30 de abril de 2019

SATA é insustentável


Faz muito bem Vasco Cordeiro em assumir definitivamente que os prejuízos da Azores Airlines não são sustentáveis. Pena é que haja no governo quem não pense assim. No mesmo dia em que isso acontecia, um membro do governo, num acto publico dizia, para quem quis ouvir, que com a chegada dos 321 long range a Sata dava a volta. A Ignorância e a falta de noção do que é uma empresa com a dimensão da SATA acumular um milhão de euros de prejuízo por semana chega a este ponto. É preciso agir, radicalmente, sob pena de toda a companhia ir pelo cano do esgoto,

24 de abril de 2019

Trapalhada



Depois da confusão gerada em torno da promoção do destino Açores, com o governo a querer alterar as regras sem o assumir claramente, a fazer um discurso por um lado pacificador do sector e dos trabalhadores da ATA ( a sua maioria escolhidos pelo próprio governo)  mas a praticar atos hostis àquela associação; Depois de termos todos embarcado no conceito da sustentabilidade apesar da prática governativa ser absolutamente inversa; Depois de termos todos acreditado no discurso de que a formação, a promoção e o investimento no sector do turismo nos ia resolver boa parte dos problemas sociais, apesar da prática e os números virem a revelar o contrário; somos agora confrontados com mais uma incongruência e uma contradição por parte de quem nos governa. O projetado Hotel para Água D’Alto é prova disso mesmo ou então é a confirmação daquilo que se diz à boca pequena, que existem mais do que um governo nos Açores. Marta Guerreiro, em seu abono, tem que nos esclarecer se é a favor ou contra o dito projeto. Caso contrário temos o direito de aferir que sim. O que é pena.

In Jornal Açoriano Oriental, edição de 23 de Abril de 2019

17 de abril de 2019

E a Autonomia?




Não foi com surpresa que li neste jornal a notícia e o desmentido/confirmação de que parte da promoção do turismo açoriano vai ser feita centralizadamente no Turismo de Portugal, isto é em Lisboa. Não foi surpresa porque a forma atabalhoada, para não lhe chamar outra coisa, como o governo saiu da ATA, depois de ter sido dono e senhor absoluto da mesma, sem assegurar os serviços mínimos, denunciou cedo este final. Termos chegado a este ponto de necessidade de recorrer a Lisboa para cumprirmos o que só a nós diz respeito é o maior atestado de incompetência que as instituições autonómicas podiam ter passado a si próprias. Resta saber se esta foi uma consequência ou se, pelo contrário, era mesmo este o objetivo. A autonomia dos Açores vai assim, aos poucos, definhando, entrando em insolvência acompanhando a tendência das finanças regionais e da economia destas ilhas. Perante isto o que interessa se os partidos têm candidatos em lugar elegível nas europeias ou não têm? Estamos num bonito caminho, sem dúvida.



In jornal Açoriano Oriental edição de 16 de Abril de 2019

16 de abril de 2019

Famintos



All in family. Podia chamar-se assim um filme sobre a política em Portugal nos últimos 40 anos. As ligações perigosas e ofensivas entre familiares diretos e adjacentes nos gabinetes ministeriais, e dos grupos parlamentares nos principais partidos do chamado arco da governação tem alimentado as páginas dos jornais nacionais e estrangeiros e as redes sociais nos últimos dias. Ora são notícias ora spin off. Não é caso de lesa pátria mas é caso de envergonhar até o Sagão se Deus não o tivesse já levado. “Só Deus leva os que mais ama”. Esta não é uma questão de legalidade que isso foi coisa que a malta lá pela assembleia dos republica tratou de deixar em branco para se ir garantindo mutuamente, esta é mesmo uma questão do domínio da ética, essa palavra que enche a boca dos políticos mas que os próprios esquecem na hora de fazer tilintar o vil metal ao rapar dos cofres do Estado. Essa gente, que ou é a primeira geração da liberdade ou descende diretamente dela, foi ensinada assim. Não tem no seu código genético servir o Estado mas sim servir-se do Estado. Passa fora.

In Jornal Açoriano Oriental, edição de 9 de Abril de 2019

4 de abril de 2019

Mais do que uma simples tradição


Sem nunca perdermos de vista as questões que se prendem com a história das Romarias Quaresmais da Ilha de São Miguel, sem sequer negarmos a sua origem na inexplicabilidade dos fenómenos telúricos de então e que hoje se explicam pelo conhecimento científico, devemos olhar as nossas romarias sempre concentrados na espiritualidade, na religiosidade, na fé que nos guia e menos no facto de estarmos a cumprir uma tradição.
Nós açorianos, enquanto Povo perseverante, que foi capaz de se manter nestas ilhas de cujas entranhas arrancou as pedras, as ervas daninhas e as silvas em busca do solo arável num trabalho hercúleo também fomos e somos capazes de arrancar de dentro de nós as pedras da  inveja, as ervas daninhas da  avareza e as “silvas do pecado” para encontrarmos na nossa mente a paz desejável e a capacidade de partilha e de caridade que faz da nossa comunidade um lugar melhor. Nós, Povo eleito, que foi capaz de enfrentar os desafios da natureza, suportou, ventos, chuvas e demais tormentas, para produzir e alimentar o seu corpo, sabemos também reunir as nossas forças para encontrar através da oração o alimento que tanto necessita a sua Alma.
Aquilo que nos traz aos caminhos e atalhos da nossa ilha, ano após ano, é mais do que cumprir uma tradição é mais do que palmilhar “ os santos trilhos tal como fizeram os nossos avós”, é percorrer construindo e tornando mais visível o caminho da salvação. É, sobretudo, uma manifestação de fé popular que está muito para além dos fenómenos culturais, é um impulso que cada Cristão desta Ilha do Arcanjo sente pelo menos uma vez na vida e que depois de experienciar jamais abandona a não ser que o corpo não suporte já os sacrifícios da romaria.
Não percamos de vista as tradições, tenhamos o cuidado de não  adulterar e aculturar a Romaria Quaresmal de São Miguel transformando-a num fenómeno apenas cultural, sobretudo não percamos a dimensão espiritual da Romaria transformando-a num objeto económico ou numa atracão para a industria do turismo. Esta manifestação de fé popular resistiu 500 anos, temos obrigação de a manter assim intacta e longe das tentações da espuma dos dias.
É desta forma, manifestando a nossa fé, numa corrente de oração sem parelha nas nossas Ilhas e por este Mundo Cristão a fora, que voltamos aos “caminhos da paz” neste 2019.

In suplemento O Romeiro Jornal A Crença edição de 5 de Abril de 2019

Roda Viva 29º Emissão

3 de abril de 2019

Bipolarização



A Assembleia da República, que poderia chamar-se, Assembleia dos Representantes do Povo, aprovou uma lei a permitir que os sócios das grandes sociedades de advogados sejam eleitos e por isso, simultaneamente legisladores. Todos podemos e devemos ter essa liberdade de ser eleitos Deputados, ou sermos candidatos a. Mais do que tentar saber quais os interesses que os dois grandes partidos têm nesse particular assunto. A questão mesmo é saber se a bipolarização do panorama político-partidário e o monopólio dos partidos na propositura de candidatos a Deputados não é, só por si, uma questão de enorme subversão da democracia. Os responsáveis são aqueles que, apesar de tudo, tendo opção de escolha variada, insistem em votar num dos grandes partidos, como se não houvesse outro campeonato, como se os pequenos não fossem capazes de fazer mudar o rumo do País e estejam condenados a não chegar a grandes. A letargia eleitoral e a abstenção permitem que uns decidam porque outros se alienam e demitem da causa pública. O problema não está nos eleitos, está nos eleitores.

In jornal Açoriano Oriental edição de 2 de Abril de 2019.

2 de abril de 2019

Números para todos os gostos




São muito animadores os dados relativos à evolução da economia e finanças públicas de 2018. Na verdade, os propagandistas do regime têm se desdobrado em “papaguear” que  0,5% de défice é um feito histórico. Sem dúvida, é de louvar, eu não sou daqueles que entende que há vida para lá do défice e quem o diz ou é irresponsável ou demagogo. Foi assim que ganharam eleições. Mentindo.
José Lúcio de Azevedo, porventura o primeiro e único historiador da economia portuguesa, no seu incontornável “Épocas de Portugal Económico”(Livraria Clássica Editora, 1929) diz a certo trecho e cito de memória por isso com possível imprecisão que “Para cada povo existe, como para os indivíduos, uma conta de Deve e Haver, que nos dá o quilate das suas prosperidades, e por onde, cedo, até para os maiores impérios, os pródromos da decadência se denunciam.” É uma frase de fazer arrepiar os cabelos de Jorge Sampaio (a pior memória que a república pode ter) e dos seus seguidores de então.
Na verdade, só há vida para cá do défice, para lá do défice há apenas sacrifícios e se não estruturáramos a nossa economia para nos libertarmos do serviço da divida jamais atingiremos o crescimento desejado para convergirmos com os restantes parceiros da denominada zona euro . Esse número fantástico do défice foi atingido com base numa redução da prestação de serviços do estado através de cativações orçamentais e um brutal aumento de impostos. Duas mentiras resolveram, rapidamente os problemas do estado mas não resolvem os problemas do país. A primeira mentira é o orçamento de Estado aprovado pela “Assembleia do Povo” que não é cumprido a segunda mentira é a de que foi virada a página da austeridade.
O total desrespeito pelo orçamento aprovado é mais uma prova de que a política à portuguesa carece de outros e melhores protagonistas, o governo não pode desrespeitar um documento do parlamento sem consequências politicas e eleitorais, estão em causa o próprio Estado de Direito Liberal, a tão propalada legitimidade democrática e a básica teoria moderna da separação de poderes.
A carga fiscal aumentou, de acordo com os dados do INE, para um  novo máximo histórico dos últimos 25 anos. O valor de impostos e contribuições entregue pelos portugueses, pelas empresas e outras entidades ao Estado em 2018 atingiu os 35,4% do PIB. Austeridade encapotada e dissimulada por uma narrativa mentirosa, falaciosa e demagógica que atira para diante, para gerações futuras, alguns dos problemas estruturais do país. Não foi virada a página da austeridade, nem poderia ter sido, pois que para atingir um défice de tal cifra só é possível com mais receita de impostos e cortes nos investimentos.
Contudo, a austeridade das “esquerdas encostadas”, citando Assunção Cristas, é diferente da das direitas coligadas de então. Mas,  não deixa de ser austeridade. Encerra, no entanto, uma enorme diferença, aliás duas, a primeira é que a austeridade de agora é dissimulada, disfarçada e indirecta enquanto a outra era assumida e directa e sentida nos recibos dos vencimentos, fazendo soar campainhas para que todos ganchássemos consciência colectiva do esforço que estávamos a fazer para o Estado superar as dificuldades em que Sócrates, Costa e companhia nos haviam deixado. A segunda é que esta de agora é feita com recurso a impostos indirectos e de consumo e a cortes cegos nos básicos serviços públicos o que se reveste de uma enorme injustiça por tratar os mais favorecidos da mesma forma que trata os menos bafejados pelos rendimentos. Os pobres e os remediados pagam a redução do défice do mesmo modo que pagam os estabilizados e os ricos. A cifra de 0,5% de défice foi também conseguida à custa de serviços públicos reduzidos (cativações e reduzida execução das despesas de capital/investimento), o que também contribui para um desequilíbrio entre os mais desfavorecidos e os que estão mais confortáveis na vida podendo pagar no sector privado. O Estado Socialista Republicano e Laico é assim o Estado que se faz fraco com os mais fortes e forte com os mais fracos.

In Jornal Diário dos Açores edição de 31 de Março de 2019.



27 de março de 2019

Vai tarde



A estrela pop que deslumbrou os portugueses e se deslumbrou com Portugal há uma meia-dúzia de 300 dias, está então desiludida com os tratos de polé que os lusos lhe deram e classifica o nosso Povo como ingrato. Madona, ela mesma em carne e osso, mais osso que carne, afirma sermos um Povo ingrato por não a termos tratado com as vénias devidas a uma estrela da galáxia a que ela entende pertencer. Pois eu até acho que a dita estrela pop tem um certo jeito para a cantoria e um corpinho de fazer animar qualquer marialva luso, apesar de já ter tido melhores dias e a sua excessiva extravagância estragar muitas vezes o arranjinho.
Parece que no centro da discórdia está a pertinência de um autarca em não autorizar uma triunfante entrada equestre num palacete de uma vila histórica de Portugal. Ainda bem que restam resilientes e resistentes neste país onde, normalmente, os governantes se vergam a qualquer “biscareta” que fala estrangeiro.
Quanto à dita figura da música popular internacional apenas me resta desejar que faça boa viagem e que já devia ter ido ontem.

In Jornal Açoriano Oriental edição de 26 de Março de 2017

21 de março de 2019

Avante camaradas


O Secretário-Geral do PCP, numa entrevista recente recusou a possibilidade do regime coreano liderado por  Kim Jong-un ser uma ditadura. Na mesma série de respostas o camarada Jerónimo afirma que  Nicolas Maduro não é um ditador. Já, o putativo sucessor do metalúrgico na liderança do partido havia defendido que a Coreia do Norte não é uma ditadura. Para estes seguidores do camarada Estaline, a democracia é uma maçada e bom mesmo era chegar ao poder sem passar por eleições, a revolução assim era muito mais popular, nem que para isso fosse preciso exterminar todos os que se opusessem ao regime como fizeram os seus pais inspiradores, Lenine, Estaline, Mao, Ceausescu e por aí adiante. A Democracia contemporânea tem por garante a eleição, dos políticos, representantes do povo por escrutínio direto, universal e secreto. Qualquer regime que não passe por esse processo não é democrático. O que o PCP defende é a escolha dos poderes por uma espécie de grupo de supostos  sábios por conhecerem apenas uma verdade, o Comunismo. Essa gente está no governo de Portugal.


In Jornal Açoriano Oriental edição de 19 de Março de 2019

Poesia de intervenção

Sobre a poesia que hoje celebramos, sobre o centralismo que hoje combatemos e sobre  as ilusões que hoje vamos esbatendo no papel de "Velhos do Restelo", um poema de um grande da literatura Açoriana. Pedro da Silveira, o Pedro da Fajã Grande,  um Açoriano no Mundo, um dos poucos.



REQUIEM

Onde era a Vila com suas ruas e casas
agora é o asfalto do aeroporto.
Onde o Convento ainda a igreja
e talvez sernalhas e ratos
onde era a frescura do claustro.
Já não se vê onde morou James Mackay
e a Rua das Flores foi cortada ao meio.
O Avelar pegou de cabeça e outros
antes quiseram morrer que ver a morte,
cater-pillars e bull-dozers matando a Vila.
Mas onde tudo isso era e eles lá
e os plátanos da Praça e as araucárias
há cem anos guardando a paz das casas,
agora pousam aviões e há franceses.

Longe, numa cidade a que chamam Lisboa,
a Vila rendeu não sei quantos mil milhões
e mil nepotes sentam-se à mesa,
empunham facas e garfos, comem-na,
bebem-na, enfeitam-se, corneiam-se,
vão pensando se outras vilas – «lá na Ilha» –
ainda mais haverá para vender
a japoneses ou russos ou turcos
ou a um qualquer emir atomizado
da Arábia ou de Marte ou de Casa-do-Diabo.

Onde era a Vila não tem importância,
nem James Mackay, nem o Convento – nada!
Também eu se calhar serei vendido
e o preço (de saldo, claro está)
pode dar para dois rissóis com salada
e duas balas de peça

– que os políticos comem
e as fragatas decoram
Nossa Desgraça Lisboa.
            1972.

«Corografias», 1985

18 de março de 2019

Acima dos Açores só Deus.

Nesta mesma rubrica e na passada semana, com a ligeireza que a limitação de caracteres e a paciência do leitor exigem, abordei as questões do exercício da cidadania europeia como um veículo para garantirmos a nossa maior representatividade nos órgãos decisórios da União.
Essa representatividade nunca foi tão importante como agora, Na verdade, a simples possibilidade de vir a acontecer um Hard Brexit, desperta sensibilidades e faz soar campainhas de alarme por toda a Europa unida. A carta de Macron aos europeus da semana passada é bem um elucidário dos tempos que nos esperam e dos desafios que teremos que ultrapassar na construção da Europa tal como a desejaram os seus fundadores.
Na política caseira os poderes vão se descentralizando mas nem por isso se tornam mais hábeis ou mais democráticos ou, sequer, perdem os tiques de um centralismo metropolitano de outrora. Da São Caetano à Lapa, o PSD passou para a Guerra Junqueiro no Porto, mas nem por isso deixou de ser um partido centralista com o mesmo respeito pelas Autonomias constitucionais e pelos órgãos autónomos do próprio partido que tem um gato por um cão morto.
O PSD Açores não vai, pela primeira vez, ter um deputado europeu. Não vem qualquer mal ao mundo por isso, entre 1994 e 1999 o PS-Açores não teve um Deputado Europeu tendo delegado no então líder sindical José Manuel Torres Couto a função de representar os interesses dos Açores no PE, com recurso, inclusive, a um aluguer de casa de fachada em Ponta Delgada para, à boa maneira da construção de novas narrativas do socialismo autóctone, manter o fingimento. Torres Couto abandonou a política em 1999 por suspeitas de abusos na obtenção de verbas do Fundo Social Europeu, tendo sido absolvido, assim como todos os outros arguidos, já em finais de 2009 quando o processo chegou ao fim. A Ética republicana que enche a boca de muitos dos políticos de agora, naquela altura tocava nas consciências. Há coisas que não melhoraram com o tempo.
Recorde-se que, a falta desse deputado dos Açores no Partido Socialista Europeu não impediu o PS Açores, liderado por Carlos César a partir do final desse mesmo ano, de ganhar as eleições regionais que ocorreram sensivelmente dois anos depois na saudosa data de 13 de Outubro de 1996. Dai, a ideia de que esta foi uma pesada derrota para Alexandre Gaudência ser mais um wishful thinking da máquina socialista do que uma mera possibilidade.
Os Açores, não por serem periféricos, não por serem pobres, não por serem uma autonomia constitucional, não por ser Mota Amaral, apesar de também por isso tudo, deveriam estar representados sempre, em nome do interesse nacional, nas duas maiores famílias políticas do parlamento Europeu, o Partido Popular Europeu e o partido Socialista Europeu.
Essa “gentalha” que governa em Lisboa ou no Porto de olhos postos e boca aberta no Mar dos Açores, nas fontes hidrotermais, na mineração do mar profundo, na expansão da plataforma continental, na nossa posição geográfica como mais-valia para a nação na sua afirmação na economia azul, no espaço, na guerra nas alterações climáticas e todas essa demais parangonas que ao Povo dizem quase nada, sempre que tem uma oportunidade de tratar os Açores com desprezo fá-lo sem qualquer pejo.
O PSD dos Açores ameaça não fazer campanha eleitoral e não receber os candidatos, temo uma abstenção elevadíssima, vamos a votos, vamos nem que seja votar em branco para, tal como desafiei na passada semana, assim afirmarmos que aqui, no meio de Atlântico, tal como em 1975, somos uma aldeia de irredutíveis resistentes ao centralismo.
Não citarei Ciprião de Figueiredo neste particular até porque a feliz frase tomada pela Autonomia não é senão uma afirmação centralista, mas que o fogo abrase aqueles que se julgam acima dos Açores.

In Jornal Diário dos Açores edição de 17 de Março de 2019

11 de março de 2019

Exercer a Cidadania Europeia.


Anda por aí uma onda de indignação pela forma como o PSD de Rui Rio tratou o Dr. Mota Amaral no processo de escolha de candidatos às eleições europeias de Maio próximo. Onde essa que se compreende pelo estatuto do próprio, pela sua notoriedade nacional, pelo seu desempenho como europeísta, pela sua forma de estar na política, pelo simples facto de ser um político, no sentido mais purista do termo, e a europa neste momento difícil precisar mais de políticos do que de tecnocratas como aqui ou ali já escrevi e disse várias vezes.
No entanto, o que mais incomoda a classe político-partidária, em especial o PSD-Açores, não é o facto de Mota Amaral ter sido desconsiderado pelo PSD do Porto, mas tão só o facto de isso mesmo ser classificado como uma desconsideração pelos Açores. Lembro que já aconteceu no passado o Partido Socialista não ter um Açoriano em lugar elegível na lista nacional candidata às eleições europeias e não veio mal nenhum ao mundo por isso. A Madeira, com mais população do que os Açores, já esteve sem representação no parlamento Europeu.
Portugal e a Europa olham para nós (Açores) com especial bonomia e complacência. Na verdade, somos sobrevalorizados na nossa representatividade nos órgãos nacionais e europeus, desde as mais pequenas organizações ao mais alto nível da governação. Essa valorização não existe pelos nossos bonitos olhos, pela nossa posição geoestratégica (que só vale aos olhos de terceiros) ou pela nossa condição de ultraperiféricos, mas tão só pela nossa incapacidade de convergirmos até mesmo com os que estão em condições adversas como as nossas e distantes dos centros de decisão como nós estamos.
Mesmo a nível nacional, se consideramos a divisão administrativa por Distritos e os compararmos com as Regiões Autónomas, apenas 6 distritos têm menos habitantes do que os Açores, 3 têm aproximadamente o mesmo número e 10 têm mais do que os Açores sendo que 7 destes têm mais do dobro da população. Quer isso dizer que aplicada uma lógica (legitima) de representatividade numa lista nacional o primeiro candidato indicado pelas estruturas dos Açores iria, na melhor da hipóteses em 10º lugar da lista. Só uma logica de representatividade regional serve para sustentar, neste momento, que os Açores tenham candidatos em lugar elegível nas listas dos principais partidos.  Isso e o peso politico nacional do próprio candidato, como parece óbvio aconteceu num passado ainda recente com José Medeiros Ferreira.
Mas essa logica de representatividade pode ser alterada se a nossa participação cívica for maior do que a dos distritos com mais população que connosco “competem” por representação. Se votarmos mais, se participarmos mais nas questões europeias, melhor nos posicionamos no seio dos nossos respetivos partidos para a obtenção de lugares cimeiros nas listas. Se, ao invés, nos abstermos de participar civicamente nas decisões fundamentais para o nosso futuro, então aí perdemos as condições  de relevância que tanto buscamos.
Somos ou não cidadãos europeus? Queremos ou não sê-lo? Claro que somos e queremos ser. Só quem tenha estado muito desatento nos últimos 30 anos não percebe a importância que a União Europeia teve para o nosso desenvolvimento (ainda que não o tenhamos feito de forma tão célere e adequada quanto o desejado) . No entanto, não podemos olhar a Europa como apenas um financiador, a Europa não é nem pode ser para nós apenas o QREN e a discussão das “perspectivas financeiras” ou seja o planeamento financeiro plurianual da união, a cada 7 anos. O Projeto Europeu tem que ser participativo e uma das formas mais evidentes de manifestarmos esse nosso interesse em participar do projeto é precisamente na eleição dos parlamentares europeus.  Certamente não é com um nível da abstenção a rondar os 80% que vamos convencer os nossos parceiros nacionais e europeus da nossa importância e envolvimento na construção desta importantíssima organização internacional que é a União Europeia. Se, pelo contrário, conseguirmos convencer os eleitores de que a sua participação pode contribuir para mudar muita coisa, aí então estaremos no bom caminho para exigir seja de quem for, a nossa representatividade.

In jornal Diário dos Açores edição de 10 de Março de 2019



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