógio esteja certo às zero e às doze horas.


4 – Quais as suas responsabilidades?

A minha principal responsabilidade é alimentar, proteger e educar a minha família. Para isso, tenho que desenvolver uma atividade profissional que exige de mim muita disponibilidade e dedicação e gosto muito do que faço neste momento. Sou o responsável por um gabinete na Portos dos Açores SA que gere toda a atividade operacional não portuária na área de jurisdição de São Miguel e Santa Maria e tenho desenvolvido algumas ações no campo do marketing num esforço de manter e promover a notoriedade do destino Açores, nomeadamente na promoção da náutica de recreio. Esse trabalho tem-me dado uma enorme satisfação e tem trazido para a Região um crescente número de turistas náuticos. Esse conjunto de iniciativas tem sido muito gratificante tendo em consideração os resultados muito satisfatórios atingidos.

5 – Como descreve a família de hoje e que espaço lhe reserva?

Eu tento, faço mesmo um esforço, para acreditar que a família continua sendo um núcleo fundamental das sociedades contemporâneas tal como foi da construção das sociedades modernas e pós-modernas. A família hoje não é a mesma família tradicional que até finais do século XX nós conhecemos. Não quero com isso dizer, nem sequer pensar, que as famílias diferentes de hoje são piores ou melhores do que aquelas em que a minha geração cresceu, bem pelo contrário, é fundamental que os indivíduos preservem as suas diferenças, e como membros de uma família que no seu seio preservem também essas idiossincrasias. Temos todos que fazer um esforço para compreender a diferença, tolerar a deficiência e promover a equidade o que é bem diferente de defender a igualdade. O que é diferente na essência jamais será igual, mesmo que a retorica dominante insista nessa narrativa. Eu tento o mais e melhor que posso congregar e reunir a minha família mas nem sempre isso é possível. Perdemos as nossas referencias pela incontornável lei da vida e como tal temos que perceber que agora somos nós essas referencias e temos que deixar alguma coisa em carga para as gerações mais novas, temos que assumir esse papel o mais preponderantemente possível e assim passar valores, passar conhecimentos, passar a própria ideia de família, sem ser um clã fechado aos amigos e a outras vivencias mas como núcleo gerador e congregador dessas outras formas de estar na sociedade.


6 – Quais os impactos mais visíveis do desaparecimento da família tradicional?

Eu acho que eles estão à vista e são conhecidos através dos mais vastos estudos sociológicos a que vamos tendo acesso de quando em vez. Alguma pobreza, as dependências em tenra idade, um certo desmazelo nas opções estéticas, o crescente número de depressões e suicídios, há toda uma panóplia de indicadores que nos remetem para uma desnorte, uma perca de rumo se assim entendermos. Nota-se um desenraizamento cultural, é gritante o alheamento dos mais jovens das questões do bem comum, da gestão da polis que é como quem diz da politica no seu estado mais puro. Apesar do acesso facilitado ao conhecimento assistimos a um certo desprezo pelo estudo das humanidades que nos trouxe à geração mais avançada tecnologicamente mas que não percebe os porquês da sua própria organização em sociedade. Hoje, falar aos jovens em Contrato-Social, é penoso pois temos que começar por uma aula de história da idade média, passar pela modernidade e chegar à idade contemporânea regressando aos clássicos. Dou por mim em reuniões de trabalho sendo aquele “chato” que acha que sabe tudo e nos dá lições de história e filosofia social e politica secantes quando estamos a falar de assuntos da empresa. Eles têm a história da humanidade na palma da mão, literalmente, mas não usam essa ferramenta se não forem alertados para a sua necessidade. Esses alertas devem nascer na família, nesse núcleo primeiro da polis. Deve ser ao jantar, ou nas pausas do trânsito matutino que devemos ir passando os “iscos” para a busca do conhecimento. As famílias hoje conversam pouco entre si e algumas estão tão desestruturadas que não conseguem apoiar os seus mais próximos. Isso faz aumentar as desigualdades sociais.

7– Qual a sua opinião sobre a forma como a sociedade está a evoluir?

Não sou sociólogo, aliás tenho por essa classe de estudiosos um sentimento ambíguo, respeito alguns e desprezo outros, gosto muito de algumas ideias e abomino outras e há sempre uma teoria para contrariar a outra e há ainda aqueles que passam a vida a contrariar-se a si próprios, são aquilo a que costumo designar os Boaventura desta vida. Eu sou um pessimista por natureza e um otimista racional que contraria esse pessimismo dia-a-dia. Ou seja, sendo pessimista não me desiludo com facilidade, nem com os homens nem com os animais, embora os primeiros façam um esforço maior do que os segundos para me desiludir, mas sou suficientemente otimista para acreditar na humanidade e conheço o suficiente da sua história para saber que existem ciclos e fases de purga e reconversão que transformam as sociedades em espaços melhores. Veja-se como hoje olhamos para os Povos do Norte da Europa como exemplos de civilidade. Esses eram povos bárbaros na Antiguidade Clássica e no Renascimento. Não podemos ser fatalistas e achar que o melhor dos tempos foi o que já passou, o nosso Povo, sábio, (perdoem-me o recurso a lugares comuns) usa dizer que “para trás mija a burra” e que “para a frente é que é caminho”, pois é isso que devemos fazer, construir um caminho novo sem olhar fixo no caminho feito mas sem perder de vista o que de melhor ficou na sua esteira.

8 – Que importância tem os amigos na sua vida?

São poucos, são muito poucos. Mas, são a melhor coisa do mundo. Quem já fez o que eu já fiz, quem vive em liberdade de pensar e expressar esse pensamento ganha muitos inimigos (quase sempre pouco inteligentes e por isso incapazes de destrinçar as situações) mas também ganha adeptos. Passei por fazes melhores e por fazes menos boas da vida e numa dessas fases muito difícil até do ponto de vista material, valeu-me a família e uma meia dúzia de amigos os quais jamais poderei esquecer e que me têm acompanhado desde os bancos do Liceu. Essa foi uma fase em que também percebi que alguns dos nossos adversários políticos não são inimigos e podem inclusive ser amigos, pela sua inteligência, pela sua ética, pela sua memória estão lá na hora em que necessitamos do seu apoio.

9– Para além da profissão que actividades gosta de desenvolver no seu dia-a-dia?

A Agricultura é uma paixão antiga, não concebo a minha vida sem semear, plantar, enxertar, podar, colher, lavrar observar as abelhas, fazer uma cresta e por ai adiante. Na decorrência desta paixão apareceu muito cedo outra, os cavalos, gosto de montar, ensinar, galopar e trotar pelos campos, gosto do ambiente marialva e tudo o que esse desporto, ciência, arte congrega. Buffon disse um dia que o cavalo foi a mais nobre conquista do Homem, concordo em absoluto. Gosto também de percorrer a pé as entranhas das nossas Ilhas, tudo gostos que herdei do meu saudoso Pai. Dos cavalos tenho estado afastado nos últimos anos por razões de ordem pessoal, mas mantenho a minha atividade agrícola o mais que posso e além disso, percorro a Ilha, ora correndo ora caminhando, por entre os seus vales, planaltos e ribeiras, recorrendo muitas vezes a cartas militares antigas para encontrar caminhos desaparecidos entre quebradas e escorrimentos ou que a conteira ocupou. Acho mesmo, queiram perdoar a imodéstia, que poucas pessoas haverá que conheçam estas duas Ilhas, São Miguel e Santa Maria, tão bem como eu conheço.

10– Que sonhos alimentou em criança?

Cumpri quase todos, (vantagens do pessimismo), exceto a Independência dos Açores.

11 – O que mais o incomoda nos outros?

A hipocrisia, o hipócrita é o pior dos indivíduos mas parece que têm muitos amigos.

12 – Que características mais admira no sexo oposto?

O sexo oposto tem em mim um efeito devastador, uso dizer que “sou fraco das canelas”. Não resisto a uma mulher com sentido de humor, inteligente por isso.

13 – Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?

Sou um leitor obsessivo e um comprador de livros compulsivo, todos os dias vou à livraria. Costumo dizer, citando um autor desconhecido, que a cultura humanística nos ensina a desprezar o dinheiro que usamos em adquiri-la. Tenho dois livros dos quais não me separo O Príncipe de Maquiavel comentado por Napoleão Bonaparte e a Arte da Guerra de Sun Tzu, um livro de estratégia, escrito no século IV antes de Cristo, mas muitíssimo atual.

14 – Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais?

Como um frequentador de tertúlias de café. Ouço algumas coisas, desprezo outras, relevo quase tudo.

15 – Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet? Quer explicar?

Sonho com esse dia. Digamos que é mais ou menos como o romântico sonho do “Um amor e uma cabana”. Nas férias consigo sempre estar uns dias com o telemóvel desligado, mas gostava de poder fazer uma espécie de “sabática”, numa cabana, na mata de preferência, ouvindo o crepitar de uma lareira e acompanhado de uma dúzia de livros que já estão escolhidos.

16 – Costuma ler jornais?

Os Regionais todos, alguns nacionais e algumas revistas estrangeiras que vão chegando em PDF por via das mais diversas redes sociais.

17 – O que pensa da politica? Gostava de ser um participante ativo?

Qualquer pessoa nas minhas circunstâncias, irrequieto cidadão, acredita que pode dar algo de si ao governo da polis, isso é participar ativamente na política. Já fui membro da Assembleia Municipal de Ponta Delgada, já fui Deputado Regional numa das legislaturas mais interessantes que a nossa autonomia conheceu, a única legislatura sem maioria absoluta. Fui dirigente partidário e mais não fui porque, democraticamente, não me escolheram, alguns estarão arrependidos, eu não me arrependo de nada do que fiz na e para a politica. Com esta idade acho que estou ainda mais preparado do que estava há 26 anos quando fui pela primeira vez a uma reunião da Assembleia Municipal de Ponta Delgada, mas não depende de mim, depende das muitas circunstâncias da vida. Uma coisa posso assegurar, não tenho paciência nem jeito para a disputa no interior dos partidos e enquanto os partidos detiverem o monopólio de propositura dificilmente serei mais ativo na política. No entanto devo referir que o que faço na rádio (Açores-TSF) todas as semanas, nos jornais sempre que posso  e nas redes sociais quase todos os dias, é política ativa, pura e dura só não é política partidária.



18 – Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?

Adoro viajar, Santo Agostinho, um grande pensador da Idade Média,  dizia que a vida é como um livro e  quem não viaja não sai da primeira página. Não tenho uma viagem de eleição, desfruto de qualquer lugar onde vou. No entanto, Roma, Londres e Lisboa são cidades de onde regresso sempre com saudade.

19 – Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?

Gosto de experimentar coisas diferentes e hoje sou quase vegetariano porque não sou apreciador de carne desde criança, gosto de cozinhar e dizem os amigos e a família que até não me dou mal com o fogão. Mas, sou de gostos simples, nada me dá mais prazer do que uma simples feijoada de feijão encarnado servido em cama de pão frito à moda da Ribeira Grande.

 20 – Que noticia gostaria de encontrar amanhã no jornal?

Para lá de todas as utopias gostava de ler que o uso de herbicidas tinha sido abolido nos Açores.

21 – Se desempenhasse um cargo governativo descreva uma das medidas que tomaria?

Poria o sistema de incentivos ao serviço dos mais fracos e pobres em vez de estar ao serviço dos mais ricos e poderosos como tem sido nos últimos 30 anos. Essa é uma das minhas desilusões com a política nos Açores nas últimas 3 décadas, aumentou o fosso entre os poucos ricos e os muitos pobres.

22 – Qual a máxima que o inspira?

“Maior do que a tristeza de não ter vencido é a vergonha de não ter tentado”.

23 – Em que Época histórica gostaria de ter vivido?

No dealbar da modernidade, gostava de ter sido um diplomata plenipotenciário no denominado Congresso de Vestefália e ter assim participado na construção do Estado Moderno. Curiosamente, Portugal não esteve representado formalmente nos encontros de Munster e Osnabruck de 1648 pois a hierarquia das potências de então não reconhecia a coroa restaurada em 1640. Éramos rebeldes. Hoje assistimos a algo parecido em relação à nação catalã.

24 – Que perspectiva tem da evolução política na Região nos últimos anos? Estão a criar-se os vícios próprios de quem está instalado há tempo demais no poder? Quer explicar?

É natural que se denunciem alguns tiques de totalitarismo, prepotência e arrogância. Assistimos a algo parecido com isto no final dos governos do PSD e estamos a assistir agora. Falta a alguns “jovens turcos” do PS-Açores memória coletiva. A grande parte dos que nos governam hoje, mesmo os que já eram grandinhos na altura, não sabe o que era ser oposição nos últimos tempos dos governos do PSD, principalmente depois da enorme vitória de 1992. Essa falta de memória leva-os a repetirem os mesmos erros dos “jovens turcos” de Mota Amaral. Há um discurso perigoso de unidade regional, a oposição, por seu lado, não tem ajudado nada a mudar esses comportamentos.

25 – É cada vez mais notória a falta de alternância ao PS na Região. Que razões encontra para explicar esta realidade? Como observador atento, como analise a situação que se vive no seio do PSD/Açores?.

Só há alternância se houver alternativa e essa está escassa. Numa Região pobre, sem recursos endógenos, há cada vez mais população dependente dos “favores” do Estado/Região, até mesmo ao nível dos órgãos de comunicação social. Essas dependências podem até nem ser voluntarias da parte dos governantes mas a subserviência, a necessidade de se sustentar leva muitas vezes a silêncios que se tornam veículos para o perpetuar do poder. Os americanos costumam usar uma frase de incentivo aos que procuram um rumo para a sua vida: “Go where the money is”, ora nos Açores o dinheiro está todo concentrado no Estado/Região/Autarquias, logo é para essa “gamela” que toda a economia se direciona, isso cria dependências enormes em relação ao poder instituído.
O PSD necessita de uma catarse e carece de um punhado de “Homens Bons” para poder sair do estado lastimável a que chegou. O CDS precisa de uma clarificação ideológica, ser definitivamente um partido conservador e deixar o espaço ocupado no seu seio pelos liberais aos partidos que entretanto se assumem como tal. A restante oposição à esquerda e à direita, onde se incluem os liberais, necessita afirmar-se, o Bloco de Esquerda é a única força politica que parece estar minimamente organizada e em sintonia com o que o eleitorado quer ouvir, é um certo populismo de esquerda, dai os seus resultados virem sempre a melhorar. Mas o Bloco defende políticas concentradoras de poder no Estado que põem em causa muitas das mais elementares liberdades individuais e até a própria democracia por isso, não é alternativa muito menos numa Região como a nossa.

25 – Como analisa o fenómeno da abstenção nos Açores? Há um desencanto e falta de confiança nos políticos e nas propostas políticas que apresentam? Os discursos políticos não são suficientemente galvanizadores do eleitorado, sobretudo do mais jovem?

Em primeiro lugar é importante referir que existe uma abstenção técnica enorme nos Açores, só apurando essa realidade podemos então nos dedicar ao estudo da verdadeira abstenção. Contudo, devo lembrar que abster-se é um direito, assim como votar é outro direito. Sou um liberal e como tal entendo que essas decisões são pessoais e devem ser respeitadas. A legitimidade democrática de quem é eleito não é beliscada por isso.

26 – Quais as preocupações que lhe causam a abstenção nos Açores?

Neste momento parece-me mais importante que os partidos, demais cidadãos e corporações se dediquem a tentar perceber por que razão 5% dos eleitores se dignou sair de casa e ir às mesas de voto para simplesmente dobrar e depositar o boletim em branco nas urnas do que propiamente se preocuparem com aqueles que, deliberadamente, não querem participar nas decisões mais importantes para a vida em sociedade.

27 – Acredita que a abstenção se resolve com a introdução de medidas de estímulo ao eleitor? E qual a sua opinião sobre uma solução deste tipo? Que outras soluções podiam ser adotadas?

Isso é um disparate que não merece sequer ser comentado.

 28 – Há uma convulsão no seio do CDS/PP, com o líder Artur Lima a ficar numa posição cada vez mais frágil. Era conhecido que Artur Lima procurou sempre soluções de liderança em São Miguel que pudesse dominar. Agora entra em conflito com dirigentes do CDS da Terceira e São Jorge. Como analisa a situação que se vive no CDS/PP. Poderá voltar a ser uma voz activa no partido sem Artur Lima na liderança?

Artur Lima foi um dos vencedores da noite eleitoral do passado dia 6 de Outubro, disso não há dúvidas, por isso me parece que quem vaticinou já a morte política do presidente do CDS-Açores está redondamente enganado. Artur Lima é um tacticista, um estratega da vida partidária, sobreviveu inclusive à direção de Assunção Cristas e Morais Soares que tudo fizeram para o substituir sem sucesso acabando por abandonarem a liderança do partido na decorrência dos resultados eleitorais da mesma noite. Todas as convulsões internas poderão trazer mais vida ao partido, mais debate e isso é salutar desde que não seja um “lavar de roupa suja”. Mas, penso que até ao congresso de dezembro próximo não se podem esperar grandes alterações até porque a sucessão no CDS de Lisboa está longe de estar resolvida, sem candidatos na linha da frente e sem uma clarificação ideológica que reposicione o CDS no xadrez partidário nacional no lugar em que se manteve até há bem pouco tempo.
As estruturas do CDS da Terceira e São Jorge estiveram com Artur Lima contra São Miguel ainda há apenas 3 anos no processo de construção das listas para as regionais de 2016, assim como esteve a estrutura nacional do partido agora demissionária. Hoje estão provando do fel que ajudaram a espalhar. Consta que é assim, infelizmente, a vida no seio dos partidos políticos, da esquerda á direita sem exceção. E é por aí que a decadência do regime se denúncia, nem sequer é pela falta de recursos financeiros, é mesmo pela podridão e pela hipocrisia dos seus atores. Foi assim em finais de XIX com a monarquia constitucional, e foi assim na primeira república, o que nos valeu, posteriormente, 40 anos de um regime musculado de Salazar.

29 – Como se justifica o facto de os Açores continuarem a ser a Região do país com maiores índices de pobreza, apesar do desemprego diminuir e da economia “estar a crescer? Esta realidade terá apenas com o facto de não haver uma distribuição de riqueza equitativa por todos? Quer explicar?

Eu atrás numa outra pergunta disse que mudaria o rumo do sistema de incentivos. Essa é a resposta à sua pergunta. Todo o sistema de incentivos ao investimento está direcionado para apoiar os que já têm a sua vidinha resolvida e bem resolvida e deixa de fora toda uma classe média baixa que vai caminhando para a pobreza ainda mais rapidamente e uma classe pobre que se afunda ainda mais em relação aos mais ricos. A Autonomia Regional foi a melhor coisa que nos aconteceu no último século, mas perdeu-se numa conta de deve e haver e destruiu toda a classe média e transformou o funcionalismo público, que havia ganho preponderância com Marcelo Caetano, numa nova classe de pobres envergonhados, endividados e incapazes de saírem dessa condição por via de uma regulação sufocante. Hoje, quem não tiver um bom IRS ou um bom registo bancário jamais conseguirá dar a volta à sua vida. O excesso de regulação e regulamentação acabou com os “self made men” e com a possibilidade de renascer de uma insolvência ou de uma situação fiscal irregular. É essa desigualdade de oportunidades que provoca mais pobreza e exclusão. Tenho muita pena que esse seja um assunto recorrente mas que nunca foi encarado estruturalmente mas tão só com medidas que não passam de paliativos. Sem criar riqueza e sem oportunidades para criar riqueza não se eliminam os pobres.

30 – Tem algo que considere interessante e/ou importante de que queira falar no âmbito desta entrevista?

Eu gostava de ainda assistir, em todas as Ilhas dos Açores mas em especial nas mais secas e expostas à erosão, à reflorestação de toda a pastagem de altitude que foi construída na febre das arroteis dos anos 60 e 70 do século XX, com espécies endémicas e não endémicas que sejam capazes de introduzir água nos solos e ver implementado um plano de pequenas barragens e açudes capazes de armazenar parte dessa água. Não temos o direito de deixar aos nossos filhos e netos uma herança tão pesada como é essa da falta de captação e retenção da água que existe em grande abundância nas nossas Ilhas mas que deixamos corra para o mar e desapareça chegando ao ponto de sentir a sua falta como ocorreu no Verão de 2018

In Jornal Correio dos Açores edição de 20 de Outubro de 2019

15 de outubro de 2019

Ventura

Não, não é da ventura do palácio encantado que Antero cantou que vos quero falar, nem do Deputado polémico eleito recentemente, mas sim do que ele representa para cada um de nós que tem dentro de si vontade de decidir mas que não resiste a um bom populismo. Um grupo de cidadãos, altamente dependentes da gamela do Estado/Região representativo das corporações costumeiras encabeçado pela troica subsidiada Câmara do Comércio/Federação Agrícola/ UGT, decidiu lançar uma petição para a reforma do sistema eleitoral. Até aí tudo bem. No entanto, defender a redução do número de Deputados é mera demagogia populista a que até essa troica não resistiu, pois implica reduzir a representatividade, a pluralidade e, principalmente, retirar a São Miguel e Terceira ainda mais peso nas decisões do parlamento. Afinal cada um de nós tem em si um populista a troica açoriana não é exceção à regra. Essa troica quer assumir-se como oposição, mas não quer sair da sua zona de conforto e ir ao encontro dos Açorianos que se sentem órfãos. Essa troica, no fundo, é a principal beneficiária do atual regime, um regime que gere a seu belo prazer uma gamela enorme chamada sistema de incentivos.

In Jornal Açoriano Oriental edição de 14 de Outubro de 2019

2 de outubro de 2019

Vergonha


Vergonha alheia é o que sinto pela incompetência e desonestidade intelectual de muitos agentes políticos. O Liceu de Ponta Delgada, a escola do meu Avô, do meu Pai, a minha escola e de muitos milhares de Açorianos, está instalado há quase um século num dos mais belos edifícios da Cidade de Ponta Delgada a tal que, nem por nada, pode ser capital seja do que for. Esse edifício algumas das mais belas salas dos Açores em risco de colapso e se perderem. A incompetência e a falta de lastro de quem nos governa trouxe-nos a este ponto quase sem retorno. Um ponto em que o custo de recuperação pode ser muitíssimo superior ao custo que teria tido a manutenção atempada e convenientemente feita. Falta lastro, saber, falta muita coisa a quem nos governa e falta, essencialmente, açorianidade, mas acima de tudo falta que essa gente tenha respeito por São Miguel e pelos micaelenses na cultura é preciso gente que pense mais além do que o Alto das Covas. Na educação, o que esperar de alguém que nasceu já na democracia e para lá do sol nascente? Falta coragem, sim, e falta pensamento nos Açores.


In Jornal Açoriano Oriental edição de 01 de Outubro de 2019

24 de setembro de 2019

Inacreditável

Sim, custa a acreditar mas consta que é verdade e nos é “vendido” como se de um grande feito se tratasse. Um membro do Governo que é acionista único de uma companhia aérea em francas dificuldades, deslocou-se à sede de uma sua concorrente para a demover de abandonar uma rota em que esta ultima concorre quase diretamente com a primeira. A estratégia será ir “passando entre os pingos da chuva” até que a Azores Airlines feche a porta? Deve ser! A SATA nasceu, poucos gostam de ouvir isto, do empreendedorismo micaelense do pós-guerra. A companhia aérea, a mais antiga de Portugal, aparece porque os micaelenses, perseverantes, lutaram muito para combater a periferia da Ilha no contexto Atlântico da altura. Isso mesmo já tinha acontecido com a construção do Porto de Ponta Delgada. Na verdade, São Miguel era uma ilha periférica no contexto arquipelágico e lutava fortemente para se libertar dos efeitos da grande depressão de 1928. Quando a companhia, na década de 80 deixa de servir os Micaelenses para servir todos os Açorianos e os interesses “eleiçoeiros” do seu acionista único entra no descalabro e com o avançar do tempo nada melhorou. Falta coragem.

In Jornal Açoriano Oriental, edição de 24 de Setembro de 2019

17 de setembro de 2019

300 euros



As Autonomias constitucionais foram, para as respectivas regiões autónomas, a maior conquista do 25 de Abril. O regime de autogoverno de uma nação é, ou deve ser, o seu desígnio primeiro. As autonomias, porém, não desresponsabilizam o Estado nem o libertam das suas funções fundacionais. Na república, nas regiões mais ricas do país como Lisboa e Vale do Tejo, os manuais escolares são gratuitos para todos os níveis de ensino obrigatório. Nos Açores, a região mais pobre de Portugal, as famílias gastam por cada filho no ensino obrigatório cerca de 300 euros só em manuais escolares e mais uns quantos trocados no restante material que os senhores professores gostam de exigir sem perceberem que há famílias que têm que fazer muitas contas todos os meses. São essas famílias, as que não têm escalão, não têm abono de família e não têm bolsas porque estão nos limites desses mesmos escalões mas que pagam IRS e demais impostos, que suportam parte das passagens de avião para outros irem às compras a lisboa e visitarem os filhos na universidade e outros “forrós.” Não me preocupa o subsídio “social” de mobilidade, preocupa-me quem tem que pagar para os filhos estudarem.


in jornal Açoriano Oriental edição de 17 de Setembro de 2019.

11 de setembro de 2019

Dupond e Dupont



Tal como os personagens saídos dos livros de banda desenhada de Hergé  os presidentes das federações Agrícola e das Pescas dos Açores foram a Santana dizer a Vasco Cordeiro que querem mais dinheiro em 2020. Não são gémeos, mas parecem, tal e qual os tais personagens das Aventuras de Tintim. Nestas alturas apelam a mais verbas, mais coisas, mais afazeres mas na hora certa lá estão eles a seguir os seus próprios rastos, a suas lapalissadas costumeiras as suas “boutades” de apoio ao partido da situação. Fingir vale sempre a pena, dessa forma dão a ideia aos seus associados que lutam por eles, que esfregam as mãos nas tetas das vacas como eles ou que empatam anzois e lançam aparelho. Os aparelhos dessa gente são outros, são os aparelhos da vida fácil do “comer na isca e cagar no anzol”. A teta dessa gente é outra, é uma teta muito mais fácil do que aquela à qual andam agarrados, dia após dia, os seus associados. Cada vez mais pobres, agricultores e pescadores, não se podem queixar dos governos que têm tido, pois na verdade têm sido essas classes produtoras o sustento desses mesmos governos.


In jornal Açoriano Oriental edição de 10 de Setembro de 2019

4 de setembro de 2019

Silly rentrée

Há dias escrevinhava eu que o regresso à vida politica depois das férias seria um prolongamento da estação "tontinha". Longe estava de vir a assistir a “tonteria” tão grande como a suscitação, por parte do Grupo Parlamentar do Partido Socialista de um debate de urgência sobre o "Impacto na Região das políticas prosseguidas pelo Governo da República nos últimos anos". Com o beneplácito do pior presidente que a república já conheceu, este último governo de Portugal, foi o que mais violou a constituição e mais abusos perpetrou sobre as mais elementares liberdades dos cidadãos. Talvez seja isso que PS, BE e PCP pretendem avaliar no decurso da próxima sessão legislativa sobre um governo saído de uma maioria parlamentar espúria, que foi capaz de unir o partido socialista à esquerda radical trotskista e marxista-leninista, amiga da revolução da fome bolivariana, associada da farsa mundial que foi o comunismo soviético e amiga de causas que defende mas não pratica. Há tanto debate de urgência para fazer, este não é certamente o que precisa ser feito a não ser por mero exercício de eleitoralismo gratuito e esperteza saloia. Confirma-se, esta rentrée será continuação da silly season.

In jornal Açoriano Oriental edição de 03 de Setembro de 2019

29 de agosto de 2019

Rentrée politica 2019



Diário dos Açores - A rentrée política vai ser dominada pela campanha eleitoral para as legislativas. O que espera em termos de propostas pelos candidatos dos Açores?

Nuno Barata - Eu diria que as campanhas eleitorais, oficiosamente, cada vez começam mais cedo. A busca pela notoriedade permanente por parte dos candidatos assim o obriga. Nessas alturas as máquinas partidárias desdobram-se a arrebanhar profissionais da politica alocados nas máquinas governamental e do poder local para se disponibilizarem a acompanhar os candidatos a tudo quanto é sitio e a pretexto de seja o que for. Não raras vezes vemos os cabeças de lista acompanhados de agentes partidários que nem candidatos são, quando os próprios de terceira e quarta linha (quase sempre os que de facto sabem fazer qualquer coisa mais útil) estão, de facto, trabalhando. Uns mais do que outros vão lançando ideias e deixando no ar elogios ou criticas consoante a côr partidária e o local da visita. As principais corporações são sempre bafejadas nestas alturas, coisas que ainda ficaram do “tempo da outra senhora”.
São muitas e muito importantes as questões que estão pendentes entre Lisboa e as Regiões Autónomas nomeadamente com os Açores e  que ficaram numa espécie de banho-maria nos últimos quatro anos. Podemos enumerar algumas relacionadas com a segurança interna, com os tribunais, com a fiscalização da ZEE, com o património do Estado na Região e até mesmo a questão da descontaminação dos solos na Ilha Terceira que deveria ser motivo de empenho da esquerda tradicional e da chamada esquerda caviar que tanto enche a boca com as questões ambientais e que deixou esse assunto sem avanços na última legislatura, preferindo essa mesma esquerda governante deixar andar para ver se o tempo resolve. No entanto, há uma questão de relevantíssima importância que falta aclarar e que não pode continuar a ser “empurrada com a barriga”, trata-se desse conceito vago a que chamaram “gestão partilhada do mar”. É preciso saber isso o que é. Quais os limites da ação do Estado? O que compete às Regiões? Quem decide e, sobre tudo, sobre o que se decide? Neste particular assunto ainda não ouvi uma proposta. Mas nem sequer é ouvir que os Açorianos precisam, os Senhores Deputados da Nação eleitos pelas Regiões, nomeadamente os dos Açores têm obrigação de apresentar legislação nesta matéria, de resto estamos a falar de minudências.
Sim, a rentrée politica vais ser dominada pela campanha eleitoral, com o rol de promessas costumeiro e sem que o eleitorado se envolva nas questões que realmente importa discutir, aos políticos profissionais, tenham eles propensão genética ou não, também não convém agitar as águas, ou seja, vamos ter um prolongamento da  silly season.

Diário dos Açores - Se, como se prevê, o PSD nacional obtiver um dos piores resultados de sempre, Rui Rio demitir-se-á ou será demitido?
Nuno Barata - Rio não passará a prova de fogo que será o ato eleitoral de outubro próximo. Os estudos de opinião assim o indicam e a sensibilidade de quem analisa a política nacional confirma-o. O ex-autarca do Porto que parecia um político determinado e consequente, um “homem às direitas”, que chegou a criar alguma ilusão de esperança numa certa direita que se sentia órfã, acabou por se revelar um socialista travestido. Na verdade, com Passos Coelho (direita liberal) e Paulo Portas (direita mais conservadora) na cena política nacional o espaço de Rui Rio foi-se esbatendo. No entanto as suas ambições de liderar o PSD não seguiram essa tendência e mal se denunciaram os primeiros indicadores de que Passos poderia não conseguir a famigerada segunda maioria (que acabou tendo apesar de não ter sido suficiente para manter o governo) Rio partiu ao ataque interno fazendo uso da sua boa relação com a comunicação social e desferindo rudes golpes públicos sobre o governo liderado pelo PSD e pelo CDS, culpando a politica gizada pelo governo de então da situação aflitiva de sufoco financeiro em que os portugueses se encontravam quando, verdadeiramente, essa responsabilidade deve ser alocada a quem deixou o país na bancarrota pela terceira vez (nunca é demais lembrar), ao Partido Socialista. O eleitorado de direita não perdoa a Rio essa traição, apesar do PSD ter confiado a ele os seus destinos, mas essas são contas de outro rosário que já aqui desfiamos. Os partidos e as corporações em geral são instituições pouco democráticas onde quem domina as máquinas ganha eleições com mais facilidade.
Desde que se conseguiu eleger “líder” da oposição, o discurso à esquerda manteve-se e até se reforçou e foi associado a uma espécie de “namoro” ao Partido Socialista para uma eventual solução governativa em segundas núpcias de um malfadado Bloco Central.
As eleições legislativas para a constituição da Assembleia da República são o grande embate e o grande objetivo de todos os Partidos políticos com força de razão para os chamados partidos do arco da governabilidade de onde o PSD faz parte inequivocamente. Dai, num quadro espectável de grande humilhação eleitoral, Rui Rio não tem alternativa senão deixar a liderança dos sociais-democratas portugueses. Não saindo, Rui será “empurrado” porta fora da São Caetano à Lapa.



Diário dos Açores - Consequências para os Açores? Até às regionais alguma coisa mudará?

Nuno Barata – Com o PSD nacional com uma liderança a prazo e com Alexandre Gaudência irremediavelmente fragilizado pelas decorrências da “Operação Nortada”, seja qual for o desfecho desta, não se esperam grandes alterações ao xadrez político regional. As eleições legislativas do próximo outubro servirão apenas de termómetro para confirmar o estado da infeção que enferma o PSD nacional e regional. Com o CDS envolto em polémicas internas, e com um congresso agendado para o final do ano e que se espera tudo menos que seja pacifico, sem sabermos ainda o quanto vale a nível regional o Aliança que apresenta um excelente candidato nas legislativas nacionais mas que nas europeias ficou muito aquém das expectativas dos seus dirigentes, com o PCP com os seu eleitorado estabilizado e localizado, apenas se podem esperar surpresas do Bloco de Esquerda que pode crescer em São Miguel e Terceira, ou residualmente do PAN, pelo seu objeto ou do Iniciativa Liberal pela ideologia cada vez mais uma tendência europeia. De resto, pouco se pode esperar numa região onde os níveis de participação cívica têm vindo a baixar significativamente e onde a pobreza continua a gerar inúmeras dependências até de consciência há mesmo agentes políticos que fazem questão de lembrar isso aos eleitores.

13 de agosto de 2019

O fim do direito à greve.

O Governo da "Geringonça" decretou a requisição civil em defesa do patronato contra os trabalhadores que estavam a cumprir os serviços mínimos que já de si, em alguns casos, garantiam 100%  reduzindo na mesma percentagem o direito à greve. Para tal o governo de esquerda radical apoiado por um Presidente da República fantoche,  recorreu a  uma lei "gonçalvista". Podia dizer que Portugal bateu no fundo, mas não isto não é o fundo, é para lá de muito pior do que o fundo, é um buraco negro na nossa história democrática e se dúvidas houvessem fica a confirmação de que a nossa democracia tem falta de lastro e o Povo também.
Para memória futura e por muito menos do que isso Passos Coelho foi apelidado de extrema direita.

24 de julho de 2019

Silly season



Um professor de economia de uma universidade brasileira que segundo consta, “conhece os Açores há mais de uma década” apesar de nunca ter passado numa das suas ilhas mais do que 10 dias consecutivos, foi, na semana passada, motivo de debate sobre duas ou três “boutades” que entendeu proferir sobre economia supostamente regional. Haja pachorra para os aproveitamentos descontextualizados que alguns, “ativistas” do mais vil bairrismo, fazem das palavras que esses tipos que uso epitetar de “profetas de agosto” proferem do alto das suas saloias e oportunistas sapiências. No fundo são uns tristes que se escondem na capa da academia para fazerem de disparates verdades absolutas em serviço das suas clientelas. Há sempre quem esteja disposto a pagar. Não sou economista, essa espécie de técnico que erra a cada decisão, mas li os suficientes manuais de macroeconomia para saber que, cada euro gasto em qualquer parte do Mundo gera rendimento noutra qualquer parte desse mesmo mundo e , por isso, cada euro gasto no Corvo ou em Santa Maria gera rendimento em Lisboa, Madrid, Tóquio, Pequim, Jacarta e por aí fora.

In Jornal Açoriano Oriental, edição de 23 de julho de 2019.

10 de julho de 2019

É aproveitar




Os mercados internacionais abriram-se à dívida pública regional com juros muito baixos. A FITCH deixou de ser um demónio para ser uma entidade a citar porque classificou a Região em BBB- para efeitos de aquisição de dinheiro nos mercados internacionais. Há meia dúzia de anos os demoníacos mercados e as agências de notação financeira eram uma espécie de monstros a abater porque tinham a divida portuguesa abaixo de lixo, agora são entidades fantásticas que servem para credibilizar também a gestão da coisa pública nesta Região pobre, sem recursos endógenos e onde os parcos ativos são desbaratados dia-a-dia. O novo “rating” vai permitir a renegociação de alguns contratos de crédito e assim aliviar a região em termos de esforço com juros e amortizações. É hora, portanto, do Governo Regional aproveitar a conjuntura favorável para reestruturar a totalidade da dívida regional ganhando folego para as eleições de 2020. Pode começar por pagar a quem deve para fazer a economia girar como por exemplo saldar a dívida à SATA pois esse é dos problemas com que se depara, todos os dias, a companhia aérea regional.

In jornal Açoriano Oriental edição de 09 de Julho de 2019

8 de julho de 2019

m'espanto às vezes, outras m'avergonho



O parlamento da minha “região autónoma” (mero eufemismo e minúsculas propositadas), que é acionista única de uma companhia aérea com 78 anos de história (a mais antiga companhia aérea Portuguesa) aprovou no passado dia 5 de julho por unanimidade, um projeto de resolução do CDS-PP (ainda dói mais) solicitando ao Governo Regional que "promova as diligências necessárias" para se "operacionalizar" o regresso da TAP ao Faial e Pico para responder às necessidades dos locais.
Eu não sei se deva chorar se rir, mas apetece-me citar pela “énesima” vez esse grande historiador da economia portuguesa de dava pelo nome de José Lúcio de Azevedo no seu incontornável livro Épocas de Portugal Económico: “Para cada povo existe, como para os indivíduos, uma conta de Deve e Haver, que nos dá o quilate das suas prosperidades, e por onde, cedo, até para os maiores impérios, os pródromos da decadência se denunciam.”

5 de julho de 2019

Situação Politica nos Açores




Diário dos Açores - Como analisa a proposta de Vasco Cordeiro no sentido de beneficiar os eleitores que tenham um bom histórico de participação eleitoral? É uma boa proposta para combater a abstenção?

Nuno Barata - Há uma razão para elogiar Vasco Cordeiro neste processo de construção da nossa “comunidade política”, a tenacidade de lançar ideias e propostas para a melhoria da nossa, por vezes, deslastrada autonomia. Tem sido assim, entra ano sai ano, em dia de “mordomia” institucional. Tenho abordado, variadíssimas vezes, a questão das excessivas dependências dos Açorianos em relação ao poder regional e local. Essas dependências criam uma espécie de caciquismo e esse caciquismo cria clientelas e essas clientelas redundam numa perca de qualidade da democracia, do pluralismo e redundam no desinteresse dos cidadãos pela participação nas decisões e nos próprios órgãos de poder seja ele local, regional ou nacional. Cada vez é mais difícil trazer para a vida pública pessoas válidas e com idoneidade. Dar benefícios a quem vai cumprir um direito cívico é criar a ilusão de que devem votar em quem lhes paga para votar ou seja no partido da situação, seja ele qual for. A construção dessas clientelas pode servir o partido no poder a curto e médio prazo, mas não serve sempre pois quando muda o poder as clientelas seguem-no dai que não seja sensato, sequer do ponto de vista estritamente partidário, apostar em soluções desta natureza clientelar.
Esta proposta, saída das cabeças das “eminencias pardas” dos gabinetes de Santana (não é só Alexandre Gaudêncio quem tem que se cuidar com a sua “entourage”) suscitou nos jornais de Portugal um “escarnento” debate e por isso não é motivo de regozijo ou orgulho nas instituições regionais. É, pelo contrário, motivo de vergonha. No meu caso é vergonha alheia.
 A Vasco Cordeiro, como escrevi no início, não se pode retirar mérito nas vastas tentativas que tem feito de alterar alguns processos. No entanto, a qualidade das ideias não é diretamente proporcional à sua quantidade. Este é um bom exemplo do que escrevo. Vale pelo esforço mas não vale nada pelo conteúdo.

Diário dos Açores - O Presidente do Governo propôs, igualmente, um Conselho de Concertação entre os Governos das Regiões Autónomas e o da República. É o melhor caminho para ajudar a resolver os casos pendentes entre os governos?

Nuno Barata - Os sucessivos governos do Partido Socialista nos Açores, sempre que na República governou o mesmo PS tal como acontece neste preciso momento, apregoaram e apregoam que as relações são excelentes e que o atual governo de António Costa é o melhor amigo dos Açores e dos Açorianos. Assim foi também nos Governos de José Sócrates e do Engª, Guterres o tal que nos estabeleceu uma “mesada” (Lei de financiamento das Regiões Autónomas) que muitos ainda hoje entendem como um progresso da nossa autonomia mas que mais não foi do que um assumir de incompetência de nos auto governarmos e de auto gerarmos fluxos financeiros suficientes para a nossa afirmação como região autónoma politica e administrativamente. Temos, efetivamente, a autonomia que nos é consentida por via da asfixia financeira e da falta de capacidade de ultrapassar os constrangimentos inerentes a essa falta de capacidade de gerar recursos. Por isso, é no mínimo estranho, que depois de anunciadas tantas boas relações, seja agora encontrada a necessidade de criar uma nova unidade orgânica em jeito de estrutura de missão para resolver o que está pendente nas relações entre as partes. Será que esperam mudanças em Lisboa?
Na verdade, existe um imenso rol de assuntos por resolver entre a Região e o Estado e que se adensam e se complicam ao longo dos anos e que não melhorou bem pelo contrário. Sem querer entrar em questões muito complexas como a da gestão partilhada do mar ou das decisões tomadas no âmbito do chamado Air Center, assuntos estes que podem ser mais difíceis de explorar e explanar nas parcas linhas que este jornal me disponibiliza e indo a questões mais práticas que dizem diretamente e diariamente respeito aos cidadãos, por exemplo: o folhetim em volta da cadeia de Ponta Delgada, da falta de condições da atual e da falta de concretização da nova,  é um excelente exemplo dessas más relações, bem como é também um excelente exemplo a falta de condições em algumas esquadras da PSP, a falta de viaturas das forças de segurança, a insipiente presença do estado naquilo que são as suas funções de competência exclusiva, justiça, defesa, segurança interna. Basta dizer que grande parte das viaturas que as brigadas da GNR e PSP usam nos Açores foram adquiridas pela próprio Região obrigada a substituir-se ao Estado que nos abandona.
Assumir a necessidade deste Conselho de Concertação entre governos, é assumir esse falhanço de mais de 40 anos de autonomia. Pois então que se assuma e que se diga isso mesmo aos Açorianos e que se mude rapidamente o sentido das coisas, caso contrário os resultados num futuro de curto, médio e de longo prazo serão os mesmos que agora nos desolam.

Diário dos Açores  - Como analisa a atual situação política? A situação nos transportes aéreos e marítimos de passageiros é uma pedra no sapato deste governo? E o papel da oposição?

Nuno Barata - A Região Autónoma dos Açores, parece-me óbvio, pela sua condição de centralidade atlântica e periferia europeia permanentes, só se desenvolverá social e economicamente quando vencer a questão das suas relações com o exterior e entre as suas próprias comunidades. Dai que os transportes sejam a nossa grande questão estratégica. Para melhor compreendermos esta necessidade, importa revisitar a história. Até à construção do Porto de Ponta Delgada cujas obras começaram em finais de XIX, São Miguel era uma Ilha periférica até mesmo no contexto do Arquipélago dos Açores. Na primeira metade do século XX a ilha desenvolveu-se e voltou a ser periférica com o crescimento da importância da aeronáutica civil e por consequente  falta de ligações aéreas com o exterior. Só a criação da SATA e os voos regulares entre o então aeródromo de Santana e os aeroportos das Lajes e Santa Maria (monopolistas nas ligações com os EUA e Lisboa) a partir de 1949, permitiram tirar de novo a Ilha de São Miguel dessa condição de periferia a que estava condenada. Nestes dois casos, Porto e SATA,  a tenacidade e a perseverança da elites micaelenses permitiu retirar a Ilha, de novo, dessa condição de periférica sendo que periferia significa também pobreza. Hoje os desafios são os mesmos, os objetivos também, as elites é que, sendo outras, não estão focadas na construção de soluções mas tão-somente na manutenção do poder e das clientelas bajuladoras que deslizam pelos salões de outrora com as mãos besuntadas de croquetes. Ou seja, não são elites, são simples poderes porque quem se comporta assim não merece tão elevado epiteto.
Relativamente aos transportes marítimos de passageiros inter-ilhas, com exceção para as Ilhas do denominado Triângulo, entendo (já o disse e escrevi inúmeras vezes) que ele não deve existir, esse transporte deve ser assegurado por via aérea, mais rápida, mais eficiente e mais eficaz, tal como foi desde os anos 8’0 do século XX, pela SATA-Air Açores e com o desaparecimento do  navio a motor Ponta Delgada. Foram já gastos em experiencias com navios e aventuras com gregos cerca de 84 milhões de euros nos últimos 20 anos, 40 milhões só nos últimos 7 (Atlânticoline) fora os apoios indiretos que não estão refletidos nas contas públicas desta empresa regional, tudo isso numa operação com que ninguém pode contar ao certo. Só por teimosia e irrefletida estratégia eleitoralista se mantem uma operação tão desastrosa como a que estamos a falar.
Curiosamente, no que concerne ao transporte de mercadorias, onde desenvolvem atividade três operadores privados e não existem Obrigações de Serviço Publico, as notícias são muitíssimo mais animadoras, ou seja, não há noticias o que indicia um bom desempenho.
Nos transportes aéreos o descalabro é ainda mais grave, porque desse não podemos abdicar e se perdermos a nossa companhia ficamos absolutamente reféns das estratégias comerciais de companhias cujos centros de decisão não estão minimamente preocupados com a nossa condição socioeconómica, com as nossas idiossincrasias ou sequer com a nossa condição de pobres periféricos. Por isso, importa salvar a companhia aérea regional com todas as forças possíveis. Importa separar duas realidades, o transporte de passageiros inter-ilhas e o transporte de passageiros e carga entre os Açores e o Continente Português.
No que concerne ao transporte de passageiros entre as Ilhas da Região ele deverá ser assegurado da forma mais eficiente possível tendo em vista a sustentabilidade económica da empresa por forma a garantir que  o serviço de mantem sem riscos de perder qualidade e equidade. Nesse sentido, há que reestruturar rotas e escalas por forma a não perigar o futuro do mesmo por via de caprichos quer do acionista único quer dos agentes externos que intervém muitas vezes nas decisões estratégicas da empresa. Os conselhos de administração deverão ter mais autonomia e o acionista deverá interferir menos nas decisões desses administradores.
No que concerne à Azores Airlines é expectável um plano credível para breve, sem romantismos bacocos que permita a essa companhia assegurar as ligações entre as Ilhas dos Açores e o Continente português, principalmente aquelas que não têm alternativa. Para tal deveremos agir
Concentrando-nos nas rotas mais rentáveis e abandonando em definitivo as experiencias com voos para fora dos mercados tradicionais. Assim, a partir de Ponta Delgada e Terceira, a aposta deve ser nos mercados do Continente Português, Estados Unidos e Canadá sendo que este último é um mercado em grande expansão e de elevado poder de compra que pode colmatar as falhas de fluxos turísticos durante o chamado inverno IATA. Só uma rentabilidade boa nestas 6 rotas mais importantes pode garantir condições para a companhia operar as rotas com obrigações de serviço público nas chamadas “gateways” menos apetecíveis, Pico, Faial e Santa Maria com Lisboa.
Neste desiderato, tem um papel fundamental a oposição que deverá comportar-se à altura de transformar os transportes num verdadeiro desígnio regional, abandonando a até agora ineficiente “politica da terra queimada” como aconteceu ainda recentemente com exigências de cargueiros interilhas , pernoitas nas Lajes, reforço de voos para ilhas onde os mesmos andam com ocupações ridículas e outras “boutades” que mais não tem feito do que afundar a companhia aérea numa “dívida insustentável” e lançado os açorianos uns contra outros numa luta pela canibalização da SATA.

In Jornal Diário dos Açores edição de 02 de Julho de 2019

28 de junho de 2019

Painel_Económico Junho 2019


Correio dos Açoeres-No seu discurso do dia dos Açores, o Presidente do Governo Regional referiu-se à necessidade da criação de um Conselho de Concertação entre os Governos da República e dos Açores capaz de acompanhar e operacionalizar, entre os Governos Regional e da Republica, questões  pendentes como a da gestão partilhada do mar e as questões relacionadas com o Air Centre  e a estação de   lançamento de  Satélites em Santa Maria.

A necessidade deste Conselho vem demonstrar a dificuldade do Governo  Regional em lidar com o Governo da República em questões de relevante  importância para a Região, ou é porque o Governo da Republica quer manter o poder de decisão e gestão sobre matérias que têm de ser partilhadas e geridas com o poder Autonómico?



Nuno Barata-Na verdade, existe um imenso rol de assuntos por resolver entre a Região e o Estado e que se adensam e se complicam ao longo dos anos e que não melhorou com as relações privilegiadas de políticos açorianos com mais poder na República, bem pelo contrário. Paradoxalmente e apesar de propagandeado o contrário, quando os governos são do mesmo partido as situações adiam-se mais facilmente e os atropelos à própria autonomia são maiores. A questão relativa à gestão partilhada do mar é uma delas, falta aclarar até o próprio conceito de “gestão partilhada” falta operacionalizar, falta fazer tudo para além das palavras e a região não teve capacidade nem de reagir e muito menos de agir neste assunto de relevante importância para a nossa autonomia e para o futuro das nossas gentes. Continuamos a olhar o mar apenas com os olhos postos no subsector extrativo da pesca que representa apenas 4% do próprio sector já de si incipiente, e não numa perspetiva alargada da chamada “Economia Azul”. As decisões tomadas no âmbito do chamado Air-Center em especial a instalação de uma space port na Ilha de Santa Maria, é outro desses assuntos. Está tudo (e esse tudo é muito pouco) a ser decidido em Lisboa no gabinete do Ministro Manuel Heitor e com diminuta participação da Região a não ser como figurante deslumbrada. A importância destas questões, a par do folhetim em volta da cadeia de Ponta Delgada, nova e velha, a falta de condições em algumas esquadras da PSP, são prova da insipiente presença do estado naquilo que são as suas funções de competência exclusiva, justiça, defesa, segurança interna mas de omnipresença em matérias em que devemos ser ouvidos e achados. Basta dizer que grande parte das viaturas que as brigadas do GNR e PSP usam nos Açores foram adquiridas pela próprio Região obrigada a substituir-se ao Estado que nos abandona, mas nada dizemos sobre a exploração de fontes hidrotermais ou a mineração do mar profundo.
Assumir a necessidade deste Conselho de Concertação entre governos, é assumir esse falhanço de mais de 40 anos de autonomia. Pois então que se assuma e que se diga isso mesmo aos Açorianos e que se mude rapidamente o sentido das coisas, caso contrário os resultados num futuro de curto, médio e de longo prazo serão os mesmos que agora nos desolam.

In Jornal Correio dos Açores, suplemento Correio Económico edição de 28 de Junho de 2019

Roda Viva 39º Emissão_Última

27 de junho de 2019

Vergonha alheia.


Há uma razão para elogiar Vasco Cordeiro, a tenacidade de lançar ideias e propostas para a melhoria da nossa deslastrada autonomia. Outros há que, na hora de propor, pensar, promover, apenas sabem fazer perguntas, requerer respostas, propor resoluções e fazer a contabilidade delas. A proposta de Vasco Cordeiro de beneficiar os melhores cidadãos, que é o mesmo de penalizar os piores, suscitou nos jornais de Portugal “escarnento” debate. Sobre esse fenómeno da abstenção obviamente não cabe em 200 palavras esclarecermos mas certamente que ela não deixa de ser uma enorme responsabilidade dos políticos no poder e na oposição. Por mim faço o que posso ou o que me deixam, sim porque essa coisa da democracia nos partidos tem muito que se lhe diga e que se lhe conte e talvez seja por aí que devemos começar a mudar alguma coisa. Eu percebo a euforia de quem se julga ter ideias em contraponto com quem não tem ideia alguma mas suscitar debate nacional com um assunto como este que “veio a terreiro” não é motivo de regozijo ou orgulho nas instituições regionais. É motivo de vergonha.

21 de junho de 2019

Beatas



Beatas
A cada minuto. Diz-se, são sete mil beatas lançadas ao chão, 10 milhões por dia quase 4 mil milhões por ano e se a isso acrescentarmos o tempo de degradação de um resíduo dessa natureza que é de cerca de 2 anos significa que temos em permanência 8 mil milhões de pontas de cigarro na natureza. O PAN- Partido dos Animais e Natureza que passou a incluir as pessoas quando alguém lembrou que a humanidade é isso mesmo, uma relação do homem com a restante envolvente, trouxe a debate e conseguiu a aprovação por unanimidade, embora com reservas, uma legislação repressiva (ao pouco essa gente mostra as garras). Acho mesmo muito bem. Multe-se o desporto nacional do arremesso da beata, aplique-se taxa sobre o lançamento do escarro, e não nos esqueçamos de atualizar a coima sobre esse desporto nacional muito em voga que é o tiro com fralda descartável aos sinais das estradas. Mas, não esqueçam o pior dos inimigos de quem anda a pé por aí, o excremento do cão e do gato, multe-se assim, com vigor, o Cão, o Gato e o animal que os leva pela trela.

In jornal Açoriano Oriental edição de 18 de Junho de 2019

Roda Viva 38º Emissão

4 de junho de 2019

SPRHI



Até trânsito em julgado todo o arguido tem direito à presunção de inocência. Não há nada, mas mesmo nada, ou principio do direito que seja mais importante do que este. Num Estado de Direito Democrático, as instituições judiciais têm obrigação de garantir esse princípio, seja quem for o cidadão, seja qual for a circunstância. Há quem defenda que em alguns crimes esta questão deva ser aligeirada e até houve um Presidente da Republica, um tal de Sampaio (ficará na história como o pior de todos mesmo os da primeira República), que defendeu uma inversão do ónus da prova em casos de crime fiscal. Um bárbaro no literal sentido do termo.
Este, dizem alguns, excesso de garantias dos arguidos é pernicioso para o sistema. Ao invés, dizem outros e bem, este é um princípio inviolável para a democracia.
 No entanto, há uma questão que me parece não pode acontecer, é manter-se em funções públicas cidadãos constituídos arguidos e sob suspeita de má conduta moral e ética. Se não parte deles próprios o pedido de demissão que parta então das hierarquias a sua exoneração. Por isso fez bem Vasco Cordeiro ao ordenar a exoneração de Joaquim Pires e Cíntia Martins.

In Jornal Açoriano Oriental edição de 04 de junho de 2019.

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