Edição nº 20 da terceira série do programa 2 margens, na Açores-TSF, 2020.02.27
https://www.acorianooriental.pt/files/multimedia/podcasts/50_Duas_Margens/14238.mp3?fbclid=IwAR0zQUKjqKtNJPhU51K4iGRyGOHJSGw2uTb0JD03hEM9eMgN2qm_xvGAPWc
27 de fevereiro de 2020
Entrudo
Malassadas, coscorões, bailes e
bailinhos, fantasias e costumes, máscaras e desmascarados, mais ou menos
formais mais ou menos regados com cargas etílicas, as tradições carnavalescas
do Povo Açoriano vão se mantendo um pouco por todo o lado. Carnaval é na Terceira,
dizem uns, outros que é na Graciosa, alguns dizem que é em São Miguel e outros
ainda acham que só no faial é que se comemora condignamente o caminho para a
Quaresma, já que no Pico a grande tradição é a matança do porco na quarta-feira
de cinzas. Certo é que em todas as ilhas dos Açores há uma tradição diferente e
é isso que faz de nós um Povo singular, um Povo que vive as mesmas festas de
modo diferente e não há uma única forma comum a todas as ilhas, fruto do
isolamento enorme que viveram até há bem pouco tempo. “Guerrear” com limas
cheias de água foi uma tradição decorrente de uma batalha de flores que hoje se
faz, maioritariamente, com sacos de plástico e balões, tudo muito mais
ecológico do que andar a colher flores para atirar uns aos outros, goste-se ou
não, a batalha é uma tradição.
In jornal Açoriano Oriental edição de 25 de Fevereiro de 2020
19 de fevereiro de 2020
Matar Fascistas
Na sinopse de uma peça de Teatro levada à cena no Nacional
D.MariaII, ou sejas, paga pelos impostos de nós todos e de alguns outros
cidadãos da União Europeia, pode ler-se uma espécie de incitamento ao ódio que
para lá de lamentável chega a ser criminoso. “Há lugar para a violência na luta por um mundo
melhor? Esta família mata fascistas. É uma tradição com mais de 70 anos que
cada membro da família sempre seguiu. Hoje, reúnem-se numa casa no campo, no
Sul de Portugal, perto da aldeia de Baleizão. A mais jovem da família,
Catarina, vai matar o seu primeiro fascista, raptado de propósito para o efeito.”
É claro que há lugar à violência na luta por um mundo melhor, está nos livros e
até em artigos publicados pelo autor desta crónica e citados internacionalmente,
o que não há lugar, pelo menos por hora, é a este tipo de incitamento à
violência encapotado em cultura e sob o manto da liberdade de expressão. Este
tipo de atividade constitui, de acordo com o código penal em vigor, crime
punível de 6 meses a 8 anos de prisão. Onde anda o Ministério Público?
In Jornal Açoriano Oriental, edição de 18 de Fevereiro de 2020
12 de fevereiro de 2020
Trumpalhada
Bem ao seu jeito mediático e
exibicionista Donald Trump fez, na semana passada, aquilo a que se pode chamar
uma mutação do tradicional discurso do Estado da União num espectáculo de
variedades. Provocou o Regime de Maduro & Friends, mandou recados para
dentro do seu Partido, apelou à participação dos Americanos na mudança,
desafiou os democratas e ainda conseguiu fazer com que Nancy Pelosi cometesse
um dos mais infantis erros que alguém na sua posição poderia cometer, rasgar um
discurso em frente às câmaras, em direto, e enquanto o Presidente ainda o
proferia e depois de ter aplaudido de pé algumas das suas intervenções. Este
episódio e o acumular de erros que os Democratas têm vindo a cometer desde a
eleição de Tump em 2016, fizeram com que o Presidente atingisse os níveis mais
altos de popularidade desde a sua investidura. Com o desemprego mais baixo dos
últimos 50 anos e a economia a crescer como não se registava desde 1995, Trump
tem a linha aberta para a reeleição para o seu segundo mandato. Do outro lado, Bernie
Sanders e Elizabeth Warren ainda não
perceberam “Porque não houve socialismo na América”.
In jornal Açoriano Oriental edição de 11 de Fevereiro de 2020
30 de janeiro de 2020
Brexit
Se há
incontornáveis filósofos políticos na história da modernidade, metade deles medraram no Reino Unido. Para
confirmarmos essa preponderância britânica e a sua dedicação às grandes
questões da humanidade bastaria citar nomes como Hobbes, Locke ou Hume, porventura
o mais importante pensador do Iluminismo Britânico, ou até Hayek que, nascido austríaco,
se naturalizou britânico e em Londres desenvolveu grande parte das suas teorias
económicas e monetárias. Ainda recentemente perdemos Scruton que em 1998 trouxe
aos escaparates “An Intelligent
Person’s Guide to Modern Culture” obra que nos ajuda a perceber um conservador-liberal.
A Rainha Vitória e Churchill são outras duas referências nas relações
internacionais. Também Boris Johnson, é uma lufada de ar fresco nas Ilhas
Britânicas desde o desaparecimento de Margaret Thatcher. Um conservador-liberal,
irreverente, um intelectual de referência e um jogador da alta política que
leva o Reino Unido à porta de saída da União Europeia e deixa essa transformada
numa espécie de Vénus amputada.
In, jornal Açoriano Oriental, edição de 28 de Janeiro de 2020
22 de janeiro de 2020
Lagoa do Fogo
Falhei, inadmissivelmente, as primeiras duas
crónicas do ano. Não porque não tenha havido assunto para escrever mas por
manifesta falta de tempo. Primeiro a família, depois o trabalho que me poe o
pão na mesa e depois o resto. Nesse resto, que não é nem pouco nem desprezível,
cabem os meus Açores, onde nasci, escolhi viver e acima de tudo ser cidadão
ativo e “irrequieto”. É difícil viver nos Açores assim, sempre foi difícil
viver nos açores onde até os ricos são pobres e onde o poder, desde sempre,
tende a assumir laivos de arrogante totalitarismo ou, no mínimo, tende ao pensamento
único. O poder vai agora, só depois de instalada a polémica pública, ouvir o
Povo, numa abertura feita de palavras mais do que de atos, acerca do que agora
chamam de estudo prévio mas antes era projeto de um novo miradouro, cheio de
contemporaneidade e materiais importados, retretes e afins, ali para os lados
da Lagoa do Fogo. Bravo, seria um ato louvável, não fora ele feito apenas a
reboque das criticas publicas e tal como faz o “cachorro vagabundo” ganindo e
com o rabo metido entre as patas traseiras escondendo as partes escassas da sua
virilidade.
In Jornal Açoriano Oriental edição de 21 de Janeiro de 2020
2 de janeiro de 2020
Diário dos Açores 2020.01.01
1 - Do que vivemos em 2019, sente que 2020 vai ser muito diferente nos
Açores, no plano geral, em termos económicos e políticos?
2020 é ano de fim de quadro
comunitário e de eleições regionais , supostamente seria um ano de muitas metas
e de muitos desígnios, convulsões até. O orçamento regional vai ser maior do
lado da receita por força do aumento das transferências da república ao abrigo
da Lei de financiamento das Regiões Autónomas. Na decorrência desse aumento da
receita, apesar do mesmo indiciar o arrefecimento da economia em 2018, havendo
mais alguma disponibilidade financeira e orçamental e sendo a economia dos
Açores muito dependente do orçamento regional, é natural que se registem
pequenas evoluções na economia das nossas ilhas. No entanto, o grande problema
económico da nossa comunidade política continua a ser a debilidade do tecido empresarial
que ainda ficou mais fragilizado depois das crises económica e financeira que
vivemos à escala mundial. As pequenas e médias empresas que resistiram à crise
ficaram muito descapitalizadas e as que desapareceram não foram substituídas
nem é possível que venham a sê-lo. A regulação não permite que os empresários
retomem a atividade económica, ou se
reformam, ou vão para o desemprego e a indigência e tornam-se trabalhadores por
conta de outrem. Na verdade, perde-se muita criatividade e empreendedorismo por
via da regulação demasiado apertada e desnecessária. O Estado/Região é
obsessivamente regulador, está-lhe no ADN. Uma economia altamente regulada e
centrada no estado, e um sector de investimento e inovação “keynesino” assente
em subsídios estatais cuja atribuição é só por si um instrumento regulador
pernicioso, não cresce sustentávelmente, promove enormes desigualdades sociais
e impossibilita uma franja significativa da sociedade de ter acesso às mais
diversas oportunidades. As decisões políticas condicionam demasiado o plano
económico. Uma coisa é certa, há um crescimento do sector terciário e uma certa
consolidação dos subsectores da hotelaria e restauração e isso poderá aliviar
um pouco os números do desemprego no próximo ano e consequentemente terá reflexos
nos números relativos à pobreza. Mais investimento público menos desemprego,
menos pobreza, é o que se espera em 2020, ano de ir a votos nos Açores.
2 - As eleições regionais são acontecimento incontornável neste 2020.
Qual a sua perceção em termos de estratégias dos partidos e da mobilização dos
eleitores?
Analisando em jeito aligeirado o
que poderá acontecer nos Açores no próximo ano do ponto de vista político
digamos que há uma meia dúzia de análises que se podem fazer sendo que todas
elas passam, incontornavelmente pelas eleições regionais de outubro próximo. Na
realidade, 2020 é um ano importante para a democracia e para a autonomia dos
Açores. Temos eleições regionais lá para Outubro e as eleições são a festa da
democracia sendo as regionais a grande festa da autonomia constitucional. A
próxima legislatura será a última em que o Partido Socialista pode indicar
Vasco Cordeiro, o maior ativo político que o PS detém no momento na Região,
para o cargo de Presidente do Governo dos Açores uma vez que por via da lei de
limitação de mandatos Vasco Cordeiro será o primeiro Presidente dos Açores a
não ter a possibilidade de cumprir uma quarta legislatura. A implantação que o
Partido Socialista já tem nos Açores,
mercê de clientelas políticas que foi construindo e consolidando ao longo dos
últimos 23 anos de poder e o capital político do seu líder, deixam claro quem
será o grande vencedor das eleições do final do ano. Não pode, no entanto, o
Partido Socialista tomar isso como certo. Há, na verdade, idiossincrasias
locais que podem alterar radicalmente o sentido de voto e há algumas franjas do
eleitorado esclarecido, mais urbano e
mais volátil que manifestam já algum descontentamento com a governação
socialista. Basta um descuido e o PS pode perder deputados numa ou duas ilhas
das mais pequenas e mais um ou dois nas ilhas maiores. Cabe à oposição fazer
também o seu trabalho. Vasco Coreiro parte com muita vantagem para esta corrida
desigual, “nos primeiros cinquenta metros leva cem de avanço”.
Do lado da oposição a novidade é
que vamos assistir a um PSD, com uma nova liderança. Desejado pelos militantes,
empurrado pelo aparelho, levado ao colo pelos parceiros, José Manuel Bolieiro
tem a responsabilidade de liderar o maior partido da oposição e de fazer pontes
com os autarcas e restantes forças partidárias, rumo a 2024, não lhe é exigido
que ganhe eleições agora, seria injusto fazê-lo. O Bloco de Esquerda
aproveitará a boa performance eleitoral nacional para tentar, nos Açores,
conquistar a condição de 3ª força política e posição de charneira caso o PS
tenha algum desaire eleitoral que, só pode acontecer, por razões excepcionais
como já referi. O Bloco ultrapassará assim o CDS, de onde se podem esperar
ainda algumas surpresas nos próximos tempos com o congresso marcado e adiado
para este início de ano.
Surpresas podem também vir das
novas forças políticas emergentes, PAN, CHEGA, ALIANÇA, INICIATIVA LIBERAL e
LIVRE, sendo que os únicos, destes novos partidos, que estão minimamente
organizados nos Açores são o Aliança e o PAN, todos os outros carecem encontrar
figuras e construir estruturas para poderem alcançar o objectivo de eleger
deputados.
O fator surpresa pode funcionar,
por exemplo em São Miguel, se um qualquer destes partidos, mais à direita,
confirmando-se a falta de habilidade do CDS em recuperar o seu eleitorado perdido,
conseguir um cabeça de lista com peso eleitoral significativo e uma equipa
minimamente aceitável e assim alcançar o desiderato de eleger um Deputado.
De resto, não se podem esperar
grandes surpresas, o eleitorado corresponderá à chamada quanto mais os partidos
da oposição demonstrarem vontade e apresentarem alternativas, caso contrário
teremos Vasco Cordeiro num passeio tranquilo até Outubro de 2020 e um Partido
Socialista empenhado em encontrar, ou perdido em lutas fratricidas, pela
sucessão ao “Gigante da Covoada”.
In Jornal Diário dos Açores, edição de 01 de Janeiro de 2020.
31 de dezembro de 2019
Açores primeiro
SATA sempre! São duas parangonas que jamais olvidaremos.
Não se cumpre a Autonomia dos Açores sem a SATA e as suas ligações regulares
entre ilhas. Na verdade a companhia aérea regional é um instrumento fundamental
de coesão social e territorial e tal como as mais amplas ou simples liberdades
só sentiremos a sua falta depois de a perdemos. Por isso, tal como é obrigação
de cidadania promovermos as liberdades coletivas e individuais, é dever de
cidadania promover e defender a nossa companhia aérea. Na passada semana,
confrontados com uma greve, absolutamente legitima até mesmo pelo “timing” e
com a massa salarial ameaçada por uma ave de arribação que foi logo dizendo que
“ vai doer”, a conjugar com um final de Outono em transição para o Inverno dos
mais tempestivos dos últimos anos, foi notável o esforço hercúleo que
trabalhadores de terra e do ar fizeram para garantir que todos chegariam aos
seus destinos a tempo de passar o Natal junto daqueles com quem desejavam
estar. Fomos os primeiros, entre os portugueses, a ter uma companhia de aviação
e saibamos manter este importante instrumento sempre ao serviço de todos os
açorianos e não dos interesses apenas de alguns.
In Jornal Açoriano Oriental, edição de 30 de Janeiro de 2019
26 de dezembro de 2019
Fui ao Mar...
Buscar Laranjas” … Mas só encontrei tangerinas.
Perdido nas páginas da poesia de Pedro da
Silveira, recentemente editada pelo Instituto Açoriano de Cultura e cujo título
achei delicioso, não resisti a completar
o mesmo com um tema natalício. O Natal açoriano, católico, conservador, reserva
aos aromáticos citrinos um lugar especial ao lado do trigo e da ervilhaca.
Junto ao Menino, deitado numa almofada de damasco, deixam-se as mais bonitas tangerinas.
Nunca soube o significado deste costume, mas também não é isso que interessa.
Importam sim, as palavras de Pedro da Silveira no seu magistral poema
intitulado “gazetilha” que calha bem nas nossas “guerras2 pelos assuntos do mar
e dos foguetões.
“A
liberdade que sei
E tenho por minha lei
Senhores políticos de Lisboa
Temo que não seria essa de que vos fazeis
promessa
Tão géneros tão boa… gato escaldado (demais
insulano dos Açores)
Fazem-me suar terrores
As liberdades plurais
Desde russas a francesas
Em traduções portuguesas
Chamem-lhes só liberdades
E a vossa
Pois seja a vossa vontade
(…)
Adeus passem muito bem
Senhores filhos da mãe."
In jornal Açoriano Oriental edição de 24 de Dezembro de 2019
Painel_Económico
Correio económico - Quais os
factos mais relevantes ocorridos em 2019 nas áreas económica e política nos
Açores?
Nuno Barata - A relevância económica de alguns
factos ocorridos ao longo de 2019 traduz-se muito facilmente num discurso sobre
o crescimento. Na verdade, este foi o ano em que a economia dos Açores mais
cresceu, contrariando o abrandamento do PIB de 2018. Certamente a indústria do
turismo tem uma enorme responsabilidade neste crescimento da economia e na
ligeira baixa do desemprego. No entanto, este foi também o ano em ficamos a
saber que a pobreza nos Açores aumentou muito significativamente em especial na
Ilha onde foi criada, supostamente, mais riqueza. Este facto, confirmado por
números irrefutáveis, vem confirmar o que venho a dizer quer aqui neste painel
quer em outros fora ou espaços mediáticos em que tenho participado. O
desenvolvimento insustentável mas sustentado constrói ilusões que tarde ou cedo
virão denunciar a decadência das contas públicas e um galopante aumento das
desigualdades sociais e exclusão dos mais pobres. Infelizmente os montantes de
despesa de capital das empresas não se reflete no aumento do VAR e por isso não
é possível remunerar melhor a força de trabalho nem sequer a qualificar da
melhor e mais eficaz forma.
Do ponto de vista político o ano
de 2019 fica marcado mais uma vez pelas conclusões do Tribunal de Contas sobre a conta da Região e à leviandade com que são
tratadas as sucessivas e recorrentes recomendações daquele órgão de soberania.
2019 Fica ainda marcado pela
perca incalculável e prematura de um dos mais promissores políticos dos Açores,
um dos poucos com dimensão nacional e internacional. Seria muito injusto não
lembrar nesta hora de balanço a partida do André Bradford, o Homem, o pai e
marido, o humorista, o escritor, o melómano mas sobretudo o político nesta fase
em que a humanidade carece de mais políticos e menos tecnocratas.
In jornal Correio dos Açores edição de 20 de Janeiro de 2019, suplemento Correio Económico.
18 de dezembro de 2019
Selvajaria
Mais uma vez as claques organizadamente desorganizadas, sem Rei nem
roque, gente sem dono, tomaram conta de Ponta Delgada e fizeram o que menos se
espera, ou talvez não, de um grupo de adeptos desportivos. Vandalismo quanto
baste e apelo à violência. A prática desportiva, mesmo que de alta competição e
negócio económico e financeiro, pressupõe bons hábitos. A estada do Santa
Clara, ou de outro qualquer clube dos Açores, na linha da frente do futebol
português é uma enorme valia para a indústria do turismo, quer em termos de
notoriedade de um destino que está em construção quer em termos de captação de
fluxos de viajantes em épocas de menos procura. Ao que me parece, de tantos
planos e projetos, quem nos governa pretende desenvolver essa indústria nos
Açores de modo a que venha ocupar o espaço económico que se vai esvaziando com
a perca de rendimentos do sector primário e a incapacidade de desenvolver o
terciário sem ser pela via dos serviços prestados a quem nos visita em lazer. Da
parte de quem vem fruir do que é nosso, exige-se que seja mais civilizado, sob
pena de tanta selvajaria criar anticorpos na sociedade Açoriana.
In Jornal Açoriano Oriental, edição de 17 de Dezembro de 2019
16 de dezembro de 2019
Reserva é reserva.
Há uma razão de peso, que na
verdade encerra em si mesma várias outras ponderosíssimas razões, para não
permitir a construção do miradouro e do subterrâneo na cumeeira da Lagoa do
Fogo, chama-se: Sustentabilidade. Este projeto não garante um único dos
principais parâmetros da sustentabilidade, são eles o económico, o social e o
ambiental.
Do ponto de vista económico este
é um projeto sem retorno direto, ou seja só gera gastos (custo) não gera ganhos
(lucros) como tal não é sustentável economicamente.
Se atentarmos à questão social
até podemos admitir que o mesmo alimente alguns egos, mas na verdade não há
ganhos sociais, bem pelo contrário, vai gerar algum emprego temporário na
altura da implementação e da construção mas posteriormente essa motricidade
social morre pela base.
Da ótica da sustentabilidade
ambiental nem se fala, não há qualquer tipo de benefício, bem pelo contrário.
Este projeto ao desenvolver-se numa área da Rede Natura 2000 deveria ter tido
em consideração a movimentação de terras necessária, a questão dos solos no
local e a sua instabilidade e permeabilidade ou impermeabilidade bem como a
existência de biótipos diversos. Promove, além do mais, a betonização de uma
área considerável para estabilização do talude e cria condições, ao invés do
anunciado, para o aumento da carga humana no local. Não são usados materiais
autóctones, aliás a esse respeito tem havido uma enorme falta de respeito,
transversal à sociedade açoriana.
Há muito para fazer na reserva
Natural da Lagoa do Fogo, muitíssimo mesmo, poderia começar por um projeto de
irradicação das gaivotas por exemplo, um caso de saúde pública, ou até por uma
fiscalização efetiva do uso da cratera e da sua área molhada, coisa que não
existe, fiscalizar nesta Região é um eufemismo. Podiam mesmo proceder à limpeza
de infestantes na zona, mas não, tudo isso dá trabalho e não mostra factos
transformáveis em votos, ao invés os governantes “facilitistas” promotores de notícias
em vez de gestores da coisa comum, preferem fazer o que tem sido costume, derramar
dinheiro que é o mesmo que dizer betão em cima de tudo e de todos.
Toda a zona entre os Foros da
Ribeira Grande e os Remédios da Lagoa, é propícia a ter controlo de acessos e
tem atrativos suficientes para se implementar um sistema de shutllle hop on hop of, esse sim capaz de garantir o controlo de
acessos e a pressão sobre o local, não apenas de pessoas mas principalmente de
viaturas, criaria emprego, valor acrescentado e sendo usados autocarros mesmo
que convencionais o ganho ambiental seria brutal. No mesmo trajeto e pagando
sempre o mesmo bilhete, que nunca poderia ser barato, o utilizador pode fruir
de, pelo menos, quatro paragens com potencial turístico, a saber: Caldeira
Velha; Miradouro da Lagoa do Fogo; Miradouro do Pico da Barrosa; Trilho da
Janela do Inferno. Isso para citar apenas aqueles que já são utilizados pois se
quisermos podem ainda falar da subida do Pega-Cão, dos Cachaços; da volta à
lagoa pela zona do Pico da Vela, Lombadas e muitos outros que não são
massificados mas que importa ir dando a conhecer para efetivamente se aliviar
as zonas onde é efetivamente perniciosa a pressão humana.
Não está em causa a qualidade nem
do projeto nem a opção estética, está em causa a Lagoa do Fogo, uma das nossas
“Galinhas dos Ovos de Ouro” que este governo está a correr o risco de matar
ainda antes dela por o primeiro ovo.
In, Jornal Diário dos Açores, edição de 15 de Dezembro de 2019
Sustentável?
Para falarmos de um destino turístico sustentável, temos que começar
pelo princípio. Serão os Açores um Destino Turístico? Mesmo admitindo que sim, o
que não é líquido, dissequemos o conceito de sustentável. A sustentabilidade
avalia-se, com seriedade, por três vetores: Sustentabilidade Económica, Social
e Ambiental. Do ponto de vista económico o “destino” assenta em camas, carros e
restaurantes construídos e comprados com fundos da União, ou seja é mais
sustentado do que sustentável. Do ponto de vista social, o “destino” representa
uma ínfima parte dos empregados mas dessa ínfima parte fazem parte a maior
parte do precários e dos mais mal pagos, estão aí em estatísticas (PISA) ainda
recentes os números da pobreza no dito “Destino Sustentável”. Mas, do ponto de
vista da sustentabilidade ambiental, a coisa torna-se do domínio do risível. De
facto os turistas poluem pouco, já os “locals” são uma raça pouco dada a cuidar
do ambiente, a título de exemplo: No último Domingo fui, como costumeiramente,
caminhar com uns amigos pelas “entranhas” da ilha de São Miguel, no regresso ao
carro, só nos derradeiros quilómetro e meio, juntamos uma saca de ração
abandonada que enchemos com lixo. Haja saúde.
In Jornal Açoriano Oriental, Edição de 10 de Dezembro de 2019
E a tropa?
É indiscutível que as Forças Armadas Portuguesas têm uma excelente
comunicação. No caso do apoio às populações afetadas pelos efeitos do furacão
Lorenzo isso foi bem notório.
Passados estes meses todos, os canhões foram-se
da ilha, o C-130 já nem tem verba para a “benzina” e o navio de apoio jaz no
Alfeite. É agora, no Inverno, na época mais sensível para a Ilha que devíamos
estar a ouvir falar da tropa e do estado. Não daquela tropa que chegou e partiu
depois de ter conseguido dez noticias boas. Não daquele estado que acha que
resolve tudo anunciando milhões da União Europeia como se fossem seus. Mas sim
daquele estado que usa bem os milhões no apoio às populações que mais precisam.
Eu, assutado com o que estava a ver, avisei os Florentinos para se porem em
sentido, fui mal interpretado, é costume, talvez por ser “japonês”. Acontece
que a tropa fez dez e anunciou cem e todos os dias saiam notícias sobre tropas
a desembarcar, sacas de batatas a chegarem à Ilha, um ror de coisas chapadas
nas páginas dos jornais. No fim, nem o gasóleo era de qualidade que pudesse ser
usado
In Jornal Açoriano Oriental, Edição de 3 de Dezembro de 2019
26 de novembro de 2019
Património?
Parece que é Doutor em Ciências Sociais, não tenho bem a certeza porque
andei a buscar na rede e não encontrei senão algumas, poucas, referencias soltas. Francisco Sarmento dirige
o escritório da ONU para a Agricultura e Alimentação (FAO) em Portugal e na
Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) desde 2016 e esteve na
passada semana na Ilha Terceira onde
deve ter dito coisas lindíssimas mas, como de costume, pouco uteis para quem se
levanta de manhã cedo e se deita de noite tarde na luta diária (365 dias no
ano) para pagar as contas, cada vez mais difíceis de pagar. Num congresso de
Agricultura repleto de fatos escuros e gravatas contrastantes, com pouca gente
que vive de trabalhar a terra e muitos
que vivem de falar disso ou de
canibalizar o sistema com os seus produtos milagreiros ou com as suas
estratégias comerciais encapotadas de cooperativismo e associativismo, essa
criatura terá alvitrado a hipótese de candidatar a Agricultura Açoriana a
Património da Humanidade. Essa gente não sabe mais o que dizer para cair nas
graças de quem a mantém de barriga cheia. Deixem de convidar gente dessa, por
favor, pela nossa saúde mental.
In Jornal Açoriano Oriental edição de 26 de Novembro de 2019
22 de novembro de 2019
Sou
"Quero ver o que Terra me dá/Ao romper desta manhã/O poejo, o milho e o araçá/A videira e a maçã (...)" devia estar a fazê-lo com tanta afinação que alguém ali perto exclamou,: afinal também sabe cantar.
-Sim gosto de cantar mas não o faço mais amiúde por vergonha, disse timidamente.
- Vergonha? Mas qual vergonha, até canta bem!
-É por isso mesmo, disse eu, para não dizerem: Porra também cantas?
Mais adiante, num ambiente completamente diferente onde eu ia cansado, esfomeado, quase zangado mas cantarolando desta feita um poema do incontornável António Melo Sousa musicado pelo não menos incontornável Luís Bettencourt,
"Esta rosa que te ofereço,
é um dom que não tem preço
é a flor que em mim plantaste.
São pétalas são espinhos
que enfeitam os caminhos
do coração que assaltaste.
Há um jardim em teus olhos
feito de ternura aos molhos
e encantos de promessas…
hei-de ser o jardineiro
que cultiva a tempo inteiro
esse canteiro de esperanças.
Virão chuvas, virão ventos,
virão temporais aos centos
pra murchar nosso desejo,
esperaremos pelo Sol
como quem busca o farol
que anuncia o novo porto,
navegaremos os medos
como quem desfaz enredos,
que a vida sem aventura
é pássaro sem ninho,
é uva eu não dá vinho,
é um mal que não tem cura.
Esta rosa que te ofereço
é um dom que não tem preço
é o amor que em mim plantaste.
é a flor que em mim plantaste.
São pétalas são espinhos
que enfeitam os caminhos
do coração que assaltaste.
Há um jardim em teus olhos
feito de ternura aos molhos
e encantos de promessas…
hei-de ser o jardineiro
que cultiva a tempo inteiro
esse canteiro de esperanças.
Virão chuvas, virão ventos,
virão temporais aos centos
pra murchar nosso desejo,
esperaremos pelo Sol
como quem busca o farol
que anuncia o novo porto,
navegaremos os medos
como quem desfaz enredos,
que a vida sem aventura
é pássaro sem ninho,
é uva eu não dá vinho,
é um mal que não tem cura.
Esta rosa que te ofereço
é um dom que não tem preço
é o amor que em mim plantaste.
Perguntou-me
alguém em quem eu quase esbarrava: Quem és na verdade Nuno Barata, que ontem
eras atleta de maratonas, hoje cantas o amor e amanhã serás agricultor depois
da missa.
Entrei no café
Royal, o Pedro serviu-me um café entre duas piadas de circunstância e veio-me à
cabeça o Jorge Luis Borges:
"(...) somos aquilo que comemos, sem dúvida, mas
também somos cada livro lido, cada história vivida nesse mar de
letras e cada sensação experimentada ao longo de mil e um
romances(...)"
Sou todos os livros que li
Sou todos caminhos que percorri
Sou todos os amores que vivi
Sou um somatório
Sou matemática portanto.
19 de novembro de 2019
Açores Primeiro
No plano teórico repensar as politicas e planear o
futuro são uma obrigação de todos os partidos, corporações e até dos cidadãos, tenham
eles mais voz ou menos voz, mais palco ou menos palco. Nesse sentido faz toda a
diferença quem promove o debate saindo da sua “zona de conforto”, de quem
simplesmente não o faz por mero comodismo. Faz bem, por isso, o Partido
Socialista em trazer à liça as questões que incomodam os açorianos por forma a
traçar novos rumos. Foi assim que fez em 1995 António Guterres com os chamados
Estados Gerais e assim fez Carlos César com a Nova Autonomia de 1996, dois
movimentos que envolveram as elites nacionais e regionais (muitos independentes)
com o intuito de quebrar os ciclos longos de governação do PSD esgotado de
ideias e envolto em escândalos. Ora a diferença para este novo movimento está
desde logo na falta das elites, mas até dou de barato que as escolhas feitas
sejam as possíveis o que já é mais difícil de perceber é qual é o ciclo que o
PS-Açores pretende quebrar? Senão o seu próprio ciclo longo de quase 24 anos de
poder.
In Jornal Açoriano Oriental, edição de 19 de Novembro de 2019
14 de novembro de 2019
O bodo.
Estamos a entrar naquela altura do ano em que os privilegiados
e até alguns mais remediados que aspiram alcandorar o “next floor” do elevador
social, se agrupam, associam, organizam para como dizia alguém “jantarem
lagosta para angariar fundos para oferecer massa aos pobres”. Fazem tudo isso
acompanhado da mais elementar propaganda “marketista” e vão todos, muitos pelo
menos, nessa cantiga. Esta é, de facto, uma época em que nos sensibilizamos um
pouco mais com a pobreza, com a infelicidade e com a solidão do próximo mas
isso não dá o direito de nos refastelarmos enquanto desejamos uns pacotes de
arroz, massas e ou um mero “cabaz” com uns figos passados e uma garrafa de
vinho do porto de 5ª categoria. A caridadezinha, como lhe chamava o “reviralho”
que o estado social emergente dos anos setenta do século passado tanto criticou
e tentou acabar, afinal não deixou de existir, apenas se passou a chamar
“solidariedadezinha”. A diferença na prática é, no entanto, abismal, é que a
caridade católica de então seguia os ensinamentos de Mateus (6:3) “(..), quando tu deres esmola, não saiba a
tua mão esquerda o que faz a tua direita".
Hoje tocam trombetas.
7 de novembro de 2019
Esvaziar.
Dentro do PSD cabe uma panóplia de militantes que
vai desde os mais convictos social-democratas quase socialistas até ao mais
radical dos reacionários da velha direita passando pelos desambientados
liberais que encontraram em Passos Coelho um Porto de Abrigo. Com o advento de
Rui Rio ficou claro: não há lugar aos liberais e muito menos aos radicais que, equivocados,
permaneceram na esperança de um dia o PSD ser um partido de direita. São estes
os militantes que apoiam André Ventura e o CHEGA, foram os primeiros a tomar a
decisão de abandonar o partido e conseguiram eleger um Deputado nas últimas legislativas.
O discurso mais amolecido mas contundente do líder do CHEGA, nos últimos dias,
fez com que muita dessa gente envergonhada viesse para as redes sociais apoiar
o então proscrito radical populista de direita e quase o transformam numa
espécie de herói nacional que tem a coragem de dizer em voz bem clara e
inequívoca o que muitos pensam apenas no mais íntimo dos seus silêncios. Apesar
de me manter um liberar e achar que o caminho é o do liberalismo, prevejo um
grupo parlamentar do CHEGA na próxima legislatura.
31 de outubro de 2019
Postal para as Flores

Foto Frederico Fournier
A situação na ilha das Flores e por inerência no Corvo, é equivalente a um "Estado de Guerra". Se a oposição não percebe isso então não percebe coisa nenhuma e se os Florentinos esperam um regresso breve à normalidade, então estão redondamente enganados até porque isso além de ser impossível comprovaria que não precisam de porto para coisa nenhuma.
A hora é de contenção, racionamento, boa gestão de recursos e menos retórica e eloquência oratória. Não exportem gado, comam-no; Não importem ovos, importem galinhas; Não lastimem a adversidade, transformem-na em oportunidade; Aproveitem para desenvolver pequenas economias familiares; Regressem às hortas, à enxada e às sementes em lugar dos legumes congelados; Comam peixe fresco em vez de o exportarem; Cuidem-se como sempre souberam fazer e não descansem à espera que alguém (não se sabe quem) resolva tudo. Essa solução não vai chegar tão cedo porque não existe e não é avisado tomar medidas precipitadas.
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