31 de março de 2020

Lazareto?


Chamam-nas de medidas de exceção na contenção do SARS-Covi-2.  Trata-se de confinamento em unidade hoteleira em regime de pensão completa e autorização para circular nas zonas comuns (recreio). Há quem ache isso tudo uma medida de grande alcance, de enorme responsabilidade e de coragem. Independentemente da sua necessidade e da sua eficácia, que não discuto, entendo ser um abuso de poder. Sim um abuso, uma prepotência e uma arrogância improprias dum Estado Democrático e de Direito. Nem o diploma do Presidente da República, nem o diploma do Governo, preveem medidas de confinamento de cidadãos em unidades que não sejam hospitalares. Já sei, vão dizer-me que é necessário, e até talvez seja, mas então isso demonstra que quando legislaram não sabiam o que estavam a fazer, fizeram-no apenas para legalizar as medidas então ilegais e que por boa vontade dos Portugueses já estavam no terreno. Muitos dos que clamam pela libertação do Rui Pinto, ou estão calados ou pior, tecem loas ao confinamento de cidadãos num quarto de hotel contra sua vontade. Estranho, muito estranho.


In Jornal Açoriano Oriental, edição de 31 de Março de 2020

25 de março de 2020

CEGANDO 3



O arquipélago dos Açores não fica isolado e protegido de ameaças externas graças ao centralismo dos mandantes de Lisboa. Nunca tive dúvidas! Em cada Português existe um inimigo das Autonomias, apenas uns disfarçam melhor do que outros. Estou ciente, cada vez mais, de que o regime das autonomias constitucionais apenas existe porque, assustados com os gritos de libertação dos Povos, Lisboa cedeu nos seus apetites colonialistas um poucochinho para calar as ondas independentistas. Traídos pelos seus pares, os Povos Insulares entraram de alma e coração num regime que, cuidavam, era de livre administração dos Açores pelos Açorianos, e da Madeira pelos Madeirenses. Os de sempre, os que já vinham acomodados dos tempos dos Distritos e os outros que, ainda imberbes, rapidamente aprenderam a arte da vida boa sem ondas, sentaram-se no poder desse sistema que não é nem de perto o que os Açorianos e Madeirenses desejam, mas o que Portugal permite que tenhamos. Se o caso fosse de Guerra no sentido literal do termo, essa gentalha não hesitaria em atirar-nos para as trincheiras como carne para canhão. 


In Jornal Açoriano Oriental edição de 24 de Março de 2020

19 de março de 2020

Cegando 2


O encerramento de fronteiras e consequentemente dos Aeroportos dos Açores é competência exclusiva do Governo da República. Esta é, tal como a questão das Lajes, uma das questões que carece ser repensada no aprofundamento da autonomia dos Açores. Na verdade, esta é também uma daquelas questões que deveria levar os Governos Regionais a uma espécie de “desobediência civil”, teriam, certamente, o apoio dos povos .  A contenção de um surto desta natureza não se faz com “medidinhas” nem com “meias tintas”. Ambas as Regiões são pobres, incapazes de gerar recursos suficientes para manter um nível de financiamento adequado ao sector da saúde, os meios complementares de diagnóstico são escassos e mesmo nos casos em que esse serviço está convencionado com os privados, não está ao alcance de todos no tempo desejável. Não estamos à altura de lidar com uma pandemia desta natureza, a única coisa que podemos fazer é fecharmo-nos, isolarmo-nos. É ver os patéticos globalistas a defenderem o isolacionismo. Quando o fogo chega aos seus “rabos-de-palha, as convicções esvaem-se. Estão cegando.

In jornal Açoriano Oriental, edição de 17 de Março de 2020

11 de março de 2020

Caciquismo




Leio o comunicado do último Conselho do Governo e há apenas duas palavras que me assaltam a alma, eleitoralismo e caciquismo. Quanto ao eleitoralismo, assalta-me aquela pregunta: Deve o Governo deixar de governar no último ano da legislatura? Precisamente por haver eleições, fica claro que não, bem pelo contrário. O Governo deve trabalhar e muito em especial nesse último ano de legislatura. No entanto, deve fazê-lo para encerrar um ciclo e não lançar projetos e primeiras pedras; Deve trabalhar para ara fechar processos e não para dar inicio a processos novos; Deve esforçar-se para mostrar o trabalho feito e não apenas as boas intenções futuras; Deve ter soluções e não propostas, deve ter respostas e não perguntas. Aquilo a que temos assistido nos últimos dias não é governação, não é oposição, não é política, é aquilo a que alguém, muito brilhantemente, chamou de “eventologia”. Já no que concerne ao caciquismo, ele é a vetusta ferramenta para a perpetuação do poder. Roça muitas vezes o nepotismo disfarçado de opções democráticas, toca tangencialmente o carácter disfarçadamente dinástico da democracia do tipo ilhéu.


In Jornal Açoriano Oriental, edição de 10 de Março de 2020.

4 de março de 2020

Cegando



O Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal já nos habituou a um certo padrão de ironia que roça a falta de educação. Bem sei que há vezes em que falta paciência para “paninhos quentes” e banhos de “água de rosas” e é preciso ser-se curto e grosso na forma e no conteúdo. Curto e grosso não significa grosseiro como é hábito no Sr. Santos Silva. Sempre que se tratam questões relacionadas com os Açores e com as relações euro-atlânticas o Sr. Ministro arrepia-se eriça-se e toca de mandar a malta tomar “banho de malvas”. Como “quem não se sente não é filho de boa gente” Vasco Cordeiro, desta vez, fartou-se e tendo o Ministro usado da Ironia para ofender os Açores através do sempre acutilante Deputado Paulo Moniz. Vasco Cordeiro disse chega e quase que se “passava dos carretos” e vai dai responde à letra e com clareza. O Sr. Ministro está, de facto, “cegando” e estamos todos ficando cansados da forma como Portugal olha os Açores e como menospreza as relações euro-atlânticas sempre de relevante importância para Açorianos. Estes Portugueses estão cegando.


In Jornal Açoriano Oriental, edição de 03 de Março de 2020

27 de fevereiro de 2020

2 Margens 2020.02.27

Edição nº 20 da terceira série do programa 2 margens, na Açores-TSF, 2020.02.27
https://www.acorianooriental.pt/files/multimedia/podcasts/50_Duas_Margens/14238.mp3?fbclid=IwAR0zQUKjqKtNJPhU51K4iGRyGOHJSGw2uTb0JD03hEM9eMgN2qm_xvGAPWc

Entrudo


Malassadas, coscorões, bailes e bailinhos, fantasias e costumes, máscaras e desmascarados, mais ou menos formais mais ou menos regados com cargas etílicas, as tradições carnavalescas do Povo Açoriano vão se mantendo um pouco por todo o lado. Carnaval é na Terceira, dizem uns, outros que é na Graciosa, alguns dizem que é em São Miguel e outros ainda acham que só no faial é que se comemora condignamente o caminho para a Quaresma, já que no Pico a grande tradição é a matança do porco na quarta-feira de cinzas. Certo é que em todas as ilhas dos Açores há uma tradição diferente e é isso que faz de nós um Povo singular, um Povo que vive as mesmas festas de modo diferente e não há uma única forma comum a todas as ilhas, fruto do isolamento enorme que viveram até há bem pouco tempo. “Guerrear” com limas cheias de água foi uma tradição decorrente de uma batalha de flores que hoje se faz, maioritariamente, com sacos de plástico e balões, tudo muito mais ecológico do que andar a colher flores para atirar uns aos outros, goste-se ou não, a batalha é uma tradição.


In jornal Açoriano Oriental edição de 25 de Fevereiro de 2020

19 de fevereiro de 2020

Matar Fascistas

Na sinopse de uma peça de Teatro levada à cena no Nacional D.MariaII, ou sejas, paga pelos impostos de nós todos e de alguns outros cidadãos da União Europeia, pode ler-se uma espécie de incitamento ao ódio que para lá de lamentável chega a ser criminoso. “Há lugar para a violência na luta por um mundo melhor? Esta família mata fascistas. É uma tradição com mais de 70 anos que cada membro da família sempre seguiu. Hoje, reúnem-se numa casa no campo, no Sul de Portugal, perto da aldeia de Baleizão. A mais jovem da família, Catarina, vai matar o seu primeiro fascista, raptado de propósito para o efeito.” É claro que há lugar à violência na luta por um mundo melhor, está nos livros e até em artigos publicados pelo autor desta crónica e citados internacionalmente, o que não há lugar, pelo menos por hora, é a este tipo de incitamento à violência encapotado em cultura e sob o manto da liberdade de expressão. Este tipo de atividade constitui, de acordo com o código penal em vigor, crime punível de 6 meses a 8 anos de prisão. Onde anda o Ministério Público?

In Jornal Açoriano Oriental, edição de 18 de Fevereiro de 2020

12 de fevereiro de 2020

Trumpalhada

Bem ao seu jeito mediático e exibicionista Donald Trump fez, na semana passada, aquilo a que se pode chamar uma mutação do tradicional discurso do Estado da União num espectáculo de variedades. Provocou o Regime de Maduro & Friends, mandou recados para dentro do seu Partido, apelou à participação dos Americanos na mudança, desafiou os democratas e ainda conseguiu fazer com que Nancy Pelosi cometesse um dos mais infantis erros que alguém na sua posição poderia cometer, rasgar um discurso em frente às câmaras, em direto, e enquanto o Presidente ainda o proferia e depois de ter aplaudido de pé algumas das suas intervenções. Este episódio e o acumular de erros que os Democratas têm vindo a cometer desde a eleição de Tump em 2016, fizeram com que o Presidente atingisse os níveis mais altos de popularidade desde a sua investidura. Com o desemprego mais baixo dos últimos 50 anos e a economia a crescer como não se registava desde 1995, Trump tem a linha aberta para a reeleição para o seu segundo mandato. Do outro lado, Bernie Sanders e Elizabeth Warren  ainda não perceberam “Porque não houve socialismo na América”.

In jornal Açoriano Oriental edição de 11 de Fevereiro de 2020

30 de janeiro de 2020

Brexit



Se há incontornáveis filósofos políticos na história da modernidade,  metade deles medraram no Reino Unido. Para confirmarmos essa preponderância britânica e a sua dedicação às grandes questões da humanidade bastaria citar nomes como Hobbes, Locke ou Hume, porventura o mais importante pensador do Iluminismo Britânico, ou até Hayek que, nascido austríaco, se naturalizou britânico e em Londres desenvolveu grande parte das suas teorias económicas e monetárias. Ainda recentemente perdemos Scruton que em 1998 trouxe aos escaparates An Intelligent Person’s Guide to Modern Culture” obra que nos ajuda a perceber um conservador-liberal. A Rainha Vitória e Churchill são outras duas referências nas relações internacionais. Também Boris Johnson, é uma lufada de ar fresco nas Ilhas Britânicas desde o desaparecimento de Margaret Thatcher. Um conservador-liberal, irreverente, um intelectual de referência e um jogador da alta política que leva o Reino Unido à porta de saída da União Europeia e deixa essa transformada numa espécie de Vénus amputada.

In, jornal Açoriano Oriental, edição de 28 de Janeiro de 2020

22 de janeiro de 2020

Lagoa do Fogo



Falhei, inadmissivelmente, as primeiras duas crónicas do ano. Não porque não tenha havido assunto para escrever mas por manifesta falta de tempo. Primeiro a família, depois o trabalho que me poe o pão na mesa e depois o resto. Nesse resto, que não é nem pouco nem desprezível, cabem os meus Açores, onde nasci, escolhi viver e acima de tudo ser cidadão ativo e “irrequieto”. É difícil viver nos Açores assim, sempre foi difícil viver nos açores onde até os ricos são pobres e onde o poder, desde sempre, tende a assumir laivos de arrogante totalitarismo ou, no mínimo, tende ao pensamento único. O poder vai agora, só depois de instalada a polémica pública, ouvir o Povo, numa abertura feita de palavras mais do que de atos, acerca do que agora chamam de estudo prévio mas antes era projeto de um novo miradouro, cheio de contemporaneidade e materiais importados, retretes e afins, ali para os lados da Lagoa do Fogo. Bravo, seria um ato louvável, não fora ele feito apenas a reboque das criticas publicas e tal como faz o “cachorro vagabundo” ganindo e com o rabo metido entre as patas traseiras escondendo as partes escassas da sua virilidade.


In Jornal Açoriano Oriental edição de 21 de Janeiro de 2020

2 de janeiro de 2020

Diário dos Açores 2020.01.01


1 - Do que vivemos em 2019, sente que 2020 vai ser muito diferente nos Açores, no plano geral, em termos económicos e políticos?

2020 é ano de fim de quadro comunitário e de eleições regionais , supostamente seria um ano de muitas metas e de muitos desígnios, convulsões até. O orçamento regional vai ser maior do lado da receita por força do aumento das transferências da república ao abrigo da Lei de financiamento das Regiões Autónomas. Na decorrência desse aumento da receita, apesar do mesmo indiciar o arrefecimento da economia em 2018, havendo mais alguma disponibilidade financeira e orçamental e sendo a economia dos Açores muito dependente do orçamento regional, é natural que se registem pequenas evoluções na economia das nossas ilhas. No entanto, o grande problema económico da nossa comunidade política continua a ser a debilidade do tecido empresarial que ainda ficou mais fragilizado depois das crises económica e financeira que vivemos à escala mundial. As pequenas e médias empresas que resistiram à crise ficaram muito descapitalizadas e as que desapareceram não foram substituídas nem é possível que venham a sê-lo. A regulação não permite que os empresários retomem a atividade económica, ou  se reformam, ou vão para o desemprego e a indigência e tornam-se trabalhadores por conta de outrem. Na verdade, perde-se muita criatividade e empreendedorismo por via da regulação demasiado apertada e desnecessária. O Estado/Região é obsessivamente regulador, está-lhe no ADN. Uma economia altamente regulada e centrada no estado, e um sector de investimento e inovação “keynesino” assente em subsídios estatais cuja atribuição é só por si um instrumento regulador pernicioso, não cresce sustentávelmente, promove enormes desigualdades sociais e impossibilita uma franja significativa da sociedade de ter acesso às mais diversas oportunidades. As decisões políticas condicionam demasiado o plano económico. Uma coisa é certa, há um crescimento do sector terciário e uma certa consolidação dos subsectores da hotelaria e restauração e isso poderá aliviar um pouco os números do desemprego no próximo ano e consequentemente terá reflexos nos números relativos à pobreza. Mais investimento público menos desemprego, menos pobreza, é o que se espera em 2020, ano de ir a votos nos Açores.


2 - As eleições regionais são acontecimento incontornável neste 2020. Qual a sua perceção em termos de estratégias dos partidos e da mobilização dos eleitores?

Analisando em jeito aligeirado o que poderá acontecer nos Açores no próximo ano do ponto de vista político digamos que há uma meia dúzia de análises que se podem fazer sendo que todas elas passam, incontornavelmente pelas eleições regionais de outubro próximo. Na realidade, 2020 é um ano importante para a democracia e para a autonomia dos Açores. Temos eleições regionais lá para Outubro e as eleições são a festa da democracia sendo as regionais a grande festa da autonomia constitucional. A próxima legislatura será a última em que o Partido Socialista pode indicar Vasco Cordeiro, o maior ativo político que o PS detém no momento na Região, para o cargo de Presidente do Governo dos Açores uma vez que por via da lei de limitação de mandatos Vasco Cordeiro será o primeiro Presidente dos Açores a não ter a possibilidade de cumprir uma quarta legislatura. A implantação que o Partido Socialista  já tem nos Açores, mercê de clientelas políticas que foi construindo e consolidando ao longo dos últimos 23 anos de poder e o capital político do seu líder, deixam claro quem será o grande vencedor das eleições do final do ano. Não pode, no entanto, o Partido Socialista tomar isso como certo. Há, na verdade, idiossincrasias locais que podem alterar radicalmente o sentido de voto e há algumas franjas do eleitorado esclarecido, mais urbano  e mais volátil que manifestam já algum descontentamento com a governação socialista. Basta um descuido e o PS pode perder deputados numa ou duas ilhas das mais pequenas e mais um ou dois nas ilhas maiores. Cabe à oposição fazer também o seu trabalho. Vasco Coreiro parte com muita vantagem para esta corrida desigual, “nos primeiros cinquenta metros leva cem de avanço”.

Do lado da oposição a novidade é que vamos assistir a um PSD, com uma nova liderança. Desejado pelos militantes, empurrado pelo aparelho, levado ao colo pelos parceiros, José Manuel Bolieiro tem a responsabilidade de liderar o maior partido da oposição e de fazer pontes com os autarcas e restantes forças partidárias, rumo a 2024, não lhe é exigido que ganhe eleições agora, seria injusto fazê-lo. O Bloco de Esquerda aproveitará a boa performance eleitoral nacional para tentar, nos Açores, conquistar a condição de 3ª força política e posição de charneira caso o PS tenha algum desaire eleitoral que, só pode acontecer, por razões excepcionais como já referi. O Bloco ultrapassará assim o CDS, de onde se podem esperar ainda algumas surpresas nos próximos tempos com o congresso marcado e adiado para este início de ano.
Surpresas podem também vir das novas forças políticas emergentes, PAN, CHEGA, ALIANÇA, INICIATIVA LIBERAL e LIVRE, sendo que os únicos, destes novos partidos, que estão minimamente organizados nos Açores são o Aliança e o PAN, todos os outros carecem encontrar figuras e construir estruturas para poderem alcançar o objectivo de eleger deputados.
O fator surpresa pode funcionar, por exemplo em São Miguel, se um qualquer destes partidos, mais à direita, confirmando-se a falta de habilidade do CDS em recuperar o seu eleitorado perdido, conseguir um cabeça de lista com peso eleitoral significativo e uma equipa minimamente aceitável e assim alcançar o desiderato de eleger um Deputado.

De resto, não se podem esperar grandes surpresas, o eleitorado corresponderá à chamada quanto mais os partidos da oposição demonstrarem vontade e apresentarem alternativas, caso contrário teremos Vasco Cordeiro num passeio tranquilo até Outubro de 2020 e um Partido Socialista empenhado em encontrar, ou perdido em lutas fratricidas, pela sucessão ao “Gigante da Covoada”.


In Jornal Diário dos Açores, edição de 01 de Janeiro de 2020.

31 de dezembro de 2019

Açores primeiro



SATA sempre! São duas parangonas que jamais olvidaremos. Não se cumpre a Autonomia dos Açores sem a SATA e as suas ligações regulares entre ilhas. Na verdade a companhia aérea regional é um instrumento fundamental de coesão social e territorial e tal como as mais amplas ou simples liberdades só sentiremos a sua falta depois de a perdemos. Por isso, tal como é obrigação de cidadania promovermos as liberdades coletivas e individuais, é dever de cidadania promover e defender a nossa companhia aérea. Na passada semana, confrontados com uma greve, absolutamente legitima até mesmo pelo “timing” e com a massa salarial ameaçada por uma ave de arribação que foi logo dizendo que “ vai doer”, a conjugar com um final de Outono em transição para o Inverno dos mais tempestivos dos últimos anos, foi notável o esforço hercúleo que trabalhadores de terra e do ar fizeram para garantir que todos chegariam aos seus destinos a tempo de passar o Natal junto daqueles com quem desejavam estar. Fomos os primeiros, entre os portugueses, a ter uma companhia de aviação e saibamos manter este importante instrumento sempre ao serviço de todos os açorianos e não dos interesses apenas de alguns.


In Jornal Açoriano Oriental, edição de 30 de Janeiro de 2019

26 de dezembro de 2019

Fui ao Mar...



Buscar Laranjas” … Mas só encontrei tangerinas. Perdido nas páginas da poesia de  Pedro da Silveira, recentemente editada pelo Instituto Açoriano de Cultura e cujo título achei delicioso,  não resisti a completar o mesmo com um tema natalício. O Natal açoriano, católico, conservador, reserva aos aromáticos citrinos um lugar especial ao lado do trigo e da ervilhaca. Junto ao Menino, deitado numa almofada de damasco, deixam-se as mais bonitas tangerinas. Nunca soube o significado deste costume, mas também não é isso que interessa. Importam sim, as palavras de Pedro da Silveira no seu magistral poema intitulado “gazetilha” que calha bem nas nossas “guerras2 pelos assuntos do mar e dos foguetões.

 “A liberdade que sei
E tenho por minha lei
Senhores políticos de Lisboa
Temo que não seria essa de que vos fazeis promessa
Tão géneros tão boa… gato escaldado (demais insulano dos Açores)
Fazem-me suar terrores
As liberdades plurais
Desde russas a francesas
Em traduções portuguesas
Chamem-lhes só liberdades
E a vossa
Pois seja a vossa vontade
(…)
Adeus passem muito bem
Senhores filhos da mãe."



In jornal Açoriano Oriental edição de 24 de Dezembro de 2019

Painel_Económico

Correio económico - Quais os factos mais relevantes ocorridos em 2019 nas áreas económica e política nos Açores?

Nuno Barata - A relevância económica de alguns factos ocorridos ao longo de 2019 traduz-se muito facilmente num discurso sobre o crescimento. Na verdade, este foi o ano em que a economia dos Açores mais cresceu, contrariando o abrandamento do PIB de 2018. Certamente a indústria do turismo tem uma enorme responsabilidade neste crescimento da economia e na ligeira baixa do desemprego. No entanto, este foi também o ano em ficamos a saber que a pobreza nos Açores aumentou muito significativamente em especial na Ilha onde foi criada, supostamente, mais riqueza. Este facto, confirmado por números irrefutáveis, vem confirmar o que venho a dizer quer aqui neste painel quer em outros fora ou espaços mediáticos em que tenho participado. O desenvolvimento insustentável mas sustentado constrói ilusões que tarde ou cedo virão denunciar a decadência das contas públicas e um galopante aumento das desigualdades sociais e exclusão dos mais pobres. Infelizmente os montantes de despesa de capital das empresas não se reflete no aumento do VAR e por isso não é possível remunerar melhor a força de trabalho nem sequer a qualificar da melhor e mais eficaz forma.
Do ponto de vista político o ano de 2019 fica marcado mais uma vez pelas conclusões  do Tribunal de Contas sobre  a conta da Região e à leviandade com que são tratadas as sucessivas e recorrentes recomendações daquele órgão de soberania.
2019 Fica ainda marcado pela perca incalculável e prematura de um dos mais promissores políticos dos Açores, um dos poucos com dimensão nacional e internacional. Seria muito injusto não lembrar nesta hora de balanço a partida do André Bradford, o Homem, o pai e marido, o humorista, o escritor, o melómano mas sobretudo o político nesta fase em que a humanidade carece de mais políticos e menos tecnocratas.


In jornal Correio dos Açores edição de 20 de Janeiro de 2019, suplemento Correio Económico.

18 de dezembro de 2019

Selvajaria



Mais uma vez as claques organizadamente desorganizadas, sem Rei nem roque, gente sem dono, tomaram conta de Ponta Delgada e fizeram o que menos se espera, ou talvez não, de um grupo de adeptos desportivos. Vandalismo quanto baste e apelo à violência. A prática desportiva, mesmo que de alta competição e negócio económico e financeiro, pressupõe bons hábitos. A estada do Santa Clara, ou de outro qualquer clube dos Açores, na linha da frente do futebol português é uma enorme valia para a indústria do turismo, quer em termos de notoriedade de um destino que está em construção quer em termos de captação de fluxos de viajantes em épocas de menos procura. Ao que me parece, de tantos planos e projetos, quem nos governa pretende desenvolver essa indústria nos Açores de modo a que venha ocupar o espaço económico que se vai esvaziando com a perca de rendimentos do sector primário e a incapacidade de desenvolver o terciário sem ser pela via dos serviços prestados a quem nos visita em lazer. Da parte de quem vem fruir do que é nosso, exige-se que seja mais civilizado, sob pena de tanta selvajaria criar anticorpos na sociedade Açoriana.


In Jornal Açoriano Oriental, edição de 17 de Dezembro de 2019

16 de dezembro de 2019

Reserva é reserva.


Há uma razão de peso, que na verdade encerra em si mesma várias outras ponderosíssimas razões, para não permitir a construção do miradouro e do subterrâneo na cumeeira da Lagoa do Fogo, chama-se: Sustentabilidade. Este projeto não garante um único dos principais parâmetros da sustentabilidade, são eles o económico, o social e o ambiental.
Do ponto de vista económico este é um projeto sem retorno direto, ou seja só gera gastos (custo) não gera ganhos (lucros) como tal não é sustentável economicamente.
Se atentarmos à questão social até podemos admitir que o mesmo alimente alguns egos, mas na verdade não há ganhos sociais, bem pelo contrário, vai gerar algum emprego temporário na altura da implementação e da construção mas posteriormente essa motricidade social morre pela base.
Da ótica da sustentabilidade ambiental nem se fala, não há qualquer tipo de benefício, bem pelo contrário. Este projeto ao desenvolver-se numa área da Rede Natura 2000 deveria ter tido em consideração a movimentação de terras necessária, a questão dos solos no local e a sua instabilidade e permeabilidade ou impermeabilidade bem como a existência de biótipos diversos. Promove, além do mais, a betonização de uma área considerável para estabilização do talude e cria condições, ao invés do anunciado, para o aumento da carga humana no local. Não são usados materiais autóctones, aliás a esse respeito tem havido uma enorme falta de respeito, transversal à sociedade açoriana.
Há muito para fazer na reserva Natural da Lagoa do Fogo, muitíssimo mesmo, poderia começar por um projeto de irradicação das gaivotas por exemplo, um caso de saúde pública, ou até por uma fiscalização efetiva do uso da cratera e da sua área molhada, coisa que não existe, fiscalizar nesta Região é um eufemismo. Podiam mesmo proceder à limpeza de infestantes na zona, mas não, tudo isso dá trabalho e não mostra factos transformáveis em votos, ao invés os governantes “facilitistas” promotores de notícias em vez de gestores da coisa comum, preferem fazer o que tem sido costume, derramar dinheiro que é o mesmo que dizer betão em cima de tudo e de todos.
Toda a zona entre os Foros da Ribeira Grande e os Remédios da Lagoa, é propícia a ter controlo de acessos e tem atrativos suficientes para se implementar um sistema de shutllle hop on hop of, esse sim capaz de garantir o controlo de acessos e a pressão sobre o local, não apenas de pessoas mas principalmente de viaturas, criaria emprego, valor acrescentado e sendo usados autocarros mesmo que convencionais o ganho ambiental seria brutal. No mesmo trajeto e pagando sempre o mesmo bilhete, que nunca poderia ser barato, o utilizador pode fruir de, pelo menos, quatro paragens com potencial turístico, a saber: Caldeira Velha; Miradouro da Lagoa do Fogo; Miradouro do Pico da Barrosa; Trilho da Janela do Inferno. Isso para citar apenas aqueles que já são utilizados pois se quisermos podem ainda falar da subida do Pega-Cão, dos Cachaços; da volta à lagoa pela zona do Pico da Vela, Lombadas e muitos outros que não são massificados mas que importa ir dando a conhecer para efetivamente se aliviar as zonas onde é efetivamente perniciosa a pressão humana.
Não está em causa a qualidade nem do projeto nem a opção estética, está em causa a Lagoa do Fogo, uma das nossas “Galinhas dos Ovos de Ouro” que este governo está a correr o risco de matar ainda antes dela por o primeiro ovo.


In, Jornal Diário dos Açores, edição de 15 de Dezembro de 2019

Arquivo do blogue