22 de setembro de 2018

Coluna Liberal - Jornal Diário dos Açores 21 de Setembro de 2018


Ao longo da história da humanidade várias foram a tentativas dos governantes de condicionarem o pensamento e o desenvolvimento dos indivíduos. O liberalismo veio trazer algo de novo ao pensamento filosófico e à organização do governo da polis no sentido de libertar o cidadão das peias do absolutismo.
Nos últimos dias, na Cidade Praia da Vitória, o Partido Socialista dos Açores discutiu (eufemismo) e votou (outro eufemismo) uma moção de estratégia global que, para além de ser a única a ir a votos, foi aprovada por unanimidade (por principio não aprecio unanimismos). Escalpelizar essa moção é uma tarefa, de veras, complicada para alguém que ousa defender as liberdades individuais e os seus princípios libertadores.
Apreciar os discursos do oradores fixando-se nas expressões faciais de Carlos Cesar é um exercício que , talvez, pouca gente fez. Analisar a denominada, perdoem-me o estrangeirismo, “body language” do presidente honorário do PS-Açores é um exercício lúdico muito interessante. Este foi um congresso que ficará marcado não pelo que disse, verbalmente Carlos Cesar, mas sim pelo que expressou inequivocamente pela permanente “cara de jogador de poker” que ostentou. Tomara. Cada “jovem turco” que subiu à tribuna naqueles dias veio anunciar mais uma medida, mais um truque de magia para resolver problemas estruturais, permanentes e persistentes da sociedade açoriana. Diz a sabedoria popular  que “ quem se deita com pequenos acorda mijado” Carlos Cesar, um dos mais experientes políticos portugueses, acordou encharcado.
Cesar ouviu e consentiu mas, certamente não gostou, eu também não gostava.
A páginas tantas (42 para ser preciso), da tal moção de estratégia global aprovada por unanimidade, lê-se: “o Partido Socialista dos Açores tem dirigido a sua ação política para a promoção de uma sociedade cada vez mais coesa, justa, solidária e geradora de igualdade de oportunidades.” Para logo de seguida se ler que “a educação permanece como a mais eficaz ferramenta no combate à pobreza, no acesso ao emprego e a uma remuneração condigna.Sempre a paixão pela educação usada como arma de combate à pobreza e à exclusão mas isso só nas palavras porque nos atos a Região está para lá de muito pior do que o resto do país e  a distar muitas milhas do que  já se faz por essa Europa a dentro da qual divergimos a olhos vistos e números declarados.

Dizem ainda os subescritores que uma estratégia para a educação “ implica uma mudança de mentalidades, de procedimentos e de prioridades, inclusive dentro do próprio sistema educativo regional “. Salvo seja!

O Estado de direito democrático não pode nem deve construir mentalidades, condicionar formas de pensar, construir narrativas diferentes da estrutura cultural e identitária de todo um Povo. Bem sei que para este PS essa coisa de Povo Açoriano “não dá pão”, mas devia dar.

Quando o estado monitoriza e indica tutores educativos, como se de “guardas vermelhos” se tratassem, para supostamente ajudarem determinados indivíduos, esse estado está a condicionar o pensamento desse individuo e a dirigi-lo para um pensamento coletivo, estamos a trabalhar no caminho do Partido único, do pensamento único, das práticas estandardizadas. Disso,  só foi visto, de facto, na China de Mao até meados do século XX com a chamada revolução cultural . Essa China não era e nunca mais foi um estado de direito e muito menos liberal.

Depois de vinte e dois anos no poder, nos Açores, como assim seria em qualquer outra parte do Mundo, é absolutamente normal que o Partido Socialista comece a beber dos seus próprios venenos, ou seja a apontar soluções para problemas que são da sua inteira responsabilidade ( não me digam que a culpa ainda é das velhas famílias dos Senhores feudais, do Salazar do Mota Amaral ou do Natalino Viveiros).
Também é expectável que esse mesmo partido encerre nas suas fileiras gente que se aproximou para gestão dos seus interesses pessoais, dos seus apetites,  em lugar de o fazer por ter um projeto para o bem-comum, isso é da natureza humana como dizia Hobbes o “Homem é lobo do Homem” e nisso fundamentou a sua teoria para a construção do Estado talo como o conhecemos hoje.
É preocupante que se leia dos discursos de alguns dirigentes do PS-Açores e que se ouçam das bocas de jovens quadros da Região, discursos aplaudidos de pé que indicam caminhos perigosos de pensamento único e m nome de conceitos tão vagos como são o da própria autonomia e o de “interesse dos Açorianos”. O partido Socialista dos Açores vive um momento de autismo que, fruto de medos atávicos e comodismo de todo um povo dependente do Estado/Região, poe em perigo um dos mais básicos pilares da democracia, o pluralismo de opiniões, até mesmo dentro do próprio partido onde não aparecem discursos alternativos ao poder instalado ou a líder incontestado. Líder esse que, diga-se, ainda vai sendo o único que tenta introduzir novidade e agitar as consciências.

Para os que, nesta região, lutaram contra as forças que no PSD-Açores tentaram a mesma via nos anos noventa do século passado, é entristecedor assistir a este processo sentado na bancada central.
Não é normal, nem um bom sinal para a democracia,  digo eu, que num país  ou numa região, como num partido ou num clube de futebol, a mesma fação ou seja lá o que for,  detenha o poder durante vinte e dois anos, dezoito dos quais em maioria absoluta.

17 de setembro de 2018

Açores-A destruição do que nunca existiu



O denominado discurso   e prática permanentemente assentes no “politicamente correto” tornou-nos numa espécie de ovelhas seguindo em rebanho os guias do mesmo. Sabendo inclusive, que o caminho não é o percorrendo, algumas dessas gentes não ousam grita-lo, vão seguindo esperando que outras gritem, (não berramos Sr. Presidente da Republica, os Homens não Berram).
Nos últimos dias, perante as sucessivas narrativas falaciosas sobre o estado da Região. Construções semânticas essas que vão desde : a educação onde a Região em vez de ir além do que faz o Estado teima em ficar aquém; na saúde com as prioridades às evacuações a serem atribuídas pelos apetites pessoais dos decisores políticos  em lugar de serem tidos em conta os pareceres dos médicos; das finanças que apesar “da situação estável”  deixam os fornecedores  em estado de agonia prolongada;  do investimento que não se faz apesar dos anúncios de taxas de execução extraordinárias; do sector publico empresarial regional a definhar de dia para dia sem soluções visíveis; do descalabro no ambiente apesar dos discursos da sustentabilidade serem permanentes; das quebras no turismo  mesmo quando o investimento no sector nunca foi tão grande. E por aí adiante poderia continuar a desfiar um ror de coisas que culminariam no crónico estado de pobreza  dos agricultores e dos pescadores.
Nos últimos dias, dizia eu, perante tudo isso, eis que se levantam finalmente alguns dos “senadores” do Partido Socialista, em vésperas de conclave da agremiação, para gritarem, alto e a bom som, do alto das suas cátedras que “o Reio vai nu”. Primeiro Martins Goulart, depois Dionísio de Sousa.
É verdade, a Região falhou e isso aconteceu porque: Falhou a democracia porque não soube vencer e educar este povo para ultrapassar  os atavismos que o regime de Salazar semeou, o de Mota Amaral cultivou e o de Cesar está a colher;  Falhou a coesão porque se alimentaram clientelas, umas politicas outras sociais e outras ainda recriações do próprio regime; Falhou a Região num todo identitário e falhou absolutamente  e por direta culpa de todos os que nos governaram até hoje com especial responsabilidade para os pequenos grupelhos de agitadores e uma oposição ananicada que não foram, conjuntamente, capazes de construir uma comunidade politica que agregasse estas nove ilhas mas, tão só, uma unidade orgânica.

Os Açores, carecem de ser mais do que um espaço geográfico e um organigrama.  É urgente deixar de agitar bandeiras bairristas e falsas questões de igualdade quando somos todos diferentes.

 É urgente acabar com as discriminações feitas em nome da coesão ou do “desenvolvimento harmonioso” de uma região cheia de idiossincrasias e especificidades que não são anuláveis, felizmente.
A “discriminação positiva” não é diferente de discriminação pura e simples. Discriminar positivamente é favorecimento de grupo pessoa classe, etc , e isso é sempre feito em detrimento, prejuízo de outros. Por isso não existe discriminação positiva existe sim e sempre uma discriminação, porque é essa mesma a sua essência etimológica, uma separação, uma segregação. Discriminar é criar um grupo à parte, segrega-lo, não é juntar, tornar coeso.
Numa altura em que os políticos enchem a boca com palavras como coesão social e coesão territorial, sujam as mãos com discriminações sociais, territoriais ou corporativas só porque são mais populosas ou mais poderosas.
O que vieram dizer os “Senadores” do Partido Socialista nestas vésperas de Congresso do seu clube, não foi mais nem menos do que têm dito muitos escribas e comentadores políticos nos últimos anos, que o fogo abrase aqueles que não sabem ouvir.


Ponta Delgada, 14 de Setembro de 2018

13 de setembro de 2018

Inquérito Diário dos Açores 2018.09.12



Diário dos Açores - Vasco Cordeiro vai suceder a Vasco Cordeiro no Congresso do PS do próximo fim-de-semana. A sua liderança estará reforçada para assumir, sem problemas, uma nova vitória absoluta nas eleições de 2020 ou prevê alguma alteração?

Nuno Barata - Uma das vantagens, a grande vantagem arrisco dizer, do regime democrático, é que até ao contar dos votos ninguém pode estar mais seguro ou menos seguro do resultado a alcançar. Nas últimas regionais de 2016, o PS perdeu cerca de 9000 votos em relação às regionais de 2012, esse número de votos perdidos não é despiciendo se atentarmos ao círculo de compensação e ao efeito que pode ter o resultado na distribuição de mandatos. A liderança de um partido, seja ele qual for, em regime de candidato único não está em causa e poderá sair mesmo reforçada do congresso se, de facto, a moção de estratégia que se conhece for apresentada e for discutida com mais pormenor e de forma participada. Não é isso que tem vindo a acontecer nos congressos partidários mais recentes. Não se espera que venha a acontecer mas deseja-se.
 O PS Açores não tem que ter qualquer receio de debater-se, de renovar-se, de fazer diferente e para isso precisa de falar menos para fora e mais para dentro de si mesmo. Renovar o Partaido não aceitar novos militantes ilustres que muitas vezes são apenas “Cristão Novos” em busca de uma espaço com sombra. Renovar o Partido é purga-lo das coisas perniciosas -  onde se incluem esses agentes da oportunidade -  e reedita-lo seguindo a sua matriz ideológica e o espirito de mudança que preconizou num passado ainda recente.
Por princípio sou avesso a unanimismos, ao PS-Açores falta debate interno.

Diário dos Açores - As propostas que Vasco Cordeiro apresenta na sua moção são suficientemente mobilizadoras para uma renovação ou espera que haja espírito crítico por parte de dirigentes e militantes do PS?

Nuno Barata -Como disse atrás, existe um perigo enorme do PS-Açores sofrer de um certo “autismo” que culmine num pensamento único. Isso é, infelizmente, próprio dos partidos que passam pelo poder muito tempo. Aconteceu no PSD de Mota Amaral e está a acontecer ao PS de Vasco Cordeiro e Carlos Cesar. Dentro do PS-Açores não há quem arrisque agitar as águas.
Deve dizer-se, em nome de uma justiça de avaliação, que Vasco Cordeiro tem, ele próprio, em questões muito gerais sido o único agitador de consciências mas sempre com propostas que caem numa espécie de saco roto. Nunca mais se ouviu falar das propostas que aventou no dia da Região nas Flores ou no discurso do último congresso. Porém agora aparecem propostas ao conclave socialista relativas à qualificação da autonomia, vejamos o que o PS consegue fazer sobre esse importante desiderato  nos próximos dois anos. Este Partido Socialista não tem desculpas, já governa a Região com maioria absoluta desde 2000, só não reformou o regime porque não quis ou não quer ou ainda porque entende que está tudo bem (voltamos à tese do autismo). O papel aceita quase tudo o que lá se poe, operacionalizar essas intenções é que nem sempre é fácil, possível, e aceite pelo soberano eleitorado.


Diário dos Açores - Daqui a poucas semanas haverá alterações na liderança do PSD-Açores. Quem acha que estará mais apto: Alexandre Gaudêncio ou Pedro Nascimento Cabral?

 Nuno Barata - 1X2, é como jogar no totobola, só que aqui não há lugar ao uso do X. Eu diria que ambos os candidatos têm condições de ganhar as eleições internas diretas, ambos terão condições de enfrentar o congresso, mas só um pode ser o líder que o PSD almeja há algum tempo. Ser Presidente do Partido é a parte que custará menos a Alexandre Gaudência, tem conhecimento das bases, implantação bastante em São Miguel, foi Secretário-geral e é um autarca com algumas provas dadas mas também com muitos rabos-de-palha por explicar e tem o apoio do actaul dirigente máximo do PSD-Açores.
Nascimento Cabral, tem também nas suas fileiras, gente da máquina partidária e tem a enorme vantagem de não estar ele próprio ligado ao aparelho do Estado/Região/Poder Local, é aquilo que se pode chamar um outsider que sempre esteve por dentro e soube escolher a sua hora, fez o seu caminho como todos nós que andamos atentos podemos comprovar. Começou com cuidado a mandar recados para dentro do partido, endureceu as críticas à direção de Duarte Freitas e lançou, no início deste ano, a derradeira “lança” anunciando a sua candidatura ainda antes do processo eleitoral ser despoletado. Nascimento Cabral é um estratega da política e isso dá-lhe muitas garantias de sucesso.


Diário dos Açores - O PSD, com uma nova liderança, poderá almejar umas eleições mais disputadas em 2020 ou terá ainda que aguardar por 2024, quando Vasco Cordeiro já não se poderá recandidatar?

Nuno Barata - O resultado eleitoral de 2020 vai depender muito da forma como correrem os dossiers que neste momento são incómodos para o PS Açores.
O Governo e o Partido Socialista, muito por culpa da s suas cedências às reivindicações populistas da oposição, e menos por culpa das suas fracas convicções, criou ao longo dos últimos anos um conjunto de problemas para si próprio e com os quais vive ensombrado.
O Dossier SATA será fundamental neste processo. Se a operação de “reconstrução” da SATA correr mal, as eleições certamente irão correr mal para o PS.
Nos últimos anos de oposição, passado o período de “ressaca” despois da derrota de 1996, o PSD adotou uma tática política análoga à tática militar usada pelos Russos contra a invasão pelas tropas de Bonaparte. “Politica da Terra Queimada”. Ou seja, foi apresentando o sem número de propostas, mais um menos populistas, mais ou menos inexequíveis, algumas desnecessárias e até perniciosas como engodo para o PS ir cometendo os erros estratégicos que cometeu. Quando prevalece a tática sobre a estratégia é isso que acontece. O PS deixou-se levar pelo imediatismo da tática, da resposta rápida às provocações da oposição e nem sempre esteve à altura de responder com firmeza a esses ataques.
Neste momento o PSD espera calmamente, tal como os Russos esperaram às portas de Moscovo por napoleão e às portas de São Petersburgo pelas tropas alemãs. O PSD espera e desespera por um desaire do Partido Socialista, as eleições nos Açores não se ganham, perdem-se.

9 de setembro de 2018

Um Café sem bica


O  facebook é um Café. Não é um Café tradicional, como aquele onde entramos seguindo o cheiro  dos grãos negros acabados de moer, cheios de histórias contadas e outras tantas por contar. Histórias de amor, escarnio, dramas. Histórias de escravos, histórias de vidas e sobretudo de mortes.
Também não é um café como os  do Steinner, onde se constroem mitos, destroem vaidades, se fazem propostas, se apresentam soluções e se desenvolvem teorias filosóficas sobre a felicidade humana e o futuro da europa.
Uma das enormes vantagens dos Cafés é que estão regulados pelo mercado – esse demónio- não somos obrigados a entrar neste naquele ou no outro, podemos escolher onde entrar e comprara o que queremos  ou podemos comprar.
O facebook não é apenas uma café, é um conjunto deles, dos que vale a pena entrar, daqueles onde entramos quotidianamente assuntando por aqui e por ali com este ou com aquele. É como encostar a barriga ao balcão e resolver os problemas da humanidade, seja entre dois copos de cerveja e um pastel de bacalhau às 3 da manhã, seja entre a bica em chávena escaldada e o pastel de nata da pausa laboral das 10 horas.
Mas, também é como um daqueles espaços físicos que dão pelo nome mas não o merecem. Cheiram a azedo. E como em qualquer Café, somos todos livres de querer entrar ou não.
Alguns grupos, neste “grande Café”, são como esses espaços esconsos e mal cheirosos. Cheios de perfis falsos, descarados anónimos,  plenos de  gente que se julga isso mesmo mas não chega a sê-lo, de meias verdades e mentiras absolutas, de insinuações dadas como verdades insofismáveis. São lugares perigosos, onde, a qualquer momento, podemos ser atraiçoados por uma faca saída da liga de um qualquer vagabundo.

Muitos desses grupos não são sequer Cafés, não passam de lixeiras a céu aberto. Com o devido respeito, não gosto de frequentar depósitos de lixo, aterros sanitários e afins a não ser para adquirir composto orgânico e animado pelas “carinhas larocas” e pela simpatia e profissionalismo das funcionárias lá do lugar.

Sim já entrei em alguns grupos desses que pululam por aí no mundo virtual da world Wide Web. Em alguns deles, tal como nos Cafés, até encontrei coisas interessantes, mas esses grupos são como alguns desses Cafés, escuros, cheirando a azedo e a beatas nos cinzeiros onde apenas é permitido beber uma bica pegando a chávena com a mão esquerda para usar o lado menos gasto da borda só “passadinha” por água

Ponta Delgada, 7 de Setembro de 2018

Coluna Liberal - Jornal Diário dos Açores 07 de Setembro de 2018


Na década de 80 do século passado emergiu na humanidade uma nova era liberal. Com políticos como Margaret Thatcher e Ronald Reagan, a precipitação da queda anunciada do comunismo nos países da ex URSS e do Pacto de Varsóvia e com os resultados relativos aos índices de bem-estar das populações que puderam fruir das vantagens das políticas económicas mais liberais, essas ganharam, claramente adeptos mas, como tudo também adquiriram críticos e até ódios.
O termo liberal, foi inclusive, ganhando contornos e acessões indevidas e até perniciosas.
Na verdade, o liberalismo que vivemos hoje é muito diferente do configurado no vastíssimo legado de Kant, o mais liberal e universal filósofo que a humanidade já conheceu, apesar da seu isolamento na sua pequena Königsberg, de onde nunca saiu e cujas rotinas, diz-se, serviam para os homens da cidade acertarem os seus relógios.
Na alba de XVII, Miguel de Cervantes na sua obra-prima, usa o termo “liberal” para caracterizar os Homens de “espirito aberto”, cordial, sensato, resumido como pessoa de quem se pode facilmente gostar. Não há, portanto, em D. Quixote qualquer tipo de conotação politica ou filosófica com o termo, ele é tão só visto como um conjunto de características  de uma determinada pessoa quer no domínio das suas escolhas pessoais quer no domínio da sua ação cívica.
Ora essa não é a conceção liberal que, mais tarde, já em XVIII, os chamados filósofos liberais defendem e advogam. Na verdade, com John Locke, Voltaire, já para não citar Stuart Mill ou Adam Smith, o vocábulo adquire uma carga conceptual e do domínio da gestão da polis mais acentuada. O conceito liberal vem contrapor-se essencialmente ao Rei Absoluto e aos seus dogmas. Os liberais de  XVIII defendem as liberdades individuais, o livre comércio e a concorrência como forma de promover a liberdade financeira dos cidadãos.
Os “pensadores livres” que defendem o Estado mínimo e laico.  A coisa pública liberta do obscurantismo religioso, são uma marca do liberalismo de XIX.
Voltemos então ao Século XX e às figuras de Margaret Thatcher e Ronald Reagan. Os chamados neoliberais. A queda da URSS e a demonstração à saciedade, do falhanço soviético e dos seus “satélites”, permitiu que uma certa direita conservadora tomasse a dianteira nas reformas ideológicas que a humanidade tanto necessitava. Foi essa direita que assumiu as bandeiras da reforma das instituições, do próprio estado e da liberdade. Parecia um contrassenso, no entanto a esquerda acanhara-se e deixara-se ficar num registo expectante apenas.
Mesmo depois da chamada crise do “subprime”, uma das maiores crises mundiais depois da grande depressão, que abalou seriamente a instituição liberal e as politicas austeras,  a esquerda manteve-se acanhada e resignada às evidencias, Veja-se o caso Grego ainda recentemente  badalado e que terá pela frente mais 20 anos de pura austeridade apesar da saída limpa de um plano de resgate que deixou na pobreza mais de 20% da população.  As nações, como os indivíduos, regem-se por uma conta de deve e haver e a Grécia, com ou sem Syrisa, não é diferente dos outros estados da união Europeia ou do Mundo.
O liberalismo de XX, o neoliberalismo de Thatcher e Reagan,  está aí para durar porque não foram esses os sistemas causadores das crises mas sim um sistema esdruxulo, inventado na europa como uma espécie de 3ª via e que sendo absolutamente interventor na economia dos países e na vida dos cidadãos se arroga de liberal e democrático coisas que não é.
Hoje, recuperamos alguns dos bons modelos dos anos 80 do século XX mas importa ir muito além da economia e do mercantilismo à escala global. Importa ir, por exemplo,  à recuperação dos conceitos como o das  liberdades individuais que hoje não  são coartadas por ordens de prisão arbitrárias mas sim por regulamentos, leis e posturas que determinam quem pode sobreviver e quem deve ser afastado.  Mais do que nunca, os medos atávicos, a autocensura e o comedimento com a liberdade de expressão, são factos que corroboram necessidades de mudança de paradigma. 
O estado omnipresente deixa o cidadão sufocado.





1 de setembro de 2018

Valha-nos Santa Bárbara!


Diz o Povo, este Povo ao qual me orgulho de pertencer e partilhar as vidas e as vivências, que “só se lembram de Santa Bárbara quando faz trovões”. É verdade! Por cá a nossa governança que, muitas vezes, mais parece desgovernaça e estar permanentemente num gabinete de comunicação e de propaganda em vez de estar a dirigir, gizar planos e formas de os executar, não age, apenas reage!
Reagir não é o mesmo que agir. E não é, de facto a melhor forma de governar. Mas reagir em quente a questões sérias, estruturais, vetustas, leva-nos a desacreditar mesmo aqueles em que, nalgum tempo, chegamos a depositar esperanças.
Faltou água. Rezaram, fizeram mesinhas e esperaram que se cumprisse o velho ditado do Abril águas mil, que no São João caem nevoeiros e chuviscos e que  o primeiro de agosto é o  primeiro de inverno. Nada! Na verdade não chove coisa digna desse nome, em algumas Ilhas, desde Março. Santa Maria enfrenta, neste momento, uma das maiores crises de água de que há memória. Anda a Câmara num esforço hercúleo a acartar água de reservatório em reservatório para que não falte nas torneiras das habitações, pneus e gasóleo com fartura.
Em São Miguel e Terceira a miséria está à vista de todos. Na Graciosa já se fala do assunto, que eu me lembre, vão para lá de 30 anos.
No mundo todo, pelo menos desde as primeiras pedradas atiradas ao charco por Al Gore, não se fala de outra coisa. Por cá, na imprensa regional, só eu já fiz publicar uns quantos textos sobre o assunto, até corri o risco de sugerir um plano e indicar lugares para possíveis mini açudes para retenção de água em ribeiras com caudal permanente. Especialista em generalidades, dizem eles. Os políticos devem ter achado esdruxula a ideia, os técnicos, que nunca se pronunciam publicamente, devem ter achado que eu tentava descobri a pólvora chinesa, mas sabem, todos eles, que tenho razão.
Só quando há secura é que a malta, lá no café e com a barriga encostada no balcão se lembra da água. Mas as secas serão cada vez mais prolongadas e cada vez mais frequentes e então a malta começa a reagir. E ai está um dos grandes problemas. A reação vem sempre com soluções fáceis, rápidas  mas nem sempre duradouras. O Sr. Secretário que tutela a Agricultura e que também tutela as florestas (outro assunto que um dia vai ser noticia pela negativa) vem agora dizer uma coisa extraordinária diz: “Estamos concentrados em encontrar pontos de abastecimento de água de ribeiras com caudal permanente, como é o caso da Ribeira da Alegria, na freguesia das Furnas, cujo caudal servirá para reforçar o abastecimento do complexo da Lagoa das Contendas”. Ou seja  é gastar o resto até à ultima gota e quem vier atrás que apague a luz e feche a porta.

Não faz falta captar e canalizar as ribeiras de caudal permanente, faz falta construir açudes e outras soluções de retenção de água a montante para alimentar os lençóis freáticos. Em lugar de promover o abate de matas regionais para vender ao preço da “uva mijoa” a alguns amigos do regime à sombra de encapotados concursos públicos e brincar ao desenvolvimento de biótipos e aos salvamento do Priolo,  o que faz falta é plantar mais criptoméria em altitude para captação da humidade e introdução dessa água nos solos  tal como os estudos publicados ainda recentemente por cientistas comprovam.
O que faz falta é agir em vez de reagir. O que faz falta é ir ao terreno trabalhar em vez de inaugurar.
Que a seca vos abrase essas cabeças que o fogo da vossa incompetência já nos abrasou a todos. 


São Lourenço, 31 de Agosto de 2018.

27 de agosto de 2018

Tiros de pólvora seca!


Correm esgotos para as ribeiras, para o mar. Por encostas abaixo jorram lamaçais vindos de pocilgas e nitreiras de vacarias clandestinas. As estradas estão ladeadas de lixo, fraldas descartáveis, embalagens  de iogurtes, latas de refrigerantes, sacos de batatas e outras iguarias dos tempos do consumismo. Por aqui e por ali, encontro  restos mortais de uma queca apressada ou de uma refeição adquirida no “drive in” do restaurante de “fast food” mais próximo.
Em pleno século XXI ainda se  encontram resíduos, largados por mão humana,  nos mais recônditos lugares.

Usamos e abusamos de químicos para a agricultura, o Estado/Região usa glifosato em grande escala no combate a infestantes em bacias hidrográficas. Queimam-se com químicos as infestantes das bermas das estradas matando também endémicas e exóticas. As câmaras combatem as ervas dos passeios de calçada portuguesa com recurso a herbicidas.
Enterramos, todos os dias, toneladas de resíduos que não sabemos o que são. Deram-se -ministraram-se, como é moda dizer agora - cursos e mais cursos de uso e aplicação de fitofármacos mas ninguém monitoriza ou fiscaliza o uso e abuso dos mesmos. Fizeram-se leis plenas de bonomia que são inaplicáveis e quase impossíveis de fiscalizar.

A nossa grande riqueza, a agricultura, importa alimento sem rastreabilidade alguma, sabemos lá o que se está a importar e a introduzir na nossa cadeia alimentar por falta de coordenação e de controlo. Importamos sementes manipuladas geneticamente sem sabermos, usamos e abusamos de híbridos, de milho, meloa, melancia, tomate, courgettes, alface, repolho, couves e até –imagine-se – pimentas que dizemos serem da terra. Tudo  isso, desconfio, sob as bardas dos serviços oficiais sem que esses o desconfiem ou sequer tenham noção da sua gravidade.
Os turistas e os locais que redescobriram ou descobriram  a sua própria terra (finalmente)pisam e repisam em zonas protegidas sem controlo. Os serviços públicos abrem autenticas “autoestradas” em zonas de paisagem protegida.

As reservas marinhas são saqueadas por pescadores furtivos sem qualquer tipo de controlo (que é feito dos Drones do Brito e Abreu?). Mergulhadores de recreio embaraçam-se em redes ilegais largadas ao emalhe em zonas proibidas sem que se descubra o nome do prevaricador.
O Mar, está na boca dessa gente que nos governa mas ela pouco ou nada sabe o que fazer com ele.

Todas as semanas importamos mais viaturas, mais combustíveis fosseis, mais plástico, mais venenos.

Apenas exportamos peixe fresco, algumas conservas de tunídeos, gado vivo e uma dúzia de carcaças de vaca velha. A nossa industria está reduzida aos lacticínios, que usam parte das matérias primas locais  e às agroindústrias e conservas de peixe cujas matérias primas são, na sua grande maioria, importadas. Nem uma lata de comida de cão ou gato produzimos a moda do “petfood” passou-nos ao largo com tanto que tínhamos para enlatar. Não produzimos nem um parafuso, nem um rudimentar instrumento (ainda haverá quem faça sachos?). Da indústria que tivemos no final de XIX e XX, temos apenas meras recordações materializadas em velhas chaminés e um museu de arte contemporânea que deveria ter sido museu da indústria micaelense.
 Exportamos, todos os dias e à distância de um clique recursos financeiros e gente. Sim, continuamos a exportar gente para ir trabalhar e produzir riqueza para outros e noutras paragens. É fantástico! Não é?

Encher a boca com a palavra sustentabilidade não nos transforma numa região sustentável
Palavras sem atos são tiros de pólvora seca.

Munições de salva…

São Lourenço, 23 de Agosto de 2018.

26 de agosto de 2018

"Maverick"




A política Internacional ficou mais pobre ontem 25 de Agosto de 2018. Na verdade, com a saída de cena do Senador MacCain a humanidade perdeu um dos seus melhores. Já vão restando poucos.
Outrora detestado pelos seus oposicionistas, inclusive no Partido Republicano onde perdeu internamente em 2000 a corrida para a nomeação  a favor de  George W. Bush e maltratado nos media europeus, hoje , certamente, todos vão ser unânimes, todos vão escrever e dizer que se perdeu um grande Homem, todos vão lamentar o facto de não ter sido Presidente dos Estados Unidos da América.
Em 2008, “at least”, MacCain garantiu a  nomeação para candidato presidencial pelo Partido Republicano.
Tal como escrevi na altura, numa contenda difícil, John MacCain foi vitima da herança das politicas e falta delas  de George W. Bush e de uma campanha pouco ortodoxa que tendo-o poupado, perpetrou fortíssimos ataques  contra a sua putativa Vice-presidente Sarah Palin, quer  pelo seu discurso pleno de conservadorismo radical e nacionalismo, quer pelos escândalos familiares.
MacCain foi vitima de xenofobia. Ironia das ironias. MacCain foi o primeiro exemplo de um enorme politico, com convicções e um projeto humanista  global, que foi derrotado apenas porque era branco, genuíno nas suas convicções e heterossexual. 
O Mundo ficou a perder.

25 de agosto de 2018

Coluna Liberal - Jornal Diário dos Açores 24 de Agosto de 2018


Talvez não seja por puro acaso que começam a reaparecer em Portugal novos partidos de inspiração liberal. A ideia transversal à sociedade portuguesa de que algo vai podre nesta democracia representativa do levanta-te e baixa-te às ordens do chefe; Da disciplina de voto; Do carreirismo político; Do nepotismo e da plutocracia. A ideia corrente e generalizada de que são todos iguais apesar de alguns serem mais iguais do que outros (o caso Robles foi só mais um). O descrédito gerado nas instituições partidárias e a sua manifesta incapacidade de se reinventarem por estarem perdidos nas suas convulsões internas e por se terem tornado numa espécie de estribo para interesses pessoais. São motivos mais do que suficientes para buscarmos soluções fora do tradicional espectro político-partidário.
Depois das aparições dos partidos sectoriais, dos reformados, dos animais (quem sabe ainda vai aparecer dos LGBT), partidos com agenda mas sem ideologia, embora se lhes reconheçam tiques totalitários e de esquerda. E, depois da recriação da UDP e do PSR por fusão no Bloco de Esquerda, eis que Portugal assiste ao emergir da Iniciativa Liberal.
Primeiro foi um movimento, depois um partido, uma espécie de “startup política” de matriz essencialmente liberal, sem pejo e sem complexos que se diz estar, ideologicamente entre o PS e o PSD, à esquerda deste e à direita daquele, seja lá o que isso for. O Iniciativa Liberal aparece como uma espécie de PRD liberal, ou seja um Partido que apesar de se afirmar como novidade, encerra nos seus princípios programáticos, a que chamaram de Manifesto Portugal Mais Liberal, um conjunto de banalidades e lugares comuns capazes de serem sobescritos por qualquer dirigente do PS do PSD e até do CDS. O Iniciativa Liberal parece, assim, uma espécie de caixa de cartão  onde cabem todos e tudo. Para um novo partido, são vetustas práticas. Para uma solução inovadora são velhas táticas. Para uma perspetiva de futuro tem já demasiado passado.
Uma das questões que mais reservas me causou no manifesto e nas palavras dos promotores da Iniciativa Liberal, é o facto de acreditarem que Portugal é já um país liberal. Na verdade, nem com D. Pedro IV foi possível afirmar essa certeza e mesmo durante a primeira república, com a desordem instalada, foi possível garantir esse desiderato tendo o pais acabando se entregando a um regime de partido único, personificado num líder feito herói nacional. Caído o regime do Estado Novo, logo nos apressamos a apoiar outro tipo de totalitarismo do qual, felizmente, nos libertamos em 25 de Novembro de 1975. Não somos, na verdade, um país de liberais e isso explica muita da nossa pobreza, do nosso atavismo da nossa condição de dependentes, da nossa permanente busca de soluções exógenas quando elas são, ou deveriam ser, endógenas.
Agora aparece-nos a Aliança, movimento para-partidário liderado por Pedro Santana Lopes. Com uma declaração de princípios que, apesar de não trazer nada de novo, não esconde ao que vem. Três palavras-chave encimam esse documento: Personalismo, Liberalismo e Solidariedade. Parece-me bem, mas vamos escalpelizar o que nos é dito nesse manifesto sobre estes três “eixos fundamentais”. Pouco ou quase nada, na verdade.
O documento não vai além de considerações vagas sobre o respeito pela vida, a dignidade humana e a pessoa no centro das decisões. Sim, concordo mas é pouco. Importa saber o que pensam os “aliados” sobre temas tão na ordem do dia como a eutanásia e o aborto (recuso usar a sigla IVG).
Para lá de pequenas referências à liberdade religiosa, a defesa da iniciativa privada e a liberdade económica, o manifesto perde-se em pormenores de programa de governo deixando algumas ideias basilares do liberalismo por explorar.
De matriz democrata-cristã, na esteira da doutrina social da igreja, o fundador deste movimento não poderia deixar de falar de solidariedade e de responsabilidade da sociedade pela proteção dos mais desfavorecidos, promovendo valores absolutamente essenciais ao desenvolvimento  das comunidades como são o da solidariedade “intra e inter-geracionais” e a promoção de políticas de combate à exclusão social promovendo assim uma real e verdadeira convergência social através da implementação de politicas capazes de criar oportunidades para todos e não apenas para alguns que, sabemos, são sempre os mesmos.
Pedro Santana Lopes, sempre o mesmo inconformado, resiliente, lutador, incompreendido por uma maioria de medíocres, permanentemente na busca do bem comum, saltando permanentemente para fora da sua zona de conforto, mais uma vez, dá uma lição de humildade, convicção, tenacidade e fé.
A sorte está lançada, ou como diziam os romanos na antiguidade clássica: Alea jacta est.


22 de agosto de 2018

Ainda se fosse Nicolas Maduro!




A polémica à volta do convite e “desconvite” a Marine Le Pen para discursar no websummit por pressão das “blocoreanas” evidencia bem o que essa gente que, ainda ostenta nas suas bandeiras os símbolos do socialismo soviético,  pensa ou melhor verborreia sobre as liberdades individuais e sobre o pensamento livre , seja ele qual for. Quem não pensa como eles não o pode expressar.
 Para essa gentinha que se julga gente e que segue atentamente e com aplauso as revoluções ibero-americanas e que encontra virtudes no líder da Coreia do Norte, todos os que não pensarem como eles terão de ser silenciados. Esta é, claramente, a  visão turva dessa gentalha descamisada dos blocos e dos PCs, dos Ciudadanos e quejandos. 
Sobre esse direito fundamental da construção do estado de direito democrático que é a liberdade de expressão essa gente tem uma visão clara, só pode falar quem concorda com a cartilha da esquerda extrema, seja ela mais contemporânea ou mais ao jeito dos Partidos Comunistas do  século XX, tanto faz.  Quem não pensar como eles ganha de imediato o epiteto de pernicioso, falso, perigoso, fascista etc.
Atente-se ao que chegou o “argumentário” dos seguidores de Trostki, Estaline, Lenine e outros bons rapazes. Acusam  Marine Le Pen de fascista, pró-nazi, nacionalista e xenófoba. Pior, é acusada de ser tudo isso e de não o afirmar claramente de ser uma dissimulada perigosíssima populista.
Ora essa “esquerdalha” que mentiu e mente  ao mundo o tempo todo, que tem no seu ADN os campos de trabalhos forçados da Sibéria, os Gulag, milhões de mortes em nome da revolução do proletariado  e que continua a construir narrativas falaciosas sobre as maravilhas do socialismo e do comunismo que, sabemo-lo todos hoje até por o estarmos a sentir na pele, trouxe ao mundo a fome e a miséria mesmo em Países onde o potencial endógeno era imenso, age como se o estivesse a fazer em causa própria.
Essa horda de deslumbrados mente e constrói realidades virtuais por isso acha que toda a gente é igual e que toda a gente, seja qual for a sua linha de pensamento, age de forma diferente do que pensa. Mentirosos compulsivos, vendedores expertos da banha-da-cobra, acham-se todos moralmente superiores aos demais quando na verdade a sua moral vale tanto como um punhado de cascas de lapas.
Para uma coisa serviu esta polémica. Serviu, na verdade, para comprovar que quem paga manda e que, apesar do evento ser supostamente privado, quem paga todo aquele arraial somos todos nós. Isso mesmo disse  Paddy Cosgrave, o Irlandês que lidera o evento, “se o governo português pedir para retirarmos o convite a Marine Le Pen nós retiramos”. O respeitinho é bonito e fica bem a qualquer um mas esse respeitinho tem apenas uma “moral”, absolutamente teleológica, a “ética” do vil metal.
Fogo vos abrase a todos que o povo, esse, já arde literalmente em fogos florestais e figurativamente na fogueira da pobreza e da coleta de impostos diretos , indiretos e encapotados e não há websummit que nos livre dessa “canalha”.


São Lourenço, 17 de Agosto de 2018.

13 de agosto de 2018

Vasco Cordeiro não merecia esta gentalha!

São mais do que as mãezinhas até porque alguns trouxeram famílias inteiras, os cristãos novos e os “agamelados” (gente que apenas sabe e consegue viver sentada à mesa do Estado/Região) que se juntaram ao Partido Socialista no encalço de, a pouco custo, canibalizarem o regime e assim satisfazerem os seus apetites privados em lugar de servirem a coisa pública. Não há qualquer mal em servir o Estado/Região, bem pelo contrário, o mal vem ao mundo é quando esse desiderato é substituído para usar o estado/região em seu beneficio ou dos seus familiares.
Há muitos donos de muita coisa que é pública nesta região e há muita gamela que deveria estar a servir o Povo e está apenas a servir os canibais do regime.
O caso recente, divulgado por este jornal, sobre o desvio de um meio de socorro à revelia das decisões técnicas, para servir um familiar de um decisor é bem demonstrativo do que aqui escrevo.
São uns “meia-tijela”, inúteis e  incapazes de construir seja o que for que dignifique o próprio regime que acham eles ser outra coisa qualquer. Dão-se a ares de gente mas não vão além de maus hábitos aburguesados. Fumam charutos cubanos  mas sacodem a cinza para cinzeiros de reles cristal. Bebem chá e, outras infusões da moda, de mindinho em riste achando que é assim que deve ser pegada uma xicara. Alimentam-se ruidosamente de croquetes e empadas e espevitam os dentes no final entre um copo de gin agitado, tantas vezes, com recurso ao dedo indicador
O Partido Socialista de 1996 era muito mais do que a meia dúzia de socialistas puros e resistentes ao regime “amaralista” capitaneados por um perseverante Carlos Cesar. O PS de 1996 era um estado de espirito, uma atitude, um movimento que nasceu nas regionais de 1992 em volta do saudoso Mário Machado e que juntou socialistas, democratas cristãos separatistas e outros “istas” e que apesar de uma estrondosa derrota não atirou a toalha ao chão e 4 anos depois, em 13 de outubro de 1996 fez mudar os destinos desta Região de forma muito significativa. Estava quebrado um ciclo.
Muitos dos que hoje percorrem os corredores do poder nem eram ainda seres pensantes (se é que alguma vez pensaram) e a sua ignorância sobre a tenacidade e a força que foram necessárias para alterar o rumo dos Açores nessa altura, não lhes permite sequer perceberem que cometem os mesmos erros que levaram ao colapso do regime de então. Prepotência, arrogância, nepotismo, perseguição, conspiração e falta de noção dos limites das suas ações e a falta de discernimento acerca do poder que lhes foi confiado. O poder democrático é efémero e a sua conquista é quase tão dolorosa como a sua perca.
Muitos, como se usa dizer comummente, assentaram praça em general e por isso são incapazes de imaginar o que foi a luta dos soldados nas trincheiras do lado oposto à hegemonia do PSD de Mota Amaral. Outros ficaram a “caçar de espreita” até ao contar final dos votos naquela noite quente de outubro e como a coisa ficou muito periclitante quedaram-se à espera dos anúncios dos dias seguintes para decidirem o que fazer, onde se posicionar.

Apetece parafrasear Batista Bastos e perguntar: Onde estavas a  12 de Outubro de 1996?


Ponta Delgada, 09 de Agosto de 2018

11 de agosto de 2018

Coluna Liberal - Jornal Diário dos Açores 10 de Agosto de 2018

Quando falámos de liberalismo logo somos associados ao capitalismo, ao liberalismo meramente económico. Ora esse é o enorme erro que o grosso da coluna anti liberal incorre quando nega o liberalismo por reação ao capitalismo selvagem. O estado liberal não é apenas um estado que permite o livre comércio a liberdade de estabelecimento e a concorrência.
Na verdade, o Capitalismos, o liberalismos económico, é uma consequência do liberalismo lato senso não um fim em si mesmo. O estado liberal assenta essencialmente nas liberdades políticas, nas liberdades cívicas, ou seja nas liberdades do cidadão.
Os grandes inimigos do estado liberal são os inimigos da liberdade que muito embora andem com a boca cheia dela, escorrem-lhes pelos cantos dos lábios todos os tiques dos totalitarismos, sejam eles mais remotos no tempo ou mais atuais.
O estado liberal encerra em si mesmo um ideal que ultrapassa as questões da economia e das finanças de forma transversal. É um filho da modernidade, do rescaldo da Guerra dos 30 anos, da crise sucessória, do fim dos impérios. É um movimento que, hoje como no passado pós iluminismo, é uma corrente de pensamento que pretende defender o cidadão, individualmente, de qualquer tentativa de instalação de sistemas de pensamento único, cultura dominante ou controlo da expressão de ideias. Nesse sentido, o socialismo e o comunismo foram mais longe do que os regimes totalitários mais conservadores, condicionando, estabelecendo barreiras, destruindo e reescrevendo até a história, condicionando e anulando o exercício do pensamento divergente dos seus respetivos regimes.
A denominada Revolução Cultural Proletária na China, implementada a partir da segunda metade da década de sessenta de XX,  é o exemplo mais paradigmático de uma campanha politico-ideológica perpetrada sobre um povo para neutralizar todo e qualquer pensamento e prática cultural dissidente do regime em afirmação depois do grande fracasso económico decorrente do plano chamada de Grande Salto para a Frente que redundou naquela que ficou conhecida como a crise da Grande Fome Chinesa.
A divulgação das ideias liberais é hoje tão importante como foi no rescaldo do primeiro grande conflito mundial ou na destruição dos totalitarismos decorrentes do segundo grande conflito à escala global de onde emergiu e se reforçou o estado socialista o grande inimigo das liberdades dos cidadãos.
Todos somos atropelados, diariamente, por opressão do estado nas nossas vidas e são esses atropelos, esse ultrapassar de limites da sua ação, que os liberais, os defensores do estado liberal, combatem e devem combater na espuma dos dias.
Revisitando alguns textos publicados nesta coluna para evitar repetições de ideias, dei comigo pensando o quão importante é, afinal, repetir algumas dessas ideias para ir deixando alertas sociais para a emergência de certos totalitarismos.
Hoje, com o permanente escrutinar de certas instituições do estado, nomeadamente da justiça , instituições essas que  já nem  deveríamos questionar, corremos o risco de atropelar direitos liberais adquiridos desde o iluminismo e que foram atropelados de forma consideravelmente perniciosa para a humanidade na emergência dos totalitarismos do século XX decorrentes, principalmente  da Primeira Guerra Mundial mas também do segundo conflito do qual emergiram o Socialismo Soviético,  o regime chinês e as revoluções populares da chamada ibero-américa que no seu conjunto fizeram já milhões de vitimas humanas e povos oprimidos e famintos.
Hoje, mais do que nunca, porque as ações do estado são mais encapotadas, mais dissimuladas e mais difíceis de medir os seus limites, mais necessidade temos de estarmos atentos para as situações que, de uma forma ou de outra, nos privam de certas liberdades individuais e até mesmo coletivas.
Vigilância é a palavra de ordem para os dias que correm.

6 de agosto de 2018

Tende Misericórdia de nós Senhor

São cerca de quatrocentas em Portugal e apoiam mais de 150 mil pessoas, na sua grande maioria idosos e desvalidos. Falo das misericórdias portuguesas, uma vasta faixa da população portuguesa é apoiada por essas instituições multiseculares de inspiração cristã. São catorze as obras de Misericórdia, sete corporais e sete espirituais, que estão na origem da instituição das Misericórdias Portuguesas por influência da Rainha D. Leonor de Lencastre. Durante muitos séculos da nossa história, estas foram as únicas instituições que deram apoio aos mais carenciados.
Hoje, a grande maioria das misericórdias portuguesas continua a ter uma importância muito relevante no apoio aos mais carenciados e no combate à pobreza e consequentemente à exclusão social. Porque o Estado não está onde devia estar para estar onde não deve, alguém tem que fazer o seu papel.
Nos últimos tempos, na espuma da “silly season”, depois de em 2016 alguns órgãos de comunicação social regionais terem alertado para situações de eventuais maus tratos nas unidades de cuidados continuados da Santa Casa da Misericórdia de Ponta Delgada, uma televisão nacional trouxe ao conhecimento dos portugueses notícias sobre esses supostos maus tratos.
Não vi nem vou ver a referida reportagem. Nem sequer é o teor da mesma que me importa analisar mas sim a forma despicienda e leviana como são feitos certos julgamentos públicos sem que se deixem as instituições tratarem os assuntos como eles devem ser tratados.
“Houve queixas ao Ministério publico”, comenta-se por aí nas redes sociais. Há-as todos os dias. E? Uma queixa no Ministério Público implica culpa formada? Condenação? Sequer pressupõe um facto? Claro que não!
Houve notícias nos jornais e televisões! Gritam tresloucados e ávidos de sangue os mais atrevidos e assíduos comentadores dos grupos do facebook e tweetam os mais presunçosos inocentes. E?
Esta é uma questão que nos devia preocupar a todos, pois que ninguém está livre de uma cabala ou de lhe ser encontrado um qualquer “rabo-de-palha” onde alguém possa chegar um fósforo.
Por estes mesmos dias, a direção de uma Juventude Partidária, liderada por aprendizes de “gameleiros” ainda cheirando a cueiros, vociferou acerca de questões da justiça e do direito. A solução para todos os males, segundo essa gente, passa pela instituição da delação premiada e pela inversão do ónus da prova. Medidas essas consideradas de relevante importância para o combate ao crime.
Veja-se só o que fazem esses julgamentos mediáticos. Levam a que esses imberbes “jovens turcos” direcionem, ora por mero populismos ora por simples ignorância, o seu discurso no sentido de um certo retrocesso civilizacional.
Para entendermos as morosidades do sistema judicial e as suas bonomias, temos que nos centrar na história do direito que se confunde, claramente, com a história do governo da Polis e da construção do Estado-moderno.
O tempo da notícia, não é o tempo da justiça. O direito não é jornalismo e as garantias que têm e devem ter os cidadãos sobre as eventuais prepotências dos agentes do Estado não são coisa que tenha sido fácil conquistar. O regresso a mecanismos como a delação premiada, e com maior gravidade e alcance  a inversão do ónus da prova, potenciam um ror de atropelos às garantias dos cidadãos inaceitáveis nos níveis de democracia que, mesmo deslastrada, a sociedade portuguesa já atingiu.
O regresso aos julgamentos no largo do pelourinho, que hoje pode aferir-se, são as redes sociais e as gordas nas capas dos tabloides, é um retrocesso civilizacional enorme.
Aos jovens aprendizes de politiqueiros recomenda-se que estudem filosofia antes de se inscreverem numa juventude partidária.


São Lourenço, 03 de Agosto de 2018 

29 de julho de 2018

Você sabe onde fica Malbusca?

Na costa sul da Ilha de Santa Maria entre a fajã de aluimento da Paria  Formosa, praia de areias finas, claras e de fundos visíveis pela limpidez das suas águas,   e O Barreiro da Piedade, área de basalto alterado com milhares de anos de existência e referência para os geólogos, e ainda a  Ribeira de Maloás onde se podem encontrar, a 220 metros de altitude, uma queda de água com cerca de 20 metros de altura constituída por um conjunto de formações geológicas em disjunção prismática que, nos Açores, apenas é visível naquela parte  da Ilha de Gonçalo Velho,  em zonas recônditas da costa norte da Ilha de São Miguel entre  a Lomba de São Pedro e os Fenais da Ajuda  e na conhecida Rocha dos Bordões na Ilhas das Flores ,  pelo meio fica o planalto de Malbusca.
Trata-se de um pequeno planalto, absolutamente rural com um disperso casario típico e que já foi mais habitado do que é, que em tempos teve uma Escola Primária do Plano dos Centenários mas que hoje é apenas um lugar de passagem para turistas e de habitação para uma meia dúzia de famílias locais e outra meia dúzia de estrangeiros e  filhos da diáspora açoriana.
O que tem de especial Malbusca para estar a ser notícia há já algum tempo? Tem de especial que é ali naquele lugar que Governo Regional e investidores internacionais querem instalar um vasto campo de lançamento e aterragem de foguetes para satélites.
Diz-se que a Europa carece urgentemente de entrar nesse negócio e que Portugal tem um espaço geográfico privilegiado para receber um investimento de 200 milhões de dólares para o efeito. Ora aqui os estudos que a jeito escolhem Malbusca partem de dois pressupostos absolutamente errados. Primeiro é dizer que a Europa precisa sem saber se os Açores precisam dessa base seja para o que for. A outra é dizer que Portugal possui uma posição estratégica privilegiada quando quem detém essa posição é o arquipélago das Ilhas Açores.
Quem decide esses investimentos não sabe onde é Malbusca nem quer saber quem vive e viverá perto daquele lugar. Não quer saber da  nossa “Calçada do Gigante”, da nossa Praia ou das nossas gentes. Quem decide este tipo de investimento apenas procura um otário que permita a sua instalação no seu território em troca de uma mão cheia de promessas. Procura um deslumbrado que se deslumbre ainda mais com promessas de desenvolvimento. Procura um politico ávido de cair no goto da gente desesperançada que o sustenta.
Otários há muitos e há os que acreditam nos vendedores da banha da cobra (Santa Maria sabe bem isso o que é, já caiu em muito “conto do vigário”)e há os que acreditam em regressos ao passado glorioso da aviação civil, um passado em que uns viviam muito bem para uma grande maioria crescer em casa de chão térreo e cozinha no lar em lume de lenha.
Os políticos que vão decidir sobre este centro espacial em Santa Maria não vão cheirar a pólvora queimada nem os seus filhos vão crescer contaminados pelas radiações das antenas. Vão estar muito bem resguardados nos corredores do poder e vão ter o suficiente para viverem longe e protegidos. Mas há os políticos locais que, certamente, querem ver os seus filhos crescerem e viverem nesta terra e com garantias de viverem saudavelmente e sem estarem, daqui a uma dezena de anos, a falar de índices de doenças cancerosas elevados ou em descontaminação.
Aos políticos de cá (Santa Maria) deixo um apelo, não permitam que decidam por nós e por vós. 
Aos políticos de fora faço outro apelo, digam-nos a verdade para que possamos decidir. 
Numa altura em que tanto se fala de democracia direta e em orçamentos participativos (absurdo e negação das bonomias do sistema parlamentar), tenham a coragem de debater este assunto com seriedade e abertura com todos os interessados, caso contrário, fogo vos abrase a todos no planalto de Malbusca.

São Lourenço, 27 de Julho de 2018 

Jrnal Diário dos Açores Edição de 29 de Jukho de 2018

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